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Reportagem Retrato falado: as faces da violência Do início do ano até 8 de março, 30 representações faciais humanas foram feitas pelo IITB. Em todo o ano passado, foram confeccionadas 79 reproduções

Por: Wagner Oliveira - Diario de Pernambuco

Publicado em: 19/03/2018 13:54 Atualizado em: 19/03/2018 14:31

Tempo médio para a confecção de um retrato falado varia de duas a sete horas. Foto: Shilton Araujo/Esp.DP
Tempo médio para a confecção de um retrato falado varia de duas a sete horas. Foto: Shilton Araujo/Esp.DP

Um exercício de paciência, atenção e sensibilidade. Essa é a rotina de quem dedica suas horas de trabalho a revelar a face de pessoas suspeitas da prática de crimes em Pernambuco. O trabalho é lento e minucioso. Cada pequeno detalhe pode fazer grande diferença no resultado final. É a partir de uma longa e cuidadosa conversa com as vítimas ou testemunhas que os peritos papiloscopistas conseguem formar o rosto daquela pessoa que passará a ser procurada pela polícia. O número de confecções de retratos falados em Pernambuco neste ano já apresenta um aumento significativo em relação ao ano de 2017. Do início de janeiro até o dia 8 de março, os peritos do Instituto de Identificação Tavares Buril (IITB) fizeram 30 representações faciais humanas. Em todo o ano passado, foram confeccionados 79 retratos.

De acordo com o gestor do IITB, Pablo Carvalho, 90% das representações faciais feitas pelos peritos papiloscopistas são relativas a crimes de estupro. As demais são de suspeitos de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) e roubos, esses últimos em menor quantidade. “Os peritos do IITB são responsáveis por confeccionarem os retratos falados de todo o estado. Quando os depoentes estão nos municípios do interior, os peritos vão até eles. Em breve, teremos equipes em outras regiões de Pernambuco”, adiantou Carvalho. A técnica utilizada no estado desde 1998 tem sido fundamental para a identificação e prisão de criminosos. Um dos casos mais recentes onde o criminoso foi preso após a divulgação da sua imagem é o do homem suspeito de estuprar várias mulheres nas proximidades do Complexo de Salgadinho, em Olinda.

Após escolher suas vítimas em um site na internet, Alexandre Silva de Souza, 31 anos, fazia uma falsa oferta de emprego e atraía as mulheres para um lugar deserto, onde praticava os estupros. Após as denúncias feitas pelas vítimas, a Polícia Civil iniciou as investigações e solicitou a elaboração de um retrato falado. Depois que a imagem foi divulgada, informações sobre o seu paradeiro foram repassadas à polícia e o suspeito foi preso. Em depoimento, ele confessou ter praticado 13 estupros. “Uma das vítimas compareceu à delegacia e foi encaminhada para fazer o retrato falado. Iniciamos a investigação com o sistema de inteligência da polícia e pelas mídias sociais, e fomos fechando o cerco. Assim, recebemos uma denúncia anônima informando o local em que ele estava”, contou o delegado Eronides Menezes, titular da Delegacia de Peixinhos.

Técnica tem papel de peso nas investigações

Em uma sala reservada, vítima ou testemunha relata detalhes do rosto dos suspeitos. Foto: Shilton Araujo/Esp.DP
Em uma sala reservada, vítima ou testemunha relata detalhes do rosto dos suspeitos. Foto: Shilton Araujo/Esp.DP

As imagens reproduzidas pelos peritos papiloscopistas do IITB são fundamentais para o andamento das investigações. Existem casos onde a polícia não tem informações suficientes para iniciar o trabalho investigativo. É aí que entram as técnicas utilizadas pelos papiloscopistas. O chefe da Polícia Civil de Pernambuco, Joselito Kehrle, lembrou de alguns crimes que foram solucionados com a ajuda da reprodução facial humana. “O retrato falado é uma ferramenta de fundamental importância para as investigações. Tivemos casos recentes que foram concluídos com prisões graças à divulgação das imagens dos suspeitos. Isso aconteceu no crime que vitimou o jornalista Alexandre Farias, em Caruaru, e no caso do homem que estuprou várias mulheres perto do Complexo de Salgadinho”, pontou Kehrle.

O gestor do IITB, Pablo Carvalho, contou ainda que as outras técnicas realizadas pelos peritos também ajudam a identificar ou confirmar a identidade de suspeitos ou até mesmo de vítimas de assassinatos e acidentes. “Entre os trabalhos feitos pelos peritos papiloscopistas estão ainda o envelhecimento e rejuvenecimento dos rostos, os disfarces, as imagens de corpo inteiro, reproduções em 3D, o exame prosopográfico (descrição da face, de forma comparativa, destacando semelhanças ou diferenças entre duas imagens nos aspectos físicos gerais e específicos) e a reconstrução necrofacial, utilizada quando um corpo sem identificação está em avançado estado de decomposição ou de morte violenta ou por acidente”, explicou Carvalho.

Para que uma reprodução facial humana fique pronta são necessárias, em média, de duas a sete horas de trabalho. Atualmente, o IITB conta com uma equipe de quatro peritos papiloscopistas. “É um trabalho bastante complexo, que exige a precisão da imagem, assim como a imparcialidade do perito, no tempo mais breve possível. Nosso maior desafio é extrair as principais características, da forma mais homogênea possível, trabalhando com a morfologia e a simetria humana. Isso sem desrespeitar as vítimas ou testemunhas, que muitas vezes chegam aqui muito fragilizadas. Nossa aproximação tem que ser precisa e delicada”, detalhou o perito papiloscopista Pedro Ivo Cavalcanti.

O perito papiloscopista Neil Craveiro ressaltou que antes de conversar com os depoentes para fazer um retrato falado é importante saber as condições do local onde a pessoa estava para descrever os traços dos suspeitos. “Precisamos saber a posição na qual o depoente estava, as condições de luz e também o horário em que o crime aconteceu. Tudo isso é fundamental para o nosso trabalho. Além disso, não costumamos fazer essas entrevistas no horário das 11h às 13h, pois se o depoente estiver com fome não irá contribuir para um bom resultado”, ponderou Craveiro. Menores de 18 anos não entram nas salas de confecção de retratos falados sem a companhia de um adulto responsável. Os depoimentos para a reprodução das imagens de suspeitos de crimes devem ser espontâneos e as pessoas devem ser encaminhadas ao IITB por uma autoridade policial ou judicial ou ainda pelo Ministério Público de Pernambuco.

Imagem também de corpo inteiro

Perito Pedro Ivo fez a primeira reprodução de corpo inteiro no estado. Foto: Marlon Diego/Esp. DP
Perito Pedro Ivo fez a primeira reprodução de corpo inteiro no estado. Foto: Marlon Diego/Esp. DP

Em março de 2013, o Instituto de Identificação Tavares Buril (IITB) começou a produzir retratos falados de corpo inteiro. A primeira representação corporal humana divulgada em Pernambuco foi feita pelos peritos papiloscopistas Pedro Ivo e Inaldo Menezes. A imagem foi de um homem suspeito de ter estuprado uma adolescente em um bairro nobre do município de Caruaru, no Agreste do estado. O material retrata, além do rosto do suspeito, o corpo, as roupas, marcas, sinais e tatuagens. “Esse foi nosso primeiro trabalho em imagem de corpo inteiro e poucos dias após a divulgação do retrato falado o suspeito do crime foi preso. Isso é muito gratificante para nosso trabalho”, desclarou Pedro Ivo, que abriu mão da carreira de advogado para ser perito papiloscopista.

“Criei um bancos de dados com vários modelos de pessoas e peças de roupas, calças, camisas, bermudas, bonés, óculos, pulseiras, capacetes e outros acessórios. A partir disso, com base no depoimento da vítima ou da testemunha, vamos montando o retrato de corpo inteiro. Não é um trabalho fácil, pois escutamos muitos casos que foram de momentos difíceis para as pessoas que estão depondo. De todas as histórias que escuto fica um pouco de cada uma delas dentro de mim”, ressaltou Pedro Ivo.

Com 20 anos de experiência na elaboração de retratos falados, Solange Silva conta que as mudanças tecnológicas ajudaram o trabalho do peritos. “Quando comecei a trabalhar, fazíamos parte do desenho à mão e o restante com a ajuda do computador. Os resultados eram muito próximos dos suspeitos procurados. Hoje em dia, todo o processo é feito apenas pelo computador e temos um banco de dados muito grande com diversos tipos diferentes de rostos, olhos, narizes, orelhas e bocas. O tempo de trabalho continua o mesmo, mas o resultado é muito bom”, ressaltou. Solange disse ainda que o número de retratos falados de mulheres feitos em Pernambuco é muito pequeno. “Nesse tempo todo de profissão não fiz mais do que quatro retratos de mulheres”, contou Solange, que chefia o setor de retratos falados do IITB.



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