Entrevista David Miranda quer organismos internacionais envolvidos no caso de Marielle

Por: Bernardo Bittar - Correio Braziliense

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 25/01/2019 17:57 Atualizado em:

Foto: Reprodução/ Facebook
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David Miranda (PSol-RJ) soube na quinta-feira (24) que assumiria a vaga de Jean Wyllys (PSol-RJ) na Câmara dos Deputados. Ao alegar que sofria ameaças de morte, Jean decidiu abrir mão do mandato — que começaria na próxima sexta-feira, 1º de fevereiro — e deixar o Brasil. Alegou motivos pessoais e se disse preocupado com as retaliações ao público LGBT+. 

David entra com fôlego renovado, dizendo buscar organismos internacionais para conseguir respostas para o assassinato de Marielle Franco, trazer à pauta temas relacionados aos direitos humanos e sexualidade. Como Jean, David também anda com uma equipe de segurança a tiracolo. "O país mata defensores de direitos humanos", disse ao Correio Braziliense. O deputado afirmou que será frente de oposição ao governo de Jair Bolsonaro: "Os outros sabem usar WhatsApp, mas estamos lutando do lado de cá". Confira trechos da entrevista:

O deputado Jean Wyllys disse que (o ex-presidente do Uruguai) Pepe Mujica o aconselhou a não se tornar um mártir e fugir se corresse perigo. O senhor considera que o seu perfil parecido com o de Jean? Acredita que pode ser alvo de ameaças?
Jean foi eleito pela terceira vez consecutiva. Ter que sair do Brasil porque estava recebendo ameaça de morte é muito grave para a nossa jovem democracia. Meu perfil é diferente do dele. Vim do Jacarezinho, fui pobre, sou negro e LGBT. Meu perfil é mais parecido com o de Marielle Franco — sua colega na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Gostávamos de falar que éramos parecidos. Espero que Jean encontre a paz no que ele quer e eu sinto uma grande responsabilidade nesse momento, deixada por ele e por Marielle. Precisamos lembrar que ela foi assassinada há quase um ano e até agora não temos reposta. Minha companheira de mandato, minha amiga, foi assassinada. Claro que tomei medidas de segurança e acredito que poderei ser alvo de ameaças. A instabilidade que temos no país... O país é um dos que mais mata defensores de direitos humanos. E todos do Psol estamos nessa categoria...

Agora na Câmara dos Deputados, o sr. pretende buscar respostas para o caso de Marielle?
Com certeza. Eu e Mônica Benício (viúva de Marielle) viajamos para a República Dominicana pedir a intervenção da OEA (Organization of American States), que veio ao Brasil e fez relatório. Conseguiremos, agora na Câmara, a federalização dessa investigação. Também vamos envolver a ONU (Organização das Nações Unidas). É necessário. Fazer com que órgãos façam pressão internacional é necessário. Só vou descansar depois de obter a resposta sobre quem matou e porque matou Marielle.

O que acha da divisão da esquerda? Reuniões entre PT e Psol tem acontecido em Brasília enquanto outro grupo se une sem as legendas. A esquerda precisa se unificar?
A gente precisa pensar no campo progressista, unir esforços pelo máximo de união para enfrentar tudo o que está vindo pela frente. Não podemos ser levianos e precisamos entender que há quem faz a velha política, a galera nova e a galera progressista. Esses três campos estão espalhados pelo Congresso Nacional. O Psol e meus companheiros de bancada estão focados nas decisões importantíssimas que teremos de tomar. Por outro lado, vemos a candidatura do (Marcelo) Freixo (Psol-RJ). Ela é legítima. Falamos de golpe, golpe parlamentar, união de esquerda... Agora, a união com a potência que é o Freixo. Tem muita gente acostumada à velha política mas os partidos precisam tomar o posicionamento e assumir. Tem muito partido se dizendo de esquerda que precisa repensar as posições. 

Marcelo Freixo é o nome escolhido por parte da esquerda para a Presidência da Câmara. É importante que haja essa força? Isso poderá trazer um embate com o Planalto?
Sem sombra de dúvida. Se a gente conseguir fazer isso, com bastante campanha, pode dar certo. Quero fazer essas conversas, mostrar nosso equilíbrio de forças. Claro que isso representa um embate com o Planalto. São ideias diferentes.

Como vai fazer para barrar propostas governistas anunciadas nos últimos dias (Previdência com militares separados, cessão onerosa, desarmamento, escola sem partido)...?
A gente conseguiu fazer um diálogo muito forte com a população no último período das eleições. O "Ele Não" ecoou e falamos com as massas. Utilizamos nossas estruturas nas redes sociais para fortalecer esse cenário. Colocamos militantes nas ruas, em casa, no trabalho... Vamos explicar de forma palpável, que as pessoas consigam entender, o que as reformas significam. O que representam para as pessoas em geral. Sabemos que "os outros" sabem usar o WhatsApp, mas estamos lutando do lado de cá. Existe uma possibilidade de reverter tudo o que está aí. A debilidade do governo no último mês demonsra fraqueza. Vamos para cima, dialogando com população.

O partido vai lutar pelas comissões importantes da Câmara? O Psol busca algo específico?
Na Câmara do Rio temos experiência, fomos posicionados em locais diferentes. Vamos ver o que dá para fazer, dependendo do voto. Mas preciso ter diálogo com a bancada para ver em que comissão queremos ficar. Vamos nos posicionar em comissões que trouxerem benefício à população. Provavelmente lutas por causa dos Direitos Humanos... Ainda não sei exatamente.

Que pautas o sr. pretende trazer para a Câmara?
O trabalho que exerci na Câmara municipal foi para exaltar trabalhadores, aposentados que se tornaram prioridade no recebimento de salários... Meu estado é o que mais sofre com a crise (financeira). Isso foi uma grande vitória. Vou levar pautas LGBT. Precisamos falar sobre gênero e sexualidade, simplesmente falar do genocídio da juventude negra nesse país, do combate às drogas, da causa animal... pautas que são essência. Meu mandato se transforma em ferramenta que sociedade civil faça parte dele. Podem chegar no gabinete que terão com quem conversar.


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