Maternidade Dia das mães: mulheres lutam pelo direito natural de parir A Organização Mundial da Saúde lançou uma cartilha com 56 recomendações de cuidados para uma experiência de parto positiva

Por: Alice de Souza - Diario de Pernambuco

Por: Anamaria Nascimento

Publicado em: 13/05/2018 10:00 Atualizado em: 13/05/2018 09:12

No Hospital da Mulher do Recife (HMR), dos 7,4 mil partos, 74% foram normais. Foto: Peu Ricardo/DP (Peu Ricardo/DP)
No Hospital da Mulher do Recife (HMR), dos 7,4 mil partos, 74% foram normais. Foto: Peu Ricardo/DP

Sete em cada dez mulheres desejam ter um parto normal no início da gravidez. Poucas atingem esse objetivo. O Brasil é um dos países onde os anseios da mulher são mais negligenciados na hora de ter um filho. Apesar de estar rompendo as barreiras da chamada “epidemia de cesarianas”, o país ainda mantém uma taxa de 55,5% de partos cirúrgicos, quando o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 15%. A luta pelo direito à escolha da mulher ainda enfrenta mitos, preconceitos e a forte cultura da medicalização.

Na contramão do sistema estabelecido, essa discussão vem ganhando fôlego nos últimos anos. Em 1985, a OMS divulgou o primeiro artigo com recomendações para atenção ao parto normal, movimentando a classe médica a rediscutir suas práticas. Passou-se a discutir a humanização do parto, isto é, o respeito à mulher como pessoa em um momento singular da sua vida. É o cuidado também com a família e o nascimento sadio do bebê.

“Parto humanizado não é moda, não é parir na água, não é parir em casa. É mais do que isso. O que a OMS preconiza é o parto em ambiente seguro”, explica o obstetra Thiago Saraiva. Por isso, práticas até então corriqueiras hoje são consideradas violências obstétricas. Na visão da diretora do Hospital da Mulher do Recife (HMR), Isabela Coutinho, a humanização é “olhar a mulher como gente, respeitar o que ela quer (se deseja andar, sentar, deitar, etc) e agir baseado em evidências científicas. A mãe e o bebê são os protagonistas desse momento.”

No HMR, existem nove leitos para parto humanizado, com infraestrutura para alívio da dor sem uso de medicamentos, como banheira e aromaterapia. Desde a inauguração, a maternidade realizou 7,4 mil partos, dos quais 74% foram normais. Cynthia Siqueira, 22 anos, fez questão de procurar a unidade. “Foi muito tranquilo. A enfermeira ficou só olhando e orientando”, diz ela, mãe de segunda viagem. “O meu primeiro  parto foi em hospital particular, mas também foi normal. Tive a sorte de ter um médico que me encorajou. Antes de ter filho, a gente escuta muita coisa ruim sobre o parto, pensa que é um bicho de sete cabeças, mas não é”, diz.

O professor de obstetrícia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenador da maternidade do Hospital Santa Joana Recife, Edilberto Rocha, explica que os motivos para a epidemia de cesarianas no Brasil não é simplório. “O médico é uma das causas, mas não a única. Há questões culturais e financeiras. O próprio modelo de assistência brasileiro favorece. Em outros países, o médico do pré-natal não é o mesmo que assiste o parto”, diz. No Brasil, os planos de saúde só costumam pagar, em média, seis horas de parto normal ao médico, ainda que o procedimento dure mais. Por isso, os custos de um atendimento humanizado na rede privada pode custar até R$ 20 mil.

Neste ano, a OMS lançou uma cartilha com 56 recomendações de cuidados para uma experiência de parto positiva, ou seja, que cumpre ou supera as crenças e expectativas pessoais e socioculturais prévias da mulher. Na semana do dia das mães, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) lançou ação para reforçar três dessas diretrizes. São elas: não considerar apenas a dilatação de um centímetro por hora como parâmetro para indicação de intervenções médicas; evitar procedimentos médicos se a mulher e o bebê estão em boas condições; e respeitar o direito da experiência positiva, o que inclui a presença do acompanhante escolhido, a comunicação clara com a equipe e a liberdade de escolha da posição para dar à luz. Nas próximas duas páginas, o Diario conta histórias de mulheres que conseguiram ter as vontades atendidas no momento de se tornarem mães.



Obstetra e mãe de primeira viagem
A obstetra Larissa teve o seu primeiro filho em janeiro de 2018. Foto: Gabriel Melo/Esp. Dp (Gabriel Melo/Esp. Dp)
A obstetra Larissa teve o seu primeiro filho em janeiro de 2018. Foto: Gabriel Melo/Esp. Dp

Larissa Oliveira, 29 anos, já nem contabiliza a quantidade de partos que acompanhou. Da faculdade de medicina, passando pela residência em ginecologia e obstetrícia e o exercício da profissão em duas maternidades públicas, podem ter sido centenas deles. O mais impactante, porém, aconteceu há quatro meses e de uma forma diferente. Larissa saiu da condição de médica e encarou o papel de paciente, para se transformar em mãe. Rodeada de amigos, viu Murilo nascer.

No dia das mães do ano passado, ela havia anunciado a gravidez para a família. Desde o princípio, sabia que queria parto normal. “Entre o meu internato e a residência, pude acompanhar uma mudança visível na forma como os médicos lidam com o parto e a mulher nesse momento. Há oito anos, era muito comum a adoção de procedimentos desnecessários, como deixar a mãe em jejum”, lembra. Por já trabalhar em uma equipe que preconiza o parto normal, Larissa encontrou fácil informação e profissionais disponíveis. Fez até uma poupança para arcar com os altos custos. “O mais importante para mim era ter a confiança na equipe escolhida”, explica.

No último dia 4 de janeiro, ela estava em casa quando sentiu as contações aumentarem. Chamou a doula, também amiga. E decidiu se ausentar da condição de médica para mergulhar na experiência. Acabou descobrindo que nem a formação técnica é suficiente para a realidade. “A gente tem uma expectativa, mas na hora acontece de outro jeito. Mudou completamente a minha visão de parto. Eu fiz exatamente como as mulheres que eu assisti: gritei, chorei, chamei palavrão”, conta. Mesmo antes de regressar ao trabalho, ela já sabe que algo mudou. “É um choque de realidade. Sempre fui pouco intervencionista, mas agora serei muito menos.”

Só 5% dos bebês nascem em casa
Anaterra optou por um parto domicilar para o nascimento de Anahí. Foto: Gabriel Melo/Esp. Dp (Gabriel Melo/Esp. Dp)
Anaterra optou por um parto domicilar para o nascimento de Anahí. Foto: Gabriel Melo/Esp. Dp

É com a propriedade de uma especialista que a atriz e arte-educadora Anaterra Veloso, 27 anos, fala sobre o próprio parto. Desde antes da gravidez, ela já vivia um processo de conexão mais íntima com o corpo e buscava profissionais para auxiliá-la nessa vivência. A gestação de Anahí foi como o ápice dessa revolução. A menina de um ano e nove meses nasceu em casa, dentro de uma piscina inflável, acompanhada da mãe e do pai. Escolha consciente e orientada.

Foi conhecendo o relato de uma amiga que Anaterra decidiu ter um parto domiciliar. A pesquisa Nascer no Brasil, realizada pela Fiocruz, mostra que apenas cerca de 5% dos partos que acontecem no país são sem nenhuma intervenção. Gestantes com gravidez de baixo risco, ou seja, sem complicações, sem doenças associadas como diabetes e hipertensão, com bebê a termo e que entrem em trabalho de parto não induzido podem ter o parto em casa. Porém, os mitos e preconceitos ainda são grandes.

Anaterra teve o apoio determinante da doula e das enfermeiras obstetras do Demáter. Ao longo da gestação, devorou livros, filmes, buscou informações com especialistas e em sites de confiança na internet. Frequentou encontros com outras mulheres para tirar dúvidas e abandonar medos. Dessa forma, pode compreender cada mínima etapa do que é chamado de parto ativo. Inclusive que o universo do parto é cheio de ramificações. Até mesmo o parto domiciliar têm duas vertentes.

Cada passo do nascimento de Anahí estava previsto no plano de parto, um documento que detalha todas as escolhas da mulher no pré-parto, parto e pós-parto e orienta os profissionais. Caaso houvesse alguma intercorrência no plano A, havia plano B (transferência para um hospital de não-emergência) e plano C (transferência par um hospital público de emergência). Havia ainda um médico obstetra de backup.

No dia do nascimento do bebê, dois amigos ficaram de plantão para realizar as tarefas domésticas. Foram 14 horas de trabalho de parto, acompanhadas pelo marido e com som ambiente escolhido por Anaterra. “Quando ela nasceu, foi a coisa mais linda do mundo. Você vê o bebê e pensa: quero ter mais”, conta.

Filmes para ver
O Renascimento do parto
Olmo e a gaivota
O começo da vida

Livros para ler
Parto Ativo
Origens mágicas, vidas encantadas
O parto na água
Parto com amor

Hospitais se adequam ao parto humanizado
Desde 2017, o Hospital Guararapes aderiu ao projeto Parto Adequado. Foto: HG/Divulgação (HG/Divulgação)
Desde 2017, o Hospital Guararapes aderiu ao projeto Parto Adequado. Foto: HG/Divulgação

Cerca de nove em cada 10 partos nos hospitais privados brasileiros são cesarianas. As discussões sobre os direitos reprodutivos femininos têm levado as instituições a repensarem a estrutura disponível para partos humanizados. Segundo o Ministério da Saúde, desde a implantação da estratégia Parto Adequado, lançada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Hospital Israelita Albert Einstein e o Institute for Healthcare Improvement (IHI), há uma queda nos partos cirúrgicos. Na Região Metropolitana do Recife (RMR), duas instituições aderiram ao programa.

O Parto Adequado identifica modelos inovadores de atenção ao parto e promove mudanças no cuidado, a partir de práticas baseadas em evidências científicas. Para isso, são realizadas adequações nas unidades hospitalares, como criação de espaços específicos para parto humanizado, capacitação do corpo técnico e projetos de conscientização das gestantes. O Hospital Guararapes (HG), em Jaboatão dos Guararapes, foi o primeiro do estado a aderir, em 2017.

“A capacitações ocorrem desde a direção até o administrativo. Fazemos reuniões mensais com a equipe da estratégia e alimentamos toda semana uma base de dados”, explica a médica coordenadora obstétrica do HG, Helaine Rosenthal. O hospital realiza 400 partos por mês, dos quais 65% são normais. A unidade tem sala própria para partos humanizados, com equipamentos como bola suíça e equipe multidisciplinar disponível 24 horas, com enfermeiras obstetras e doulas.

A porta de entrada pode ser através do ambulatório SUS da unidade, por meio de médicos cadastrados ou na emergência. O valor cobrado, em caso de partos particulares com os profissionais do hospital, chega a ser metade dos custos médios do mercado. Lá também são realizadas rodas de gestantes para sensibilização, divulgadas sempre no site.

Neste ano, o Hospital Santa Joana Recife também ingressou no Parto Adequado. Há cerca de cinco anos, a maternidade já havia passado por adequações organizacionais e físicas, criando oito apartamentos para parto humanizado. Eles ficam no mesmo andar do bloco cirúrgico e dispõem de equipamentos de neonatologia. Durante o parto, uma sala cirúrgica também fica bloqueada para casos de intecorrência. Para parir nos apartamentos, que disponibilizam métodos não farmacológicos para alívio da dor, é cobrada uma taxa extra.

“Nós contratamos também uma equipe de médicos para ficarem disponíveis sete dias por semana, em caso de a paciente não ter médico assistente. Embora, orientemos as mulheres a chegarem já com um profissional”, diz o coordenador da maternidade do HSJR e professor de obstetrícia da UFPE, Edilberto Rocha. Lá, as doulas também são presença oficializada. A taxa média de partos normais da unidade é de 15% e, segundo Edilberto, vem aumentando.

Neste mês, o Real Hospital Português (RHP) também passou a disponibilizar uma sala adaptada para parto humanizado, onde a mulher pode ficar com quantos acompanhantes desejar e dispõe de banquetas, bolas, espaldar, som ambiente. Nesse local, não é permitida a analgesia. Dentro do bloco cirúrgico, também há uma sala igual, para casos de contraindicação de permanecer em apartamento. Lá, entram um acompanhante e um profissional assistente, como doula ou enfermeira obstetra. Também é cobrada uma taxa complementar.

“A gente pretende construir uma sala PPP (pré-parto,pós-parto e puerpério) e iniciamos a reforma da emergência. Também temos uma enfermeira obstetra plantonista desde dezembro e estamos capacitando e sensibilizadno a equipe”, afirmou o coordenador médico do RealMater, Eduardo Coutinho. A unidade conseguiu aumentar de cerca de 3% para 10% a taxa de partos normais realizados.

O papel que cabe ao pai quando elas são as grandes protagonistas
Gleiciani defende a presença do pai ao lado da mulher na hora do nascimento do filho Foto: Peu Ricardo/DP (Peu Ricardo/DP)
Gleiciani defende a presença do pai ao lado da mulher na hora do nascimento do filho Foto: Peu Ricardo/DP

O primeiro pilar de um parto humanizado é o protagonismo da gestante. A participação do companheiro ou da companheira de quem vai parir, no entanto, é fundamental, segundo as mães. Porém, essa presença muitas vezes esbarra no preconceito e no machismo. Falta incentivo e compreensão da família, de amigos e, principalmente, do mercado de trabalho em relação ao assunto. "Tem-se a ideia de que homem não é para isso, que a preparação para o parto uma tarefa exclusiva da mulher, mas no parto humanizado, a presença do pai é essencial", ressalta a jornalista Gleiciani Nogueira, 34 anos. O marido dela, Gleyvson Ferreira, 37, a acompanhava em todas as consultas pré-natal, nas rodas de conversa em grupos de gestantes e nas consultorias com uma doula.

A primeira filha do casa, Maria, de 6 meses, nasceu de parto normal humanizado. A equipe respeitou o plano de parto criado pela jornalista. Tocava Ave Maria quando a menina nasceu. Era o anúncio do milagre pessoal que Gleiciani e Gleyvson viviam após dois abortos espontâneos. "Tive duas perdas gestacionais. Só depois descobri a trombofilia. Por causa dos abortos, achei que seria impossível ter um filho por parto normal. Se eu fosse acreditar no que diziam os médicos para não tentar um parto normal por causa desse histórico, não teria tomdo essa decisão", conta.

O que a "salvou" das informações que a desistimulavam a ter um parto natural foi o fato de ter se cercado de informações. "Informação é a palavra chave para um parto humanizado. Li muito, frequentei muitas oficinas e rodas de gestantes para fazer minhas escolhas. Se eu puder aconselhar outras mães, diria isso: estudem, leiam, se informem sobre seus direitos. Isso associado a uma equipe que acredite nesse tipo de parto, pois a palavra do médico é muito forte nesse momento. Você se sente mais segura se tiver com profissionais que pensam como você", pontua.

O normal é não precisar medicar para ter filho
Priscilla não teve dilatação suficiente para o parto normal. Foto: Shilton Araujo/Esp. DP (Shilton Araujo/Esp. DP)
Priscilla não teve dilatação suficiente para o parto normal. Foto: Shilton Araujo/Esp. DP

Parto humanizado não é sinônimo de parto normal. "A humanização do parto vem do fato de ele deixar de ser medicalizado. Há três pilares para isso. O primeiro é o protagonismo da mulher na escolha da via de parto, então ela deve ser informada para que ela possa tomar uma decisão, e a escolha deve ser respeitada. O segundo é a obediência às evidências científicas. O terceiro é o acompanhamento multiprofissional, que ela possa ter acesso a um fisioterapeuta para a preparação do assoalho pélvico,  um nutricionista caso precise perder peso, a um pediatra que discuta as intervenções no bebê, além de uma doula, que são mulheres que ajudam outras mulheres nesse processo", explica o obstetra Thiago Saraiva. Se houver indicação de que a cesárea vai salvar mãe e bebê, é obrigação da equipe médica informá-la. Foi o que aconteceu com a consultora de imagem Priscilla Lobato, 35 anos.

Depois de 14 horas de trabalho de parto, sendo seis com nove centímetros de dilatação (dos dez necessários para o parto vaginal), precisou ser encaminhada para uma cirurgia. "Eu sempre quis ser mãe, queria um parto humanizado, mas desejava um parto normal. Fiz uma preparação intensa para isso e jamais agendaria um parto, apesar de saber que sempre existe a possibilidade de terminar em uma cesáream. Eu queria tentar e tentei. Esperei entrar em trabalho de parto. Passei por todas as fases dele. As primeiras contrações, a evolução até os nove centímetros de dilatação. Quando a equipe do doutor Thiago, em quem confio e que tem uma taxa de cesárea baixíssima, indicou a mudança de planos, sabia que aquele era o melhor caminho", conta.

"Foi um parto extremamente respeitoso. Eu vi tudo, como tinha pedido. Estava tocando a música Aleluia, como pedi. Deixaram a minha filha sobre o meu corpo. Meu marido cortou o cordão umbilical. Saímos todos juntos do bloco cirúrgico. Parto humanizado não é só parto normal, é o respeito pela mulher e pela criança a todo o momento. Foi o que tive", destaca.

O (Re)nascimento visto no cinema

Documentário é um marco no debate do nascer no Brasil. Foto: Elis Freitas/Divulgação (Elis Freitas/Divulgação)
Documentário é um marco no debate do nascer no Brasil. Foto: Elis Freitas/Divulgação

Recomendado por profissionais que trabalham em partos humanizados como guia essencial para entender o assunto, o filme O Renascimento do Parto é considerado um marco no debate sobre o nascer no Brasil. Na última quinta-feira, a segunda parte da trilogia chegou aos cinemas e aborda a questão da violência obstétrica como tema central. Em setembro, o terceiro e último filme será lançado. O documentário de Eduardo Chauvet levanta a bandeira do parto humanizado e é usado em rodas de debates de gestantes do estado. É ainda "prescrito" por médicos, enfermeiras e doulas para quem quer conhecer o cenário nas maternidades do país. "Quando fizemos o primeiro (em 2013), eu não tinha ideia da repercussão que teria nem havia a pretensão de o filme se tornar o que se tornou. A resposta e o retorno são bastante transformadores", afirma o diretor do documentário, o cineasta brasiliense Eduardo Chauvet.

A sequência do longa, lançado em duas salas pernambucanas (Cinemark Shopping RioMar e Cinépolis Shopping Guararapes), traz depoimentos de mães, ativistas, médicos e outros profissionais da saúde. O Renascimento do Parto 1 terminou 2013 com a segunda maior bilheteria de documentário nos cinemas do país. Em 22 semanas em cartaz, o filme passou por 50 cidades e foi selecionado para festivais dentro e fora do Brasil. O primeiro filme foi disponibilizado nessa quinta-feira na Netflix e também pode ser assistido nas plataformas NOW, Google Play, Vivo Play e iTunes.

A violência obstétrica é o fio condutor do segundo filme. Além de mostrar como se dá essa violação de direitos das mulheres, o filme aponta para experiências bem-sucedidas de parto normal praticados no Brasil e no exterior. A apresentadora de TV Fernanda Lima é uma das personagens, relatando como foi o parto normal dos gêmeos Francisco e João. "Após o lançamento do primeiro filme, tivemos a oportunidade de aprofundar temas relevantes. Os três documentários são obras conectadas, que formam um produto único e sequenciado. Algumas situações criadas nesse segundo filme serão respondidas no terceiro", afirma o diretor. "É um filme para todos nós. Costumo dizer que não é só para mulheres ou profissionais de saúde, mas para todo mundo que nasceu", completa Chauvet.



ENTREVISTA // Mariana Bahia, doula e consultora de amamentação
Foto:Mariana Medeiros/Divulgação (Mariana Medeiros/Divulgação)
Foto:Mariana Medeiros/Divulgação

Qual é a importância do protagonismo feminino em um parto humanizado?
Sem o  protagonismo da mulher não podemos falar em humanização do parto. É ela quem deve ditar as regras sobre o próprio corpo. Claro que sempre respeitando as melhores evidências científicas. Quem deve dizer como deve ser o parto é a mulher, não a equipe técnica. É ela quem vai parir, quem vai passar por todo processo, quem vai sentir as dores. Então, é a gestante quem deve dizer em que posição quer parir, quem serão os seus acompanhantes, o que ela quer comer durante o parto, quais são os procedimentos que ela autoriza ou não. Ela tem o direito de se negar a passar por um procedimento cirúrgico, desnecessário na maioria dos casos. O parto é dela e de mais ninguém.

Por que esse protagonismo foi negligenciado ao longo de séculos?

Quando o parto migrou da casa para o hospital, começamos a ter um atendimento bastante intervencionista. A figura central deixou de ser a mulher e passou a ser o médico. Obviamente, muitas foram salvas, já que antigamente morria-se bastante quando não se tinha acesso a uma cesariana, por exemplo. No entanto, a equipe técnica começou a usar de intervenções completamente desnecessárias, e o parto passou a ser visto como um grande sofrimento. A gestante não pode mais optar pela posição vertical e tinha que parir deitada, por exemplo. Outra intervenção que também se difundiu bastante foi a episiotomia (corte no períneo), e muitas passaram (e passam até hoje) anos sofrendo para retomar a sua vida sexual.

Como estão Pernambuco e o Brasil na discussão sobre parto humanizado?
Desde o lançamento do filme o Renascimento do Parto, o debate sobre parto humanizado cresceu bastante no Brasil. Muitas mulheres que não tinham informação começaram a buscar um parto respeitoso. É como se aquele filme tirasse um véu do nosso rosto e nos mostrasse uma perspectiva absolutamente diferente de tudo que crescemos ouvindo sobre parto. Em Pernambuco também. O Recife já é considerado um oásis de humanização do parto. É uma das capitais do Brasil que mais tem equipes humanizadas, e um hospital de referência nacional: o Hospital da Mulher do Recife. Aqui, também existem muitas rodas de gestante e puerpério. E muitas doulas também.

Qual é o papel e a importância da doula?

Doula é uma profissional que dá suporte físico e emocional no pré-parto, durante o trabalho de parto e no pós-parto. Nós ajudamos a tornar todo esse processo de gestar, parir e amamentar mais leve, cercando a mulher de informações atualizadas e de qualidade. Durante o pré-parto, conversamos sobre fisiologia de gestação e parto; ajudamos a formular um plano de parto (documento em que ela diz como quer o seu parto); trabalhamos mitos e medos. No parto, fazemos alívios não-farmacológicos da dor, somos as responsáveis por criar um bom ambiente e damos muito suporte emocional. No pós-parto, ajudamos com a amamentação e o puerpério.

Como o feminismo se relaciona com essas questões?

Feminismo e parto normal têm uma ligação muito profunda. A violência obstétrica tem por base a cultura patriarcal. Tudo se baseia na defectividade do corpo feminino. Ouvimos que somos baixas demais para parir, estreitas demais, gordas demais, magras demais, novas ou velhas demais. Mas será possível que 88% das usuárias do sistema suplementar de saúde são incapazes de passar por um parto normal? Até quando vamos acreditar que não dilatamos, que não somos capazes de parir? Eu acredito que quando todas entenderem o real conceito de feminismo, de empoderamento e de apropriação da própria história esse cenário irá mudar bastante.

Quais são os principais entraves para que essa discussão seja mais ampla no país?

Acho que os principais entraves para que essa discussão seja mais ampla são três: primeiro, a falta de informação da maioria da população; depois, uma cultura extremamente machista. O terceiro ponto é uma enorme resistência por parte de obstetras e enfermeiras obstetras em se atualizarem. Muitos profissionais estão nessa área há 20, 30 anos e se recusam a deixar de praticar atos totalmente obsoletos, que agridem física e emocionalmente a parturiente. Eu acredito que a mudança total partirá dessa nova geração que está vindo aí associada a uma mudança de comportamento das próprias mulheres que a cada dia estão se apropriando mais dos seus corpos.

Quais direitos humanos e reprodutivos as mulheres menos conhecem, mas são fundamentais para que elas façam escolhas quando engravidam?

A mulher brasileira desconhece seus direitos mais básicos. Acho que isso começa lá na adolescência quando falamos pouco sobre sexualidade com os jovens. Eu dou cursos de preparação para parto e é muito comum que a gestante não saiba o que está acontecendo no seu próprio corpo. Muitas sequer sabem qual é a diferença entre bolsa amniótica e placenta, por exemplo. Em relação ao parto, elas não sabem que podem e devem ser respeitadas nas suas escolhas. Muitas acham que episiotomia é algo necessário e que deve ser feito de rotina; outras acreditam que quando a mulher vai ligar as trompas ela precisa passar por uma cesárea. A lista é infinita.

Como garantir que todas as mulheres tenham acesso a um parto respeitoso?

É um fato que mulheres mais privilegiadas têm uma chance muito maior de ter um parto com respeito e bem sucedido. Elas podem pagar por uma equipe humanizada e têm mais acesso à informação. Mas, no Recife, temos o Hospital da Mulher. A mulher que reside na capital pode parir lá. Minhas experiências no Hospital da Mulher, até hoje, foram excelentes. Indico bastante.

 



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