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Saúde Infecção hospitalar: alerta para salvar vidas Pesquisa aponta que 70% dos pacientes internados nas UTIs no Brasil recebem tratamento para algum tipo de infecção. De cada 10 infectados, quatro vão a óbito

Por: Patrícia Fonseca - Diario de Pernambuco

Publicado em: 11/06/2015 15:55 Atualizado em: 12/06/2015 10:27

De acordo com estudo, 37% dos médicos e enfermeiros intensivistas de hospitais públicos e privados no Brasil não lavam as mãos com a frequência ou da maneira que deveriam. Foto:Teresa Maia/DP/ D.A.Press
De acordo com estudo, 37% dos médicos e enfermeiros intensivistas de hospitais públicos e privados no Brasil não lavam as mãos com a frequência ou da maneira que deveriam. Foto:Teresa Maia/DP/ D.A.Press
 

As mãos que curam também podem ser responsáveis por quase metade das mortes por infecções adquiridas em Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) no país. Pesquisa divulgada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) mostra que a falta de higienização adequada por parte dos próprios profissionais de saúde é a principal fonte da temida infecção hospitalar, hoje denominada "infecção associada aos cuidados de saúde" (às vezes falta deles), sempre que desenvolvidas após 48 horas de internamento. O estudo aponta que 37% dos médicos e enfermeiros intensivistas de hospitais públicos e privados em todo o Brasil não lavam as mãos com a frequência ou da maneira que deveriam e acabam levando bactérias, vírus e fungos resistentes a pessoas já debilitadas. Aliadas a isso, a demora no diagnóstico e a falta de recursos contribuem para uma séria estatística: de cada 10 pacientes infectados numa UTI, quatro vão a óbito. Um problema que não é exclusivo do Brasil. Estima-se que de 500 mil a um milhão de pessoas morram por ano no mundo, devido à resistência antimicrobiana.

Não há um recorte em Pernambuco mas, de acordo com o especialista em Medicina Intensiva Marcos Antonio Cavalcanti Gallindo, presidente da Sociedade de Terapia Intensiva de Pernambuco (Sotipe), entidade que representa a AMIB no estado, geralmente são dados muito parecidos. "As informações são obtidas pelo sistema de vigilância. Toda UTI do Brasil reporta o índice de infecção ao grupo de controle de infecção do próprio hospital, que o encaminha à Anvisa. Os hospitais que participam de um sistema de controle de qualidade têm como comparar dados e verificar se estão atingindo a meta", explica.
De acordo com a Associação, 70% dos pacientes internados nas unidades de terapia intensiva no Brasil recebem tratamento para algum tipo de infecção. Um espaço onde o risco é de 5 a 10 vezes maior que em outros ambientes hospitalares, por concentrar os doentes mais graves e que, segundo a associação, pode chegar a representar 20% do total de casos registrados em um hospital. Gallindo acrescenta que as infecções aumentam o tempo de internamento, o custo e, claro, o risco de morte. Quando o paciente chega na UTI, a equipe tem como prever o risco de óbito e aplicar algumas ferramentas, mas se a pessoa contrair uma infecção no meio do caminho, esse índice aumenta. Quanto mais pontos de invasão, como sonda, cateteres , tubos, traqueostomia, maior o perigo.

Em 20 anos, a Central de Transplantes de PE nunca fechou um serviço, garante a coordenadora Noemy Gomes Foto: Reprodução/Flickr
Em 20 anos, a Central de Transplantes de PE nunca fechou um serviço, garante a coordenadora Noemy Gomes Foto: Reprodução/Flickr
 

Gallindo enfatiza, no entanto, que o ponto mais importante é a higiene das mãos: "Sabe-se disso há centenas de anos, mas a higienização ainda é mal executada e não é realizada na frequência necessária pelos profissionais de saúde". Segundo o estudo da Associação, três em cada 10 profissionais de saúde não lavam as mãos da maneira e ocasiões corretas. Para diminuir esses índices, a associação está realizando uma campanha de conscientização em todo o país. A iniciativa busca alertar sobre a importância de um gesto simples para salvar vidas, aliás, a principal missão desta profissão. Na prática, a meta é tornar mecânico um hábito adotado por apenas 70% dos profissionais lotados nos centros que apresentam melhores resultados. A campanha aborda os “sete pontos chave da prevenção de infecção na UTI” não apenas entre médicos, enfermeiros, auxiliares, mas também entre familiares e visitantes das cerca de 2.350 UTIs brasileiras.


Para os visitantes, a orientação das comissões de controle de infecção é lavar as mãos na entrada e na saída e se aproximar apenas do seu parente. Muitas vezes, após um período de convivência e como um gesto de solidariedade, as pessoas acabam abordando outros doentes, correndo o risco de contribuir para a contaminação cruzada. O intensivista acrescenta que são orientações tradicionais, mas que podem mudar se o paciente está em situação de isolamento. Aos profissionais, segundo ele, cabem ainda as recomendações de trocar a roupa usual pelo jaleco do hospital para não trazer bactérias nem as levar para casa, e usar sapatos fechados para sua própria proteção.

O médico admite que é muito frequente um paciente entrar com um problema de saúde e adquirir um quadro infeccioso na UTI, mas aponta um pacote de medidas preventivas que, associadas, podem ajudar a afastar esse risco. "É uma questão prevenível. Não podemos evitar, mas reduzir muito, por exemplo, elevando a cabeceira da cama, pelo menos a 30° a 45°, tentando tirar mais rapidamente possível a ventilação mecânica, vendo se o paciente tem condições de respirar sozinho, prevenindo a trombose venosa e o sangramento gástrico ou úlcera. Estas últimas com medicação ou meios mecânicos como fisioterapias. São medidas simples, mas bastante eficazes e que precisam ser implementadas", ensina.

Jorge deixou uma neta de 15 anos e dois filhos, de 35 e 37 anos; a mãe, de 88 anos, não sabe de sua morte. Foto: Acervo pessoal
Jorge deixou uma neta de 15 anos e dois filhos, de 35 e 37 anos; a mãe, de 88 anos, não sabe de sua morte. Foto: Acervo pessoal

Mais que estatísticas, vidas
A produtora cultural pernambucana Valéria Luna acredita que o irmão, o professor Jorge Alberto Alexandre de Luna, faz parte dessa trágica estatística. Ele morreu aos 61 anos, no dia 18 de maio deste ano, em decorrência de uma infecção bacteriana. Segundo Valéria, Jorge havia tido sucesso total no transplante de coração realizado no dia 29 de abril: não apresentou rejeição ao novo órgão ou qualquer complicação decorrente da cirurgia, como hemorragia ou problemas de coagulação. "As pessoas passam anos esperando um órgão, uma família que está sofrendo tem o desprendimento, a generosidade de doá-lo e, por conta de uma negligência, é tudo perdido... E aí, quem paga essa conta? Tem toda uma campanha para estimular esse gesto e a falta de cuidado, a falta de higiene acaba com tudo”, lamenta Valéria, com contudência: “Nunca vi ninguém entrar na UTI do jeito que vem da rua. Os visitantes não têm nenhuma higiene prévia.

"Não vou descansar...quantos ainda vão passar por esta situação?", questiona Valéria Luna. Foto: Acervo pessoal
"Não vou descansar...quantos ainda vão passar por esta situação?", questiona Valéria Luna. Foto: Acervo pessoal
 

Fiquei inconformada quando uma senhora aguardava na cadeira pegando no pé e entrou sem lavar as mãos. É um critério que tem que ser colocado. Há lugares em que você passa por uma câmara de higienização, mas o que se vê é uma equipe de auxiliares de enfermagem calçando chinelos, sem uniforme, falta de limpeza". O irmão de Valéria foi operado no Imip (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira) e internado na UTI exclusiva para transplantados, no segundo andar da unidade de saúde, no Recife. Inconformada, ela fez uma denúncia ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE).

"Sabendo que ao se submeter a qualquer transplante o paciente toma remédios para baixar a imunidade e desta forma evitar a rejeição do órgão transplantado, e assim se predispõe a adquirir determinadas doenças oportunistas, pressupõe-se que algumas medidas de prevenção sejam tomadas. Como pode uma UTI de transplantados permitir visitas diárias dos parentes e amigos que chegam da rua, sem haver nenhum tipo de esterilização dos mesmos? Ou seja, entram na UTI como se estivessem entrando em casa, nem lavam as mãos", escreveu ela, no documento protocolado no MPPE. A produtora cultural também critica a demora no diagnóstico. De acordo com a família, a equipe médica teria levado 12 dias para identificar a bactéria. "Sabemos que é possível diagnosticar uma bactéria em menos de 24 horas. Se começa a administrar um antibiótico e em 48 horas não tem resposta, já não seria o caso de saber que não é o certo?", questiona a produtora.

De acordo com a promotora de Justiça de Defesa da Saúde Helena Capela, o caso foi despachado para a Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária (Apevisa) a fim de que seja realizada uma inspeção no local. Ela adiantou ao Diario que o hospital deve remeter à Promotoria de Justiça o protocolo de controle de infecção hospitalar. Ainda segundo a promotora, não há casos de denúncias parecidas ligadas à suspeita de infecção hospitalar e a falta de higienização das mãos não é considerada uma negligência e, sim, uma falha no sistema, mas que assim mesmo deve ser denunciada aos órgãos responsáveis.

Vigilância permanente
Em Pernambuco, o Imip é a única unidade de saúde que realiza todos os tipos de transplante (coração, rins, fígado, medula, córneas). Para isso, possui a Unidade Geral de Transplantes (UGT), com UTI própria. "Em geral são pacientes muito graves, e que já chegam para o transplante em situação séria demais. É preciso saber as circunstâncias. Em 20 anos, a Central de Transplantes nunca fechou um serviço por mau resultado. Como gestora de transplantes, eu teria que intervir e até tirar do programa, mas a situação nunca saiu do controle e nunca se precisou", argumenta Noemy Gomes, coordenadora da Central de Transplantes.

Sobre a morte do professor Jorge Alberto Alexandre de Luna, a assessoria de comunicação do Imip afirmou, em nota, que o paciente apresentou uma infecção no dia seguinte ao transplante, que recebeu todas as medidas necessárias, mas não resistiu após complicações no quadro. No documento, o instituto afirma ainda que atua de forma sistemática no combate à infecção hospitalar, com atenção especial aos pacientes imunodeprimidos, inclusive realizando campanhas educativas com estudantes e profissionais e orientação aos pacientes e acompanhantes.

A campanha organizada pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) pretende evitar, na medida do possível e com iniciativas simples e elementares, histórias tristes como esta. Por mais preocupado, apressado que esteja, seja você visitante ou profissional de saúde, da próxima vez que entrar em uma UTI ou mesmo em um quarto de hospital, lembre-se da lição de Valéria: "A gente tem uma obrigação com o outro. Se uma pessoa puder se beneficiar, pra mim já é um ganho. A gente tá falando de vida", ensina a irmã enlutada.

 



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