Diario nos Bairrros Boa Viagem: As histórias que formam um bairro Mães, idosos, empreendedores, guardiões da natureza. É com diferentes matérias-primas humanas que Boa Viagem reforça sua identidade

Por: Alice de Souza - Diario de Pernambuco

Publicado em: 11/05/2018 07:00 Atualizado em: 11/05/2018 08:26

Encontros na praia se estenderam também para o mundo virtual, através de grupo de WhatsApp. Foto: 	Peu Ricardo/DP
Encontros na praia se estenderam também para o mundo virtual, através de grupo de WhatsApp. Foto: Peu Ricardo/DP

Com oito quilômetros de extensão, a Orla de Boa Viagem é muito mais do que uma das maiores áreas públicas de lazer da cidade do Recife. É um espaço de memória, local de encontros e reencontros, fonte de subsistência e saúde para boa parte dos 123 mil moradores do bairro. É onde todas as tribos se encontram. É homogênea e ao mesmo tempo plural. Entre os edifícios sombreando o mar e a faixa de areia, é cenário da história de muitas vidas.

A orla tem uma subdivisão imaginária, forjada de acordo com os anseios e gostos de diferentes gerações de recifenses. Há o quiosque preferido dos idosos, o point da paquera e do encontro dos jovens, o local perfeito para levar crianças e bebês, a área dos atletas e até mesmo aquelas escolhidas de acordo com preferências políticas. Nesta reportagem, o Diario monta uma espécie de DNA da orla de Boa Viagem a partir das histórias de personagens ícones da praia.

A orla de Boa Viagem foi o pretexto para o surgimento de um grupo de apoio mútuo de mulheres e mães da Zona Sul. Ansiosa por sair de casa depois do nascimento da primeira filha, a empresária Katarina Berardo, 32 anos, decidiu convidar algumas clientes da loja dela, a Puppet, e umas amigas para se encontrar no calçadão. A ideia era caminhar, levar os bebês para o ar livre e também conversar sobre maternidade. Do primeiro encontro para cá, surgiu um grupo no WhatsApp e até um bloco de carnaval.

O local de encontro delas é no Segundo Jardim, mas daquela proposta inicial ficou só a lembrança. “Viemos umas duas ou três vezes, no máximo, pois a logística de trazer os bebês não era simples. Mas ficou o vínculo e continuamos trocando informações, experiência e conversando pelas redes sociais”, conta Katarina. O Mamães no Calçadão tem 29 mulheres. “É um grupo bem heterogêneo. Tem até três que são da Zona Norte”, brinca Katarina.

Uma delas é a servidora pública Raffaela Meirelles, 34 anos. “Em Boa Viagem, como tem pouco parque, o calçadão é uma das melhores opções para trazer as crianças”, diz. De acordo com ela, o melhor dia é o domingo, quando parte da Avenida Boa Viagem é fechada, nas imediações do segundo jardim. É esse o dia escolhido pelas mulheres do grupo também para continuar levando os filhos, hoje quase com três anos.

A advogada Mônica Ali, 35, ressalta a importância do espaço ao ar livre na vida das crianças. “Cada vez mais os shoppings estão lotados. São lugares com aglomeração, que facilitam a transmissão de doenças. E as crianças precisam brincar, colocar o pé na areia”, conta. O Mamães no Calçadão originou pelo menos mais dois grupos, o Papaiz, dos maridos, e o Segundinhos, para aquelas que já tiveram o segundo filho.

Juntas no calçadão e na internet 
A orla de Boa Viagem foi o pretexto para o surgimento de um grupo de apoio mútuo de mulheres e mães da Zona Sul. Ansiosa por sair de casa depois do nascimento da primeira filha, a empresária Katarina Berardo, 32 anos, decidiu convidar algumas clientes da loja dela, a Puppet, e umas amigas para se encontrar no calçadão. A ideia era caminhar, levar os bebês para o ar livre e também conversar sobre maternidade. Do primeiro encontro para cá, surgiu um grupo no WhatsApp e até um bloco de carnaval.

O local de encontro delas é no Segundo Jardim, mas daquela proposta inicial ficou só a lembrança. “Viemos umas duas ou três vezes, no máximo, pois a logística de trazer os bebês não era simples. Mas ficou o vínculo e continuamos trocando informações, experiência e conversando pelas redes sociais”, conta Katarina. O Mamães no Calçadão tem 29 mulheres. “É um grupo bem heterogêneo. Tem até três que são da Zona Norte”, brinca Katarina.

Uma delas é a servidora pública Raffaela Meirelles, 34 anos. “Em Boa Viagem, como tem pouco parque, o calçadão é uma das melhores opções para trazer as crianças”, diz. De acordo com ela, o melhor dia é o domingo, quando parte da Avenida Boa Viagem é fechada, nas imediações do segundo jardim. É esse o dia escolhido pelas mulheres do grupo também para continuar levando os filhos, hoje quase com três anos.

A advogada Mônica Ali, 35, ressalta a importância do espaço ao ar livre na vida das crianças. “Cada vez mais os shoppings estão lotados. São lugares com aglomeração, que facilitam a transmissão de doenças. E as crianças precisam brincar, colocar o pé na areia”, conta. O Mamães no Calçadão originou pelo menos mais dois grupos, o Papaiz, dos maridos, e o Segundinhos, para aquelas que já tiveram o segundo filho. 

Eles desafiam  até os tubarões
O primeiro chega por volta das 4h. Aos poucos, os outros vão chegando. Alguns vêm com óculos escuros e boné, mesmo antes de os raios de sol saírem. Outros já chegam de sunga, prontos para o mergulho. Todos os dias, faça chuva ou sol, um grupo de pelo menos 20 amigos se reúne nas madrugadas da orla com a missão de tomar um banho de mar. A maioria deles é moradora de Boa Viagem e mantém a tradição há mais de três décadas. O point é o quiosque 29, nas imediações do edifício Le Corbusier.

Composto por homens dos 60 aos quase 90 anos, o grupo leva disposição de sobra para a praia, sempre das 4h às 8h, no máximo. Depois disso, ninguém quer dar chance aos raios ultravioletas. Morador do bairro desde o fim dos anos de 1960, o corretor de imóveis Fernando Valença, 71, é sempre um dos mais animados. Chega cedo para “tirar onda” com os atrasados. Ele, que viu Boa Viagem se transformar ao longo das décadas, encontra no mar um conforto para os problemas da coluna. “É a minha hidroginástica diária.”

Os amigos garantem que a água na madrugada é, além de mais calma, mais quente. Eles convencionaram chamar a área que frequentam como “Aquário de Deus” e garantem que, por lá, tubarão não ataca. “Quem é que vai querer carne de velho?”, brinca o aposentado Wladir Galindo, 60. Na dúvida, o jornalista aposentado Noé de Assis, 78, sai de casa geralmente com um porrete de madeira para a própria segurança. “Pode chover canivete, eu venho. Isso aqui é tudo, é saúde, é diversão.”

O pessoal do banho de mar sai da água geralmente quando está chegando a turma do dominó, que costuma ficar até um pouco mais tarde. Organizados, eles costumam levar café da manhã e pelo menos cinco tábuas para o jogo. José Antônio Ferreira, 67, joga futevôlei. Já Rogério Marques, 49, sai do Arruda para a Zona Sul. “Jogo há seis anos e sou dos mais vencedores. Faço questão de vir”, conta. 

A barraca que todos esperavam
O empresário Carlos Vasconcelos, 58 anos, pode dizer que atingiu o sonho de muita gente: trocar o terno e a gravata pela bermuda e o chinelo no ambiente de trabalho. Carioca, mas de pais pernambucanos, ele deixou para trás o trabalho de executivo na área da construção civil e veio morar no Recife depois de uma crise no setor. Decidido a recomeçar, começou a percorrer a praia com uma prancheta questionando os banhistas sobre qual o serviço desejado por eles. Assim começava a Barraca do Pezão, hoje uma das referências da orla.

Foram quatro meses de pesquisa com os frequentadores, caminhando das imediações do edifício Portugal até o Segundo Jardim. Segundo Carlos, as respostas positivas eram unânimes às ideias dele de criar um espaço onde houvesse música ao vivo, carta de drinks, pagamento em cartão e petiscos mais gourmetizados. Noventa dias depois de finalizada a análise, nascia Pezão. O nome é uma referência à primeira empresa patrocinadora da barraca e não um apelido.

“A minha surpresa foi que a aceitação do pessoal foi imediata. Tenho consciência de que, na época, foi uma ideia inovadora”, conta. Em alta temporada, a barraca abre de quarta a domingo. Em baixa, de sexta a domingo. “Mas o trabalho é de segunda a segunda. A diferença é que são trabalho e lazer”, explica. Na barraca, Carlos também assume o papel de conselheiro e ombro amigo.

Edson já plantou 1,3 mil coqueiros
Uma das figuras mais icônicas da orla é Edson Campos e Silva, 81 anos, criador do Parque dos Coqueiros. Com o objetivo de promover a educação ambiental e a ampliar a área verde da praia, em 21 de setembro de 1999, ele levou os netos para plantar quatro coqueiros na faixa de areia, próximo ao quiosque 28. Assim começou um trabalho que não tem data para acabar e já contabiliza 1,3 mil coqueiros plantados.

Edson era engenheiro de uma multinacional e encontrou na aposentadoria uma chance de deixar um legado para as futuras gerações. “Eu tinha uma vida muito agitada, viajando demais. Quando me aposentei, quis deixar para o Brasil um exemplo de amor ao meio ambiente”, conta. Os plantios são registrados no blog pessoal de Edson, Causos e Fatos. A maior parte deles ocorreu em Boa Viagem, mas dentro das estatísticas também estão ações em outros estados do Brasil, como a cidade de Piracicaba a capital paulista.

Até hoje, a maioria das mudas é plantada por crianças, mas Edson guarda com orgulho alguns plantios ilustres. Caso daquele que foi feito pelo presidente do Lions Internacional Wing Kun Tam, que deixou 100 coqueiros no parque. Ele também relembra as mudas plantadas pela tripulação de um voo entre o Recife e Miami. 


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