Novo governo Bolsonaro abre rodada de reuniões com as bancadas do MDB e do PRB Processo de dialogar com a base dos partidos, em vez de se acertar com os nomes da "velha política", começa a ser colocado em prática por Jair Bolsonaro e sua equipe, mas especialista argumenta que é preciso traquejo para essas conversas horizontais

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 05/12/2018 06:12 Atualizado em: 05/12/2018 06:15

Antes de falar com integrantes do MDB e do PRB, Bolsonaro recebeu o embaixador japonês no Brasil, Akira Yamada, no Centro Cultural Banco do Brasil
(foto: Governo de Transição/Divulgação)
Antes de falar com integrantes do MDB e do PRB, Bolsonaro recebeu o embaixador japonês no Brasil, Akira Yamada, no Centro Cultural Banco do Brasil (foto: Governo de Transição/Divulgação)

O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), colocou em prática a fórmula que pretende adotar no processo de diálogo com o Congresso Nacional. Ontem, recebeu as bancadas do MDB e do PRB na Câmara para conversar sobre a dinâmica do futuro governo com o Parlamento. As reuniões são um recado para as lideranças políticas. Ao chamar a base das legendas para o diálogo, a coordenação política do governo deixa o aviso de que a forma de diálogo será horizontal, e não vertical. Ou seja, a conversa será feita sem necessariamente hierarquizar os congressistas. O objetivo, explicam pessoas próximas de Bolsonaro, é evitar o contato direto com caciques da “velha política”, sobretudo aqueles suspeitos ou condenados por corrupção.

Os nomes com maior aversão no entorno político de Bolsonaro são o do senador Romero Jucá (MDB-RR), presidente nacional da legenda, e o do ex-deputado Valdemar Costa Neto, comandante do PR. O mandatário emedebista é réu em uma ação penal resultante de uma delação da Odebrecht e foi denunciado em outros dois processos. Também é investigado pela Polícia Federal (PF) por recebimento de propina da mesma empreiteira na Operação Armistício. Já o líder do Partido Republicano foi julgado e condenado no Mensalão a sete anos e 10 meses de prisão.

No processo de horizontalização das conversas com as bancadas, a expectativa é que ambos tenham a influência desidratada dentro das respectivas bancadas, diz o deputado eleito coronel Tadeu (PSL-SP). “O presidente vai atender os deputados como merecem, de forma igualitária, sem olhar número de votos e influência no partido. Está na hora de prestigiar os parlamentares não com malas e cargos em troca de apoio, mas resolvendo um problema do estado ou da cidade apresentado”, avaliou.

A análise de Tadeu é de que, como consequência da fórmula que Bolsonaro se prontifica a adotar, os parlamentares fiquem menos dependentes das articulações dos caciques. “Vamos deixar Valdemar e Jucá batendo cabeça com suas bancadas”, avaliou. As conversas sobre como fazer esse processo de diálogo com as bases partidárias têm sido debatido internamente no governo de transição. O modelo, avalia um interlocutor, é positivo. “A ideia é manter a relação direta com os parlamentares e deixar que cada um faça a ponte e mantenha a relação com seu presidente, se assim achar necessário”, analisou.

O modelo, no entanto, ainda precisa ser testado, admite o interlocutor. “Ou dá muito certo ou muito errado. Excluir os caciques não é uma tarefa fácil e sabemos disso. São ‘macacos velhos’ e podem fazer trabalho para derrubar ou atrapalhar o andamento de determinada pauta. Mas precisamos tentar fazer algo diferente”, declarou. Após as reuniões com as bancadas do MDB e do PRB, Bolsonaro adiantou que não existe um alinhamento automático dos partidos e comentou não saber a “fórmula do sucesso”. “Mas (a fórmula do) a do fracasso é essa que foi usada até o momento. Distribuir ministérios, bancos…”, declarou.

Exercer uma governabilidade junto ao Congresso excluindo líderes influentes do processo de articulação é possível, mas requer muito traquejo político, alerta o cientista político Murillo de Aragão, presidente da Arko Advice. “Todo diálogo direto é importante, mas não quer dizer que só isso funciona. Tradicionais lideranças estão questionadas, e novas podem surgir no processo. Mas não se pode desprezar essas lideranças internas, que ainda têm muita influência dentro do quadro político brasileiro”, avaliou.

Dinâmica

A reunião com Bolsonaro agradou as bancadas. Nela, foi discutido como os parlamentares podem negociar com o governo sem cair no “toma lá da cá”, da distribuição de cargos em troca de apoio no Congresso. Na “fórmula antiga”, um partido comandava um ministério e tinha acesso a cargos restritos naquela pasta. Assim, também se limitava o alcance para a cobrança de recursos para os estados. Estando na base de Bolsonaro, a avaliação é de que podem ter acesso a mais ministérios para o encaminhamento de demandas.

É o que explica o deputado Marcos Pereira (SP), presidente nacional do PRB. “Deputados e líderes dos partidos vão ter acesso a todos os ministérios. Não tem mais esse negócio de ‘ministério A’ é do ‘partido A’. Uma vez que os ministérios são do governo, eles atenderão a todos os partidos. Facilita a vida dos deputados e dá condição de apoiarem o governo com mais tranquilidade para pedir recursos para sua base, estado, pontes, hospitais, enfim”, afirmou.

A fórmula adotada por Bolsonaro garante mais autonomia e deixa os parlamentares menos dependentes do apoio ao governo, admite o deputado Darcísio Perondi (MDB-RS). “Quem vai decidir a entrada na base do governo ou não vai ser a bancada, não o presidente (do partido)”, avisou. Procurado, Jucá não quis comentar a reportagem. O líder do PR, deputado José Rocha (BA), minimiza a estratégia de articulação do governo e explica que os caciques não estão sendo deixados de lado. “São reuniões com as bancadas da Câmara. Apenas os deputados foram convidados.”


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