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Educação Hélio, um arquiteto entre os xukurus Índio de 42 anos conquistou graduação inédita para seu povo com trabalho sobre história da tribo

Por: Ana Paula Neiva - Diário de Pernambuco

Publicado em: 20/08/2017 14:13 Atualizado em: 20/08/2017 14:22

Thácio Coelho/Divulgação
Thácio Coelho/Divulgação

Integrante da tribo indígena Xukuru, de Pesqueira, no Agreste, Hélio Ferreira Coelho acaba de conquistar um título histórico para seu povo: a graduação em arquitetura e urbanismo. Primeiro de sua tribo a se formar no curso, o índio mostrou que o passo inicial para conquistar objetivos é acreditar nos sonhos. Há seis anos, pensou em estudar em nível superior. Preparou-se e conseguiu uma vaga na Faculdade Damas, onde se formou na semana passada. No dia da colação de grau, fez questão de usar na cabeça o cocar e um colar de sementes no pescoço, símbolos da sua tribo.

Aos 42 anos, casado e pai de dois filhos, de 22 e 14 anos, Hélio é exemplo para toda sua família. Primeiro entre os 16 irmãos a concluir a faculdade, estudou em escola pública na maior parte de sua vida. Os pais tiveram que deixar a Aldeia Capim de Planta após conflitos na região e buscaram melhores condições de vida. Instalaram-se na zona urbana do município, a 215 quilômetros do Recife. Na cidade, o pai passou a trabalhar como operário na antiga indústria de alimentos Peixe. “Fiz até a quarta série na Escola Maria Brito, que pertencia à vila de operários. Depois, fui estudar no Colégio Cardeal, em Arcoverde”, lembrou.

Para Hélio, sua formação representa uma vitória diante das dificuldades e do preconceito que ainda perduram em relação à capacidade do povo indígena. “Meus irmãos mais velhos ajudaram muito meus pais com a educação dos mais novos”, disse. O pai dele já é falecido. Sua mãe completará 80 anos neste domingo. “Estamos nos reunido para comemorar a data. Vêm irmão e sobrinhos de São Paulo e da Bahia”, falou.

A ideia de fazer arquitetura e urbanismo surgiu da necessidade de conhecer sua própria história e a de seu povo, tema do trabalho de conclusão. “Quis conhecer a dinâmica da cidade (Pesqueira) depois da homologação das terras, em 2001”, disse. Hélio já possuía, desde 1996, uma empresa de eventos e estava sempre precisando de um arquiteto para assinar seus projetos. “Fui em busca do curso que, com certeza, me trouxe mais conhecimentos e me colocou à frente do mercado”, comentou o xukuru.

RESGATE
Com o trabalho Nação Xukuru de Ororubá, o progresso e o regresso: conflitos fundiários e a nova administração no território indígena de Pesqueira e Poção, em Pernambuco, Hélio trouxe uma versão atualizada da sua tribo. Buscou entender o processo de migração e retorno do povo Xukuru ao território original dos aldeamentos, na Serra de Ororubá, zona rural do município.

O estudo evidenciou conflitos vivenciados pelo povo desde o período da colonização portuguesa, que se prolongaram até os dias atuais. Os índios de Ororubá foram expulsos de suas terras por grandes fazendeiros e industriais no fim do século 19. Eles se dispersaram por bairros nas zonas rurais e urbanas do município. Somente em 2001 tiveram direito de retornar aos seus domínios. Na ocasião foi homologada a demarcação do território Xukuru de Ororubá na região. “Eu queria muito saber como nós, os Xukurus de Ororubá, chegamos até a cidade”, completou.

Segundo a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), cerca de 10 mil índios vivem num território de 27,5 mil hectares entre as cidades de Pesqueira e Poção. De acordo com o órgão, existem famílias morando em núcleos urbanos espalhados pelo município de Pesqueira, principalmente nos bairros Xucuru e Caixa d’Água.


32 mil índios em nível superior

De acordo com o Censo da educação superior de 2015, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 32 mil índios estão matriculados na educação superior em todo o país.  Entre as cidades onde existem cursos universitários do estado, como Caruaru, Arcoverde e Belo Jardim, há índios estudando biologia, direito, pedagogia, matemática. Também em Garanhuns, na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), há indígenas no curso de agronomia.

A rotina dos indígenas universitários também pode ser um desafio. Durante o tempo em que estudou no Recife, Hélio dividiu apartamento com um colega de turma e tinha que se desdobrar entra a capital e sua cidade. “Eu ia pelo menos duas vezes por semana para Pesqueira porque tinha que gerenciar minha empresa”, disse. “As pessoas acham que o índio não tem capacidade, que é uma figura folclórica e está ali somente para fazer seus rituais e artesanatos. Puro preconceito”, acrescenta Hélio.



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