Luta 11ª Marcha da Maconha ocupa centro do Recife neste sábado Concentração acontecerá na Praça Oswaldo Cruz, com saída às 16h20. Entre principais pautas, estão uso medicinal da cannabis, guerra às drogas, abordagens policiais e direito dos usuários

Publicado em: 17/05/2018 12:49 Atualizado em: 17/05/2018 12:55

Foto: Arquivo/DP
Foto: Arquivo/DP

O Coletivo Antiproibicionista de Pernambuco (Cape), a Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), a Acolher, o Recifree e a Associação Canábica de Pernambuco (Cannape) realizarão neste sábado (19) a 11ª Marcha da Maconha do Recife no Centro da cidade. A concentração será a partir das 14h, na Praça Oswaldo Cruz, com saída às 16h20 em direção ao Pátio de São Pedro, onde ocorrerá o 5º Festival de Cultura Canábica - evento de programação cultural com apresentações de artistas e bandas locais.

Nessa edição, a marcha traz como principais lutas e demandas a descriminalização do usuário e regulamentação do uso de todas as substâncias psicoativas no país; a luta por uma política de desenvolvimento da maconha medicinal; a luta contra o genocídio da população negra; e contra a intervenção militar no Rio de Janeiro e a possibilidade de sua implantação em outras capitais.

A Marcha da Maconha é plural e cotidiana, feminista, antirracista e anticapitalista. A cada ano, o objetivo é perceber as novas demandas propostas pelos grupos que compõem sua organização, composta por moradores e moradoras das periferias da Região Metropolitana do Recife. A marcha luta por profundas mudanças no modo como as drogas são vistas e tratadas pela sociedade e propõe frentes de batalha relacionadas entre si.

Lutas
Pela descriminalização do usuário e regulamentação do uso de todas as substâncias psicoativas no país. A chamada “Guerra às drogas”, renomeada pelos ativistas como “guerra às pessoas pretas e pobres”, empodera polícias e milícias, alimenta e uma lucrativa indústria do pânico e do medo, enquanto mata e encarcera principalmente a população negra, jovem e da periferia. Essa forma de atuação não gera resultados que representem melhoria de bem-estar para a sociedade, não impede o consumo e traz como efeito colateral a criação de uma rede que gera mais mortes do que o consumo em si.

- Por uma política de desenvolvimento da maconha medicinal. Os efeitos terapêuticos da maconha são conhecidos há cerca de 2000 anos e comprovados por pesquisas mais recentes. Muitas doenças crônicas podem ser tratadas com o uso de remédios à base de THC, CBD ou um dos mais de 400 componentes da planta. Como impedimentos, pessoas que podem ser beneficiadas enfrentam um enorme tabu e a proibição, que leva ao atraso científico, e ao risco para a sua aquisição, seja através da compra, do plantio ou da importação de derivados. Graças à mobilização da sociedade, têm sido concedidos salvo-condutos para plantio caseiro e, em 2015, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) retirou o canabidiol do grupo de substâncias proibidas, reclassificando-a como substância de uso controlado, regulamentando assim sua importação.

- Contra o genocídio da população negra. A proibição da maconha tem origem racista. Chamada de “pito do pango”, foi proibida pela primeira vez no Brasil em 1830, tempo em que também se proibiam outros hábitos da população negra, como a capoeira e o samba. Sobre essa questão, Anamaria Faria Carneiro, militante da Marcha e integrante do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas - CEPAD aprofunda: “O controle do Estado a população negra foi e é devastador. Não podemos falar sobre a questão da legalização e regulamentação do uso de drogas sem fazer um debate sério e consistente sobre os temas de raça e classe que demarcam claramente a forma de gerir e propor políticas públicas no Brasil. O movimento da Marcha da Maconha não trata como ‘normal ou comum’ a realidade de encarceramento e homicídios em nosso país, eles são o efeito direto das políticas públicas sobre drogas que estão sendo implementadas”.   

- Contra a intervenção militar no Rio de Janeiro e a possibilidade de sua implantação em outras capitais. Iniciada após o Carnaval, que levou severas críticas ao governo Temer para a Sapucaí, a intervenção militar no Rio de Janeiro é um ato eminentemente político. O Brasil registra 57 mil mortes violentas por ano, grande parte em decorrência da equivocada política de guerra às drogas declarada contra a população negra e periférica, mesma parcela que figura como alvo central dessa intervenção. A Marcha da Maconha do Recife defende um projeto político que respeite a liberdade e a condição de vida de todas as pessoas. Nossa intervenção é pela legalização JAH!

Construção
Desde janeiro deste ano, a Marcha da Maconha promoveu reuniões abertas ao público com os objetivos de ampliar a capacidade de realização e de democratizar o acesso a sua construção. Deste processo também surgiram propostas de atividades  preparatórias criadas e encampadas por moradores e coletivos de diversas comunidades do Recife.
Mais de 15 atividades – oficinas, debates e o cineclube THCine – foram realizadas até então, em lugares como Ilha de Deus, Ibura e Cajueiro Seco. Essas atividades relacionam-se tanto com lutas mais amplas e comuns, mas também com pautas de interesse especial, como o uso medicinal da cannabis, a guerra às drogas, as abordagens policiais e o direito dos usuários.


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