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Perspectiva feminina Equidade de Gênero no Planejamento Urbano é uma das demandas do futuro plano de mobilidade

Por: Rosália Vasconcelos

Publicado em: 13/10/2017 07:04 Atualizado em: 13/10/2017 07:08

Para que as demandas e necessidades das mulheres no ambiente urbano se façam presentes nos projetos urbanísticos do Recife, é necessário prevê-las nos instrumentos que regulam o desenvolvimento da cidade. E para além do Plano Diretor que vem sendo trabalhado pelo Instituto da Cidade Pelópidas Silveira (ICPS). Segundo a secretária da Mulher, Cida Pedrosa, foi pactuado com o prefeito Geraldo Julio a meta sobre a Equidade de Gênero no Planejamento Urbano, para que o olhar feminino esteja em todas as instâncias de gestão e planejamento da cidade.

Entre as discussões previstas está a inclusão da perspectiva da mulher no Plano de Mobilidade do Recife, documento em elaboração, e na operação urbana do Plano Urbanístico de Santo Amaro Norte. “Queremos a participação das mulheres em todas as mesas e grupos de trabalho, planos setoriais, instrumentos urbanísticos, lei orgânica do município, lei de uso e ocupação do solo, Recife Participa, entre outros. Inclusive já foi garantida a participação da Secretaria da Mulher na Conselho da Cidade, que até então não tinha assento”, comemora Cida Pedrosa.

Ela lembra que  é fundamental o uso misto da cidade, bairros com usos diversificados para evitar a formação de guetos da pobreza, de onde surgem polos de prostituição, exploração sexual, tráfico de drogas e de mulheres, entre outros tipos de violência. “Nossa primeira grande experiência da inclusão da perspectiva de gênero nas discussões da cidade será na operação urbana de Santo Amaro Norte. Prédios de uso comercial e residencial, iluminação para pedestres, ampliação da oferta de serviços e equipamentos sociais que beneficiem as mulheres, como creches, postos de saúde, escolas, delegacias da mulher, policiamento comunitário, parques públicos com iluminação e segurança adequada”, detalha Cida.

Para a gerente geral de Promoção da Cidadania para as Mulheres da SecMulher, Inamara Melo, o papel da pasta é conscientizar a gestão sobre a participação feminina nesse processo. “Cada área da cidade, cada bairro, tem uma demanda diferente”, diz Inamara.

Diversas atividades estão sendo realizadas para conscientização das mulheres sobre o seu papel na cidade. Além do Seminário Donas do Pedaço, realizado em julho, haverá capacitação da equipe da pasta, dez momentos de escuta social e mobilização, sistematização de um documento que subsidiará a inclusão de propostas no debate do Plano Diretor do Recife e formação de mulheres. Destaca-se o projeto Cidade Segura, nas comunidades do Alto José Bonifácio e do Alto do Botijão, onde as mulheres estão sendo ouvidas para saber quais as necesssidades delas em relação à questão da segurança e da mobilidade.

 “É importante estarmos à frente, sobretudo no que se refere à moradia. Porque quando há desapropriações, são as mulheres  com filhos que mais sofrem. Também precisamos de contrapartidas para que a mão de obra local seja de nossas mulheres e que elas sejam treinadas e capacitadas para que os empregos sejam nossos”, defende Marli Marques, vice-presidente do Clube de Mães Santa Mônica, em Santo Amaro.

Ainda invisíveis os trajetos delas

A pesquisa de Origem e Destino (OD), base para a construção do plano de mobilidade, só considerou em sua metodologia viagens pendulares de trabalho, casa e estudo, que são tipicamente realizadas por homens. A análise é da ativista Lígia Lima, uma das coordenadoras da Associação Metropolitana dos Ciclistas do Grande Recife (Ameciclo), “As viagens feitas pelas mulheres no dia a dia vão além dessa lógica. Porque é a mulher que leva o filho à escola, ao médico, que assiste os pais, que resolve as pendências do lar. Quando se planeja a mobilidade apenas para os pontos e os horários de pico, desconsidera-se esse movimento. Tem que se planejar os pequenos deslocamentos, porque essas pequenas viagens são típicas de mais da metade da população”, argumenta Lígia.

De acordo com a Secretaria da Mulher, 54% da população do Recife é formada por mulheres. Já o Censo realizado em 2010 indicava que 38,7% dos domicílios são chefiados por mulheres. “Esses dados provam que as necessidades de gênero não são tão específicos assim”, completa Lígia. O Instituto da Cidade Pelópidas Silveira (ICPS), diz que como a POD será realizada anualmente, nas próximas edições haverá uma readequação da pesquisa.

A gerente geral de Promoção da Cidadania para as Mulheres da SecMulher, Inamara Melo, reforça que a mulher é minoria ao andar de bicicleta e a pé, justamente pela insegurança que esse tipo de deslocamento oferece. “A violência de gênero no espaço público aparece como a face mais cruel dessa desigualdade. Sabemos que até a década de 1990, 70% dos casos de violência contra a mulher aconteciam dentro de casa. Hoje, a metade dos casos acontece na rua. São dados muitos fortes que retratam a desigualdade da dinâmica de mobilidade entre homens e mulheres”, coloca Inamara.

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