• Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google Plus Enviar por whatsapp Enviar por e-mail Mais
Urbanismo A luta inglória para salvar o patrimônio Incêndio com mortes em casarão antigo reafirma necessidade de manutenção. Sem apoio, residentes tentam manter prédios

Por: Anamaria Nascimento

Publicado em: 11/08/2017 21:24 Atualizado em: 11/08/2017 21:24

Degradação faz parte do cenário urbano no Centro do Recife. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP.
Degradação faz parte do cenário urbano no Centro do Recife. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP.
O incêndio que matou um casal em uma pensão no número 366 da Rua da Glória, na Boa Vista voltou a acender o debate sobre a falta de conservação de imóveis particulares históricos. As edificações se tornaram um risco para quem mora nelas ou circula por vias como as ruas Velha, da Glória, da Matriz, do Aragão e Gervásio Pires. No cenário predominante de degradação, exemplos de cuidado mostram que é possível resgatar a beleza nos casarões históricos.

Villa Ritinha é exceção no bairro da Boa Vista. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP.
Villa Ritinha é exceção no bairro da Boa Vista. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP.
O Centro Cultural Villa Ritinha, na Rua da Soledade, é o exemplo mais icônico. A edificação da década de 1840 foi revitalizada e abriu as portas ao público em novembro do ano passado. Cerca de R$ 4 milhões foram gastos só na primeira estapa do projeto, num investimento do art designer alemão Klaus Meyer. Entre as ruínas, ele vislumbrou o espaço perfeito para um café-bar, um bistrô e uma galeria de arte.

Na década de 1970, o casarão de número 35 foi um prostíbulo. Para garantir discrição, camadas de cal e tinta cobriam pinturas de diferentes partes da Europa e azulejos portugueses. Sob as camadas foram encontradas obras de arte e objetos históricos. Afrescos neogóticos estão presentes em quase todos os cômodos, juntamente com obras sacras. Na escada de madeira, uma sequência de pinturas narra a descoberta do Brasil. “Muitos recifenses vêm aqui e ficam surpresos. Dizem que não sabiam que a cidade tinha tão belos imóveis. Se esse tipo de trabalho fosse feito nessas casas hoje estão degradadas, a beleza e o charme de uma época que está quase esquecida viria à tona”, ressalta.

Bairros de Santo Antônio, São José e Boa Vista foram primeiro polo de expansão da cidade. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP.
Bairros de Santo Antônio, São José e Boa Vista foram primeiro polo de expansão da cidade. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP.
De acordo com o alemão, desde a abertura, 12 mil pessoas já visitaram a casa. “Isso mostra interesse nesse tipo de espaço. Eu converso com muitos donos de imóveis antigos e mostro que, se investir, há um retorno não só em relação a questões culturais, mas também de valorização”, afirma. Segundo ele, mesmo que os esforços pessoais dos donos fossem maiores, ainda falta apoio do poder público. “Temos ruas mal iluminadas, sem arborização. Falta incentivo específico para esse tipo de patrimônio”, diz.

Klaus lembra de Lisboa, Portugal, como modelo que poderia ser tomado pelo Recife. “Na década de 1980, a capital portuguesa tinha a área histórica degradada. O poder público resolveu retirar impostos, incentivar as reformas e hoje a cidade é exemplo. Atrai turistas de todo o mundo”, pontua.
Moradores da área reclamam dos altos custos para reformas. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP.
Moradores da área reclamam dos altos custos para reformas. Foto: Gabriel Melo/Esp. DP.

Boa Vista
O bairro da Boa Vista tem 430 mil metros quadrados de área protegida como Zona Especial de Preservação ao Patrimônio Histórico. Apesar do zoneamento, o espaço conta com casarões em situação preocupante. Marquises desgastadas, ferragens expostas, paredes rachadas e muros prestes a desabar podem ser observados. De acordo com a lei municipal 16.284/97, são Imóveis Especiais de Preservação as construções com arquitetura valorosa para o patrimônio histórico, artístico, cultural. Elas passam a contar com a proteção da cidade e da própria comunidade onde estão situadas. No entanto, é de responsabilidade do proprietário a manutenção dos traços originais do edifício. Qualquer intervenção, sejam reformas ou reparos de manutenção, deve passar por análise da Diretoria de Preservação do Patrimônio Cultura (DPPC).


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.