energia renovável Técnica transforma óleo de cozinha em gás para gerar eletricidade Processo químico transforma resíduos gordurosos, como as sobras do óleo de cozinha, em fonte de energia renovável. A solução criada por cientistas ingleses pode ser implantada nas casas e ainda evita o entupimento da rede de esgoto

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 20/08/2018 07:53 Atualizado em:

Foto: Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press
Foto: Valério Ayres/Esp. CB/D.A Press
São Paulo  —  Dono de lavouras de cana-de-açúcar na região de Ribeiro Preto, no interior de São Paulo, o produtor Sebastião Farias anda preocupado com o futuro de seu negócio. A família Farias está no ramo há 40 anos e, desde então, os preços dos defensivos agrícolas nunca foram tão altos quanto agora. “Quando comecei, eles respondiam por no máximo 5% dos meus custos totais, mas hoje em dia estão em torno de 10%”, diz. “Tenho medo que o percentual continue crescendo a ponto de atrapalhar a viabilidade da lavoura.”

A preocupação tem razão de ser. Até pouco tempo atrás, produtores como Farias contavam com pelo menos sete marcas de herbicidas disponíveis no mercado. Resultado: diante da concorrência acirrada, as empresas precisavam se esforçar para seduzir clientes. Não era tarefa fácil. A maioria das fabricantes apostava em três frentes — preço, atendimento e qualidade do produto. Quem fracassasse em alguma delas corria o risco de ver o rival avançar. Agora é diferente. “Hoje em dia, não tenho muitas opções de escolha e acabo pagando o valor que as empresas impõem, com pouca margem para negociação”, diz Farias.

Nos últimos dois anos, o agronegócio vem passando por um processo radical de consolidação. As fusões e aquisições envolvendo grandes empresas estão revolucionando o setor. Marcas consagradas desapareceram. Outras surgiram. Na era das supermarcas, o jeito de fazer negócio mudou e continuará mudando — quer os produtores queiram ou não.

A partir de 2016, o já concentrado universo das multinacionais que fabricam insumos para o agronegócio começou a caminhar para um agrupamento de forças ainda maior. As chamadas “Sete Grandes” (Monsanto, Syngenta, Dupont, Bayer, Dow, Basf e ChemChina) viraram quatro (Monsanto/Bayer, Dupont/Dow, Syngenta/ChemChina e Basf).

Que efeitos a consolidação do setor agro terá no mercado? De acordo com o recém-lançado Atlas do Agronegócio, publicação conjunta da Fundação Heinrich Böll e Fundação Rosa Luxemburgo, a monopolização do sistema global de alimentos terá impactos severos. “Cada vez menos empresas assumirão o controle de uma fatia de mercado cada vez maior, se tornando influentes no mundo inteiro”, diz o relatório.

Segundo o documento, o excesso de concentração aumentará o poder político das empresas, o que facilitará a alteração de normas fitossanitárias e o registro de patentes. As gigantes também vão dominar o sistema tecnológico de produção, deixando toda a cadeia dependente de suas inovações. “E os custos serão sempre maiores para os elos mais fracos: agricultores, trabalhadores agrícolas e consumidores”, conclui o texto. Os custos, de fato, são crescentes para os produtores. Desde 2013, os preços dos agrotóxicos aumentaram cerca de 40% no Brasil — mais do que a inflação no período.

Além do desaparecimento de marcas conhecidas, a concentração excessiva afeta diretamente o consumidor (neste caso específico, produtores e distribuidores). Em geral, consolidações representam a diminuição do número de fornecedores de insumos importantes — e, portanto, risco de aumento de custos para quem está na outra ponta do negócio. Não à toa, os produtores encaram com ceticismo o argumento de que a consolidação entre empresas vai permitir ganho de escala que resultará em preços mais baixos, argumento esse usado por 10 entre 10 defensores dos processos de fusão e aquisição.

Aquisições 
Nos últimos anos, cinco das 12 maiores fusões entre empresas de capital aberto aconteceram no setor agroalimentar, movimentando centenas de bilhões de dólares e alterando profundamente os mercados. Diversos fatores podem levar grandes empresas a comprar suas rivais. O primeiro deles é o mais óbvio — aumento de mercado. Adquirir uma concorrente, afinal, é o modo mais rápido de ganhar maket share. Isso pode ocorrer em termos quantitativos — ou seja, produzir e vender mais — ou geográficos, nas situações em que a companhia adquirida tem atuação forte em determinado país ou região.

Alguns materiais não podem ser descartados no lixo comum por serem considerados uma ameaça ao meio ambiente, como pilhas, baterias e o óleo de cozinha, um dos produtos mais presentes nas residências. Para resolver esse problema, pesquisadores canadenses desenvolveram uma tecnologia capaz de quebrar gorduras presentes nesses resíduos domésticos e em materiais semelhantes da indústria, como a graxa.

O processo químico ainda tem outros benefícios: produz gás metano, uma fonte de energia renovável, e evita o entupimento de canos. Essa última solução tem sido cada vez mais procurada por grandes cidades. Recentemente, por exemplo, a população de Londres foi surpreendida com os fatbergs, depósitos sólidos de resíduos gordurosos que bloquearam a rede de esgoto. Segundo especialistas, nada melhor do que a adoção de soluções simples para esses grandes dilemas atuais.

É o que prometem os cientistas canadenses com a nova tecnologia de reaproveitamento. Nela, os compostos de gordura são aquecidos a temperatura entre 90°C e 100°C e, em seguida, recebem peróxido de hidrogênio, um produto que estimula a decomposição da matéria orgânica. Em testes, o tratamento reduziu o volume de sólidos presentes nos óleos gordurosos em até 80%. Também liberou ácidos graxos, que permitiu a passagem para a segunda etapa do tratamento, quando o material é decomposto por bactérias.

Ao se alimentar do material orgânico abundante nos restos gordurosos, os micro-organismos podem produzir gás metano. “Esses óleos são uma excelente fonte para as bactérias, que podem transformá-los em uma fonte de energia renovável e valiosa. Mas, se eles forem muito ricos em orgânicos, as bactérias não podem lidar com isso, e o processo se torna ineficiente. À temperatura certa, asseguramos que esses resíduos têm potencial para gerar grandes quantidades de metano”, explica, ao Correio, Asha Srinivasan, principal autora do estudo e pesquisadora da Universidade de British Columbia (UBC).

Para os criadores da tecnologia, será possível usá-la também dentro de casa, devido à simplicidade da técnica. “O princípio seria o mesmo: você faz o pré-tratamento desses resíduos para não entupir os canos de onde mora”, ilustra Victor Lo, professor de engenharia civil da UBC e um dos autores do estudo.

Luiz Alberto Cesar Teixeira, professor do Departamento de Engenharia Química e de Materiais do Centro Técnico Científico da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), ressalta que a tecnologia traz solução para um problema de escala global. “Somente no Brasil, pode-se estimar que mais de 200 milhões de litros desses resíduos são gerados mensalmente e que, atualmente, apenas 1% seja seletivamente coletado e tratado”, diz.

O professor lembra que o descarte inadequado pode provocar a contaminação de mananciais utilizados para a captação e o tratamento de água para consumo humano. Segundo ele, hoje, são adotadas diferentes abordagens para evitar o problema. Desde a mais simples, com o aproveitamento do poder calorífico para queima e economia de combustíveis em fornos de coprocessamento com cimento, até a produção de biodiesel. “Há ainda a fabricação de sabão e ração animal. A estratégia canadense poderia ajudar a reduzir esse problema surgindo como uma nova estratégia de reciclagem”, acredita.

Nas fazendas
Segundo Asha Srinivasan, os óleos submetidos ao processo químico também podem ser de grande auxílio para a área agrícola, que se beneficiaria com melhoramento na fabricação do metano. “Geralmente, eles são misturados com lodo de esgoto ou esterco, mas sem passar por um processo de decomposição, esses resíduos não podem ser usados diretamente em um biodigestor para produzir biogás. Por isso, atualmente, apenas uma quantidade limitada desses óleos pode ser usada para esse fim”, explica. “Os agricultores normalmente restringem o uso desse resíduo a menos de 30%. Com a nossa técnica, esse número pode subir para 75%. Você teria duas vantagens: reciclaria mais resíduos de óleo e produziria mais metano ao mesmo tempo.”

Victor Lo, professor emérito de engenharia civil da UBC, conta que a equipe planeja aperfeiçoar a técnica, mas acredita que o método já apresenta vantagens consideráveis, que fazem dele um grande candidato a ser incorporado por empresas. “Até onde sabemos, esse tipo de pré-tratamento não foi estudado antes, embora existam métodos químicos simples para decompô-los”, justifica. “Esperamos fazer mais pesquisas para encontrar a proporção ideal da decomposição desses resíduos”, adianta.

Para o professor da PUC-RJ, uma das preocupações dos cientistas deve ser o valor do processo desenvolvido. “Como todo aperfeiçoamento tecnológico que surge, será necessário dar um próximo passo, comparar custos desse com os dos já existentes processos de utilização de resíduos oleosos para fins de geração e aproveitamento energético. O novo conceito apresentado, além de tecnicamente válido, tem que ser seguro e economicamente competitivo”, opina Luiz Alberto Cesar Teixeira.

Icebergs de gordura
Em 2017, uma enorme bola de gordura foi encontrada em um bueiro de esgoto londrino por funcionários da Companhia de Águas Britânica Thames Water. A bola era composta por gordura oriunda de vazamentos e descarte de óleo e azeites, além de pedaços de papel que, segundo especialistas, datam da época vitoriana. As autoridades conseguiram acabar com o iceberg de gordura, reduzindo de 20 a 30 toneladas por dia, com a ajuda de mangueiras de alta pressão.


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