Emoção Hino 'Avante, Galileia' está prestes a ser gravado Zito da Galileia escreveu a letra e pediu ao historiador Ricardo Andrade para compor a música

Por: Aline Moura - Diario de Pernambuco

Publicado em: 08/01/2019 10:00 Atualizado em: 07/01/2019 22:48

Uma equipe enviada pelo presidente Kennedy veio ao Nordeste em 1961, na intenção de obter informações sobre as ligas camponesas e o perigo que poderiam representar. Sessenta e quatro anos depois, Ricardo Andrade compôs a música Avante, Galileia, o primeiro hino do berço das ligas Foto: Bruna Costa/Diario de Pernambuco
Uma equipe enviada pelo presidente Kennedy veio ao Nordeste em 1961, na intenção de obter informações sobre as ligas camponesas e o perigo que poderiam representar. Sessenta e quatro anos depois, Ricardo Andrade compôs a música Avante, Galileia, o primeiro hino do berço das ligas Foto: Bruna Costa/Diario de Pernambuco
Responsável por cultivar a história das ligas camponesas, que surgiram em Pernambuco na década de 1950, Zito da Galileia não deixa de sonhar com mudanças para os trabalhadores do campo que conquistaram a primeira desapropriação do Brasil, pouco antes do golpe militar. Ele quer ver a estrada que leva ao engenho asfaltada, o posto médico abastecido, o transporte acessível aos moradores, um açude sem mato, banhando a ribanceira, os turistas cruzando de jangada, crianças, jovens, adultos e idosos recontando a história, de geração em geração. 

"Avante, Galileia", menciona ele, no título da música que acabou de escrever e ainda será lançada, sem a data prevista. Zito procurou o professor de História Ricardo Andrade para cantar e fazer a música do primeiro Hino da Galileia, cujo refrão traz os versos: "Avante, avante, Galileia/tua luta desperta gerações/o estandarte da fé e da esperança/tremulando em nossos corações".
Veja a música Avante, Galileia 

A melodia, na voz de Ricardo Andrade, chega a emocionar, mas ainda não foi gravada em estúdio, como deseja Zito. Ricardo é professor de História de uma faculdade de Vitória de Santo Antão, a Faintvisa, e coordenador do Movimento Pró-museu. Ele conheceu Francisco Julião na adolescência, quando o líder político das ligas camponesas retornou de um exílio no México, após a Anistia de 1979. Antes da ditadura, Julião tornou-se advogado das ligas, a principal voz dos trabalhadores rurais na Assembleia Legislativa. 
Música feita por Ricardo Andrade tem a letra de Zito da Galileia, que é poeta e cordelista Foto: Bruna Costa/Diario de Pernambuco
Música feita por Ricardo Andrade tem a letra de Zito da Galileia, que é poeta e cordelista Foto: Bruna Costa/Diario de Pernambuco
Ricardo, como adolescente, teve uma emoção ímpar ao conhecer Julião, que terminou sendo muito criticado pelos movimentos sociais por, segundo ele, apoiar José Múcio para o governo do estado, adversário de Miguel Arraes. Múcio era rotulado de usineiro e latifundiário; Arraes de revolucionário, mas Julião lhe hipotecou apoio em troca do Pacto Galileia, que consistia na doação de 10% das terras dos usineiros para o início da reforma agrária em Pernambuco. "Zito me presenteou ao me dar a oportunidade de compor a música. Eu o conheci num debate sobre as ligas camponesas. Depois, ele foi na faculdade, me presenteou com o livro e me deu o desafio de compor a música para Avante Galileia", descreve o professor, que esteve à frente, recentemente, dos tombamentos da histórica Martriz de Santa Isabel, em Paulista, e da Casa Grande da Família Lundgren.  

Para Ricardo Andrade, existe um diferencial entre as ligas e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, porque os dois movimentos enfrentaram o problema de formas diferentes. O primeiro tinha o objetivo de melhorar, inicialmente, a vida dos pequenos agricultores, que queriam vender suas mercadorias, e transbordou, abrangendo a luta da reforma agrária. O segundo, de acordo com Ricardo, perdeu muito o apoio em virtude de alguns métodos radicalizados, como invasão de prédios públicos e saques, mas é de enorme importância para a luta agrária.

O coordenador do Pró-Museu tem orgulho de Zito por ele ter criado uma biblioteca que preserva a história das Ligas Camponesas. "Nesse primeiro semestre, vou levar meus alunos para uma pesquisa de campo lá, no Engenho Galileia, sobre a questão da memória, identidade e pertencimento; o que resta desse fragmento de memória coletiva, porque, senão, isso vai se perdendo. O próprio povo de Vitória conhece pouco a história das Ligas. Os movimentos sociais fazem parte das lutas democráticas e precisam se fortalecer", avalia o professor.



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.