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Especial Quando a violência fere a alma: a dor por trás das estatísticas Estado de Pernambuco vive onda de violência e números de estupro, assaltos e homicídios crescem. Uma das consequência é o aumento no índice de pessoas traumatizadas, buscando apoio psicológico e psiquiátrico.

Por: Alice de Souza - Diario de Pernambuco

Por: Anamaria Nascimento - Diario de Pernambuco

Publicado em: 28/05/2017 11:17 Atualizado em: 03/07/2017 15:18

 (Foto: Paulo Paiva/DP.)
Múltiplos episódios diários de violência reativaram a sensação de insegurança em Pernambuco. O estado soma 2.037 assassinatos em quatro meses, 45% do total de homicídios de 2016. A cada uma hora e meia, uma pessoa é morta. Por dia, são 340 crimes violentos contra o patrimônio, dentre eles assaltos a banco, ônibus e pedestres. Por trás dos números, histórias de pessoas que ficaram traumatizadas.

Em 2017, o Pacto pela Vida completou uma década. No mesmo ano em que foi implantado, começou o drama do policial militar Frederico*. Enquanto descansava em uma viatura, próximo à BR-316, em Serra Talhada, ele e outros companheiros foram alvejados a tiros. Dois morreram. Frederico passou a ouvir tiros e gritos. Chorava quando estava só, não conseguia dormir, mas continuou sendo escalado para trabalhar. “Fiz documentos pedindo para me apresentar ao Hospital da Polícia, na psiquiatria. Via sombras dentro de casa, alojamentos da unidade, comecei a beber”, lembra.

Depoimentos como o de Frederico são frequentes. Segundo a Polícia Militar, atualmente 25 policiais são atendidos no Centro de Assistência Social no Recife. Oito policiais apresentam pós-trauma.  Desde 2013, a quantidade de profissionais atendidos no apoio psicológico do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol) duplicou. “O armamento falha e é defasado em relação ao dos criminosos. A pressão é grande, o efetivo é menos da metade do necessário. E não há uma política de controle ou prevenção das doenças psicológicas”, alerta o presidente do Sinpol, Áureo Cisneiros. Pelo sindicato, são atendidos por mês 100 policiais civis com transtornos psicológicos e psiquiátricos. Outros 100 estão em lista de espera. De junho de 2016 a maio deste ano, quase uma centena de pessoas havia sido afastada.

“O risco não se dá somente pela ocorrência de um evento violento, mas pelo convívio diário com situações conflituosas”, analisa a psicóloga da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho, Daniela Sanches Tavares. Procurada pelo Diario, a Polícia Civil não respondeu. Os homicídios e crimes violentos contra o patrimônio tiveram redução em abril, em comparação a março, segundo a Secretaria de Defesa Social. “A queda nos números não é motivo de comemoração, pois sabemos que estamos distantes do que desejamos. Mas motiva a tropa e fortalece as diretrizes do trabalho daqueles que comandam as forças de segurança”, ressalta o secretário Angelo Gioia.

* Todos os nomes usados na reportagem são fictícios

O último relato sobre uma história de horror

 (Foto: Paulo Paiva/DP)

Mais uma vez trazer à tona as memórias de um dia difícil de esquecer. Com os olhos marejados, o bancário Jair* relembra as cenas do último assalto que vivenciou. Em dezembro de 2016, bandidos entraram na agência em que trabalha, atirando. Ele não tem certeza se foi o sétimo ou oitavo roubo presenciado em 33 anos de carreira, mas sabe que foi o pior. Mataram uma pessoa. Também acertaram no estresse e na depressão dele. Esta reportagem, promete, é o último relato de Jair sobre o fato.

Eram quase 18h. O atendimento ao público já havia se encerrado. O cofre estava fechado e não havia mais dinheiro na agência. Jair trabalhava na parte interna quando escutou um barulho. Um dos criminosos tentou chutar a porta. Em seguida, a primeira rajada. Ele se jogou ao chão e ouviu mais tiros. Na parte dos caixas eletrônicos, um policial reagiu e foi morto.

Jair já esteve sob mira de metralhadora e passou cerca de 40 minutos com as mãos estendidas. Contudo, a morte nunca esteve tão próxima. Ele passou 15 dias de licença. “Já faço acompanhamento psiquiátrico há três anos. Fiquei com insônia, estresse, irritabilidade. É difícil entrar na agência”, conta. Dos 13 funcionários do banco, seis já pediram licença médica. Se uma caneta cai ou estoura um pneu próximo, os funcionários ficam assustados. “Houve investimento na proteção dos cofres, mas não na segurança do funcionários”, reclama.

Em 2017, segundo o Sindicato dos Bancários, foram 63 investidas contra bancos em 40 municípios. Dentre as ocorrências, 12 assaltos e um sequestro. No ano passado, 346 ações. A cada dois meses e meio, um funcionário foi sequestrado. Até hoje, três bancários se aposentaram com transtornos mentais. Há entre 20 e 30 pessoas licenciadas há mais de dois anos. Nos últimos dois anos, outros 30 pediram licenças.

A Federação Nacional dos Bancos afirmou que “os bancos estão empenhados em apoiar as autoridades no combate aos problemas de segurança pública”. O setor afirma investir, por ano, cerca R$ 9 bilhões no aprimoramento da segurança bancária. Segundo o órgão, em 2016 foram registrados 339 assaltos e tentativas em todo o Brasil.

ENTREVISTA - Daniela Sanches Tavares - psicóloga da Fundacentro (Instituição de pesquisa sobre segurança e saúde do trabalhador vinculada ao Ministério do Trabalho)

Embarque para uma viagem de desespero

 (Foto: Gabriel Melo/Esp.DP.)

Era dia quando mais um passageiro embarcou no ônibus conduzido por José*, 48. Minutos depois, quando o veículo estava em movimento, o homem anunciou o assalto. Levou todo o valor arrecadado com o cobrador, roubou os passageiros e desceu do coletivo. Para José, depois de 20 anos trabalhando como motorista de ônibus, a cena já havia se tornado corriqueira. Foram 16 assaltos em duas décadas como rodoviário. Depois dos repetidos episódios de violência, foi afastado do trabalho por questões médicas. Tinha desenvolvido hipertensão e problemas na coluna.

“Não tem um rodoviário sem uma história como essa para contar. Os assaltos acontecem em qualquer lugar e a qualquer hora do dia. A violência, infelizmente, faz parte da nossa rotina”, lamenta. De acordo com a Secretaria de Defesa Social (SDS), 625 assaltos a ônibus foram registrados de janeiro a abril deste ano. Já o Sindicato dos Rodoviários tem 1.563 casos notificados até 16 de maio.

A recordação mais impactante de José é do dia em que estava conduzindo o coletivo e um homem, com uma arma calibre 12 assaltou o ônibus. “Depois de tudo, ele pediu para que eu descesse. Senti muito medo. Sabia que ele iria atirar em mim. Pedi para ele ir, disse que já tinha roubado todo mundo e que nos deixasse em paz. Fiquei atrás de uma coluna e esperei o que ia acontecer. Graças a Deus, ele saiu do ônibus”, conta.

Depois do décimo assalto, parou de contar à esposa o que acontecia no trabalho. “Ela ficava apreensiva em casa. Não adiantava mais contar. Só gerava estresse para toda a família”, explica o motorista. “Sempre que acontecia um assalto, eu sentia uma dor na coluna, que subia para a cabeça. Fui ficando literalmente doente”, diz. Afastando do trabalho e tentando conviver com o medo, José é hoje apenas usuário do sistema de transporte público. Mesmo assim, já foi assaltado enquanto usava um coletivo como passageiro.



Dia de fúria na sala de aula
 (Foto: Paulo Paiva/DP.)

Depois de um dia inteiro dando aulas, o professor Antônio*, 41, entrou na sala de uma escola pública da Zona Norte do Recife para o último compromisso do dia. Era aula para uma turma da Educação de Jovens e Adultos à noite. Enquanto fazia a chamada, um dos estudantes levantou-se da cadeira e partiu para cima do professor. Descontrolado, dizia que ia matar Antônio. Tentou agarrá-lo pelo pescoço, mas só conseguiu agredir os braços do professor e foi contido pelos colegas. Segundo Antônio, com 12 anos de experiência na área, o aluno estava drogado e teve um surto psicótico.

O consumo - e, por vezes, a venda - de drogas dentro das escolas públicas é uma realidade, denuncia o professor. Além do problema relacionado aos entorpecentes, muitas escolas estão sem policiamento desde o ano passado. “Nos sentimos desprotegidos. Até meados de novembro de 2016, dois PMs ficavam fazendo a segurança da escola, mas não há mais essa segurança oficial”, relata.

Em uma das duas escolas onde dá aula, as lâmpadas de salas, biblioteca e laboratórios foram roubadas. “Os roubos são frequentes, especialmente quando a escola está fechada”, afirma. A solução encontrada por professores e gestores para frear a violência no ambiente escolar - ou, pelo menos, parte dela - foi conversar com os pais dos estudantes.

Muitas vezes os responsáveis sequer aparecem aos encontros propostos pela escola. “O grande problema é que, em muitas ocasiões, não encontramos apoio desses pais. Convocamos reunião para conscientizar sobre a questão das drogas, por exemplo, mas poucos aparecem. Quando identificamos um problema como uso de crack e conversamos com os alunos, a maioria relata que é negligenciada pela família”, conta Antônio.

Sobre a ausência de segurança nas escolas, a Polícia Militar de Pernambuco informou que o policiamento nas unidades estaduais está sendo realizado por meio da Diretoria de Articulação Social e Direitos Humanos, na modalidade motorizada em caráter de rondas. “De acordo com o diretor da DASDH, as escolas estão recebendo o atendimento dos policiais que cumprem um cartão programa. Além disso, as escolas ainda contam com o policiamento da área em que a escola se localiza”, respondeu a corporação por nota oficial.

Um monstro à solta perto de casa
 (Foto: Marlon Diego/Esp.DP.)

O receio em sair de casa virou realidade para Fernanda*, 43, há oito meses. A poucos metros da própria residência, em Jaboatão dos Guararapes, ela foi abordada por um homem armado. O anúncio inicial foi de assalto, mas o criminoso rejeitou os objetos. Fernanda teve o corpo violado, em um ato de abuso sexual. A ela, só foi dado o “direito” de “não fazer barulho, fechar os olhos e não chorar”. A dona de casa passou a fazer parte da alarmante estatística de estupro em Pernambuco. Por dia, cinco mulheres são estupradas no estado. Ser mulher tem sido viver em permanente insegurança.

De cada cinco mulheres vivendo em áreas urbanas no Brasil, uma já foi tocada sem consentimento, revelou levantamento da ONG ActionAid Brasil. A maioria das brasileiras já foi assediada na rua. Por mais real e eminente que seja o perigo, Fernanda nunca considerou a possibilidade de ser vítima desse tipo de crime. Era apenas uma ida à feira quando ocorreu o então impossível. “Eu pedi que não fizesse isso, mas ele não deu ouvidos. Colocou a arma no meio da minha testa, pediu para tirar a roupa e ameaçou atirar se eu pedisse ajuda”, lembra.

Em 2017, ocorreram 632 estupros em Pernambuco. Entre março e abril, houve uma redução de 27,6% nas ocorrências do tipo. No ano passado, a média foi de seis estupros por dia. Fernanda passou quinze dias sem conseguir sair de casa. A insônia também tornou-se frequente, acompanhada das memórias do ocorrido. A raiva ainda é um sentimento presente.

“Não existe uma política de segurança pública que responda aos crimes contra a mulher. O espaço público não dá condições de exercer o pleno direito de ir e vir”, critica a assessora de Programas da ActionAid no Brasil, Daiane Dultra. Muitas mulheres estão mudando a rotina diante das estatísticas.

O trauma pode desencadear transtornos não só nas vítimas. “A violência sexual é física e psicológica”, ressalta a coordenadora do Centro Sony Santos, do Hospital da Mulher do Recife, Sandra Leite. Desde a inauguração, em julho do ano passado, a unidade atendeu 105 vítimas de violência sexual.

Neste ano, foram 38. O serviço pioneiro disponibiliza acompanhamento psicológico para as vítimas por no mínimo oito meses. Fernanda é uma das assistidas. Pela primeira vez, ela contou a própria história sem chorar.



Entrevista Marcelo Feijó // professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)


Do ponto de vista da psiquiatria, quais são as consequências mais comuns em pessoas que sofreram episódios de violência?

Para quem viveu ou presenciou algum tipo de violência, o mais comum é o aparecimento de um quadro psiquiátrico pós-traumático. Toda vez que a pessoa lembra do momento, o sofrimento volta como se estivesse vivendo tudo o que passou novamente. É comum a pessoa apresentar taquicardia ou tremores. Com isso, ela começa a evitar ações, lugares que lembram aquele episódio. É comum também que a pessoa se torne mais alerta e até se sinta perseguida. É como se ficasse presa àquele momento. Muitas sequer conseguem voltar a trabalhar ou estudar. Esse quadro, porém, pode ser revertido com um tratamento. Senão tratar, essas consequências podem se tornar crônicas e, então, se associarem a problemas como o alcoolismo e a dependência de medicamentos. Alguns episódios podem causar consequências para o resto da vida. A violência tem consequências físicas comprovadas. Ela pode causar alterações no cérebro, no sistema hormonal e no metabolismo. Sem tratamento, pode até causar degeneração cerebral. Alguns tipos de violência, como o abuso sexual, são suficientes para gerar um quadro desses.

O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) aparece em todas as vítimas de violência?


Devido aos níveis de violência em nosso país, a prevalência de TEPT é altíssima. Um estudo realizado por pesquisadores de instituições de São Paulo e Rio mostrou que 86% das pessoas maiores de 18 anos que vivem nas duas cidades passarão por uma situação de violência interpessoal no decorrer de suas vidas. Os eventos mais comuns são a violência direta, 60%, e indireta (presenciar violência ou alguém próximo ser vítima). O risco de TEPT foi de mais de 10%, sendo que as mulheres têm chance três vezes maior que os homens, que têm até 10 vezes mais riscos de sofrer violências e acidentes (exceto as domésticas e sexuais). Esse é um número muito mais alto do que os de países da Europa.

Quando o quadro é identificado, o que a pessoas ou os familiares dela devem fazer?

Iniciar um tratamento. Até 30 dias após o episódio, não damos diagnóstico de quadro pós-traumático. Passados os primeiros 30 dias, se esse quadro permanecer, pode ser diagnosticado o transtorno. Apenas em casos em que já há um quadro psiquiátrico, usamos alguma medicação. O tempo de tratamento varia muito, mas dura em torno de um ano.



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