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Saúde Hanseníase no Recife é endêmica, subnotificada e em contínua transmissão

Publicado em: 06/12/2017 15:17 Atualizado em:

A hanseníase no Recife continua endêmica, com focos não notificados, em contínua transmissão e com diagnóstico tardio. É o que mostra pesquisa damédica dermatologista Renata Cavalcanti Cauás. O estudo de tendência temporal da hanseníase no Recife no período de 2001 a 2015, tema da dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) aponta que, nos 14 anos que compreendem o período dos dados observados, foram notificados 12.068 casos novos, dos quais 12,42% em menores de 15 anos de idade e 49,6% em pessoas com idade de 20 a 49 anos.

O estudo, orientado pela professora Vera Magalhães, aponta, ainda, que, embora haja uma tendência de queda dos coeficientes de detecção na população geral e em menores de 15 anos, esses coeficientes permanecem classificados como de "muito alta" endemicidade e "hiperendêmico", respectivamente.

A relevância de se investigar a população mais jovem, segundo Renata Cauás, se deve ao fato de que a detecção de casos em menores de 15 anos é utilizada como evento-sentinela, sendo um dos indicadores mais sensíveis para o controle da hanseníase, uma vez que se encontra relacionado com transmissão ativa e recente da endemia. "Pode-se também inferir que a exposição precoce ao bacilo aumenta a probabilidade de adoecimento e, sendo assim, a detecção em menores de 15 anos é tomada como um indicador de maior gravidade da doença", destaca ela.

No que se referem à forma clínica da patologia, os dados revelam que a hanseníase tuberculóide foi a mais frequente. E essa constatação, segundo analisa a pesquisadora, torna a situação mais preocupante, pois que esse tipo de hanseníase favorece a manutenção da endemia na cidade. "Esse é um indicador de alta endemicidade e evidencia tendência de expansão da doença pelo fato de acometer indivíduos imunocompetentes, revelando a presença de focos de transmissão oculto na comunidade", explica.

Também classificado como alarmante no estudo é o fato de haver contínuo registro (3,8%) de casos com incapacidade física grau 2, numa escala que vai de 0 a 2. Ainda quanto a essa categoria, 73,1% dos casos foram classificados como grau 0, considerando-se que cerca de 10,6% das informações sobre o grau de incapacidade foram não avaliadas ou ignoradas. Os resultados, na avaliação da pesquisadora, estão bem acima do esperado, mesmo para áreas endêmicas, principalmente em relação ao número de casos em crianças e adolescentes.

Quanto ao índice de detecção no Recife, observou-se uma redução ao longo do tempo, a dermatologista ressalta em seu trabalho que, a partir desse dado, é possível se medir a magnitude da doença, uma vez que esse coeficiente está relacionado com a incidência real e a agilidade diagnóstica dos serviços de saúde. Segundo Renata Cauás, somente conhecendo a realidade se pode estimar a endemia oculta, na qual está contida a força de transmissão da hanseníase. "Se a capacidade dos serviços de saúde em oferecer diagnósticos precoces melhora, o coeficiente de detecção pode com o tempo ir se igualando a incidência real, enquanto a endemia oculta tenderia a diminuir", complementa.

Os dados foram coletados a partir de informações contidas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), fornecidos pelo Sistema de Informação do Programa de Controle da Hanseníase do Recife. Já segundo dados do Ministério da Saúde, coletados pela pesquisadora, se comparado aos demais estados brasileiros, Pernambuco apresenta destaque em relação aos indicadores da doença. "Em um levantamento feitos entre 1990 a 2008, o estado aparece com um coeficiente de detecção de casos de hanseníase na população geral classificado como de 'muito alta' endemicidade", analisa.

Ao avaliar a relevância do levantamento realizado, a autora da pesquisa esclarece que estudos de tendência temporal fornecem um diagnóstico dinâmico da ocorrência de um evento na população ao longo do tempo e são importantes para verificar o resultado das medidas instituídas para controle de determinada doença. "O ajuste estatístico da série histórica, ao capturar a tendência do indicador, também pode permitir a predição de valores para os anos seguintes", afirma Renata.

Ratificando a importância dos indicadores levantados, a pesquisa ressalta que o coeficiente de detecção de casos novos estima a magnitude da doença, uma vez que é capaz de inferir a incidência real e a agilidade diagnóstica dos serviços de saúde e que os casos da doença com grau 2 de incapacidade avaliada no momento do diagnóstico, quando presente em altas proporções, demonstram insuficiência na qualidade dos serviços de saúde, ou seja, diagnóstico tardio.

Como balanço de todos os dados, a pesquisadora entende que "o cenário aponta a necessidade de maior treinamento das equipes de saúde e de contra-referência adequada, já que o Ministério da Saúde preconiza que a doença deve ser diagnosticada e tratada nas unidades básicas de saúde e longe dos centros especializados onde há o contínuo estudo da hanseníase".
 



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