• Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Google Plus Enviar por whatsapp Enviar por e-mail Mais
Comunicação Futuro da Rádio Universitária, enfim, em debate Impasse entre gestores e funcionários da 99,9 MHz revela necessidade de se pensar o que precisa ser feito para a FM se consolidar entre ouvintes e profissionais

Por: Guilherme Carréra

Publicado em: 08/07/2015 09:34 Atualizado em: 08/07/2015 09:36

Desde dezembro de 2014, a Rádio Universitária FM tem Comitê Provisório de Conteúdo. Foto: Júlio Jacobina/DP/DA Press
Desde dezembro de 2014, a Rádio Universitária FM tem Comitê Provisório de Conteúdo. Foto: Júlio Jacobina/DP/DA Press

Um mal-estar entre funcionários da Rádio Universitária FM e membros do Comitê Provisório de Conteúdo do Núcleo de Televisão e Rádios Universitárias (NRTVU) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) disparou às redes sociais na última semana de junho. O imbróglio veio à tona quando o jornalista Anselmo Alves escreveu um manifesto intitulado SOS Rádio Universitária FM, queixando-se da forma como o recém-formado órgão estaria se dirigindo à Velha Guarda de radialistas. O estopim teria sido o cancelamento de Forró para todos, no ar há mais de 20 anos, todo santo junho, por ocasião das festas juninas. Anselmo entendeu a suspensão do programa do octogenário Hugo Martins como desrespeito. "Tanto ao trabalho do nosso colega como à produção regional". Presidente do Comitê, Gorete Linhares diz que não é bem assim. "Desde que assumimos, temos como atribuição receber propostas de programas que desejam entrar na programação diária. E nenhum dos produtores chegou a nos enviar esse documento".

Técnicos e profissionais da rádio, no entanto, torceram o nariz para a justificativa de que Forró para todos não se trata de um programa fixo na grade. "Não faz parte da programação diária, mas já era sazonal há duas décadas", argumenta Hugo. "Não temos mais poder algum. Qualquer programa que a gente queira fazer teremos que submeter a eles". Rosa Sampaio, uma das cinco representantes da sociedade civil que compõem o Comitê, nega censura prévia. "Foi tirado do ar porque o não envio fere uma portaria do regimento do Comitê, do Núcleo e da Universidade. Não foi antidemocrático, foi o cumprimento de uma norma". Ligada aos Movimentos Sociais pela Democratização da Mídia, Rosa quer deixar claro que o intuito é ajudar a rádio a se consolidar no mercado local, não boicotar a produção já existente. E acredita que o mal-estar tenha sido causado pelo desconhecimento da legislação. Ou, ironicamente, por uma falha de comunicação.

Debate federal

Em julho de 2014, o Conselho Universitário aprovou por unanimidade a criação da Pró-Reitoria de Comunicação, Informação e Tecnologia da Informação (Procit), unificando ações que vinham sendo realizadas separadamente, embora por setores interligados. Em dezembro daquele ano, uma cerimônia oficial serviu à posse do professor Décio Fonseca como pró-reitor, além da nomeação de membros para um Comitê Provisório de Conteúdo. Ao todo, o reitor Anísio Brasileiro convidou quatro membros do corpo institucional e cinco representantes da sociedade civil para formar o órgão. Segundo consta, o Comitê tem caráter temporário. Além de analisar, aprovar, propor alterações ou remover conteúdos nos veículos de comunicação do NRTVU, os membros têm como missão formular a proposta de um Conselho Curador para o setor. A medida obedece a lei federal de número 11.652, que estabelece normas para a comunicação pública desde 7 de abril de 2008.

À parte a legalidade da atuação, alguns funcionários vinham se queixando da postura do órgão até o último dia 30 de junho, quando aconteceu a primeira reunião de cessar-fogo. "Demoraram mais de seis meses pra agendar esse encontro", brada José Mário Austregésilo, jornalista com mais de 40 anos de casa. "Mas ficamos satisfeitos por eles admitirem que esse atraso não fez bem". José Mário, no entanto, se ressentiu pela ausência da presidente do Comitê. "Minha participação não era obrigatória", responde Gorete. "Elegemos três dos noves membros do órgão pra nos representar". As rusgas, no entanto, tendem a se dissolver. Ao menos é no que aposta o pró-reitor da Procit. "Ainda estamos em uma fase embrionária. Deveríamos ter feito essa reunião antes e nos desculpamos por isso. Toda mudança gera uma repercussão, mas não há intenção de perseguir ninguém".

Gestores e funcionários caminham para um consenso em relação à programação da rádio. Foto: Júlio Jacobina/DP/DA Press
Gestores e funcionários caminham para um consenso em relação à programação da rádio. Foto: Júlio Jacobina/DP/DA Press

O que vem por aí

Para além dos muros da FM, o discurso de Anselmo, Hugo e José Mário se estende à defesa da produção regional. "Se você for ao Sertão, não vai encontrar mais um jovem que escute Luiz Gonzaga", lamenta o primeiro. Colecionador de mais de 12 mil vinis, Anselmo teme que o novo Comitê e o futuro Conselho virem as costas a gêneros como forró, baião, xaxado e afins. "Não existe o novo sem o velho. O próprio manguebeat é a prova disso". Preocupado com a formação de público, pretende tocar um projeto musical para crianças e adolescentes terem acesso à sua coleção, que vai de Jacob do Bandolim, passa por Demônios da Garoa e chega a Pepeu Gomes. "Não dá pra tratar o passado como se ele fosse uma velha calça desbotada ou coisa assim". Por conta disso, promete ficar de olho nos próximos passos da gestão do NRTVU. "A rádio é pública. Pagamos nossos impostos, precisamos acompanhar o que vai ser feito".

Também representante da sociedade civil, a jornalista Andrea Trigueiro prefere minimizar a polêmica e ampliar o debate. "A melhor saída é sempre o diálogo. Aos poucos, chegaremos a um consenso em relação à programação", acredita. Para Décio Fonseca, a expectativa é de que até o fim do ano um edital no valor de R$ 700 mil venha a público. O pró-reitor afirma que a ideia é receber propostas de programas para a TV e as rádios universitárias, estabelecendo, inclusive, parcerias com outras produtoras de conteúdo. Questionado sobre a instalação do transmissor para reabilitar a Rádio Universitária AM, com microfones desligados há cinco anos, comenta que isso também depende da liberação de recursos. "Este vem sendo um ano complicado pra o governo federal, mas estamos no aguardo". Enquanto isso, seguimos com nossa programação normal.

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.