Novo governo Bolsonaro busca apoio de Doria para estreitar contato com o Centrão O governo acredita que o governador de São Paulo pode contribuir para puxar votos de outros partidos como PRB e PP

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 03/12/2018 07:37 Atualizado em: 03/12/2018 07:40

A meta de Bolsonaro e da cúpula política é convencer legendas do Centrão a apoiarem a agenda econômica e até as pautas de costumes e valores
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
A meta de Bolsonaro e da cúpula política é convencer legendas do Centrão a apoiarem a agenda econômica e até as pautas de costumes e valores (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), está colocando a coordenação política do governo em São Paulo em campo para convencer o governador eleito no estado, João Doria (PSDB), a apoiar projetos de interesse. Afinal, o convencimento não se limita apenas aos tucanos e possibilita ampliar a articulação com partidos que vão compor o governo estadual: o PSD, do futuro secretário da Casa Civil, Gilberto Kassab; e o DEM, do vice e futuro secretário de Governo, Rodrigo Garcia.

A próxima configuração da Câmara conta com um total de 92 deputados do PSDB, PSD e DEM, o equivalente a 17,9% do total. No Senado, serão 22, ou seja, 27,1% dos senadores. Bolsonaro e o articulador político, Onyx Lorenzoni (DEM), futuro ministro-chefe da Casa Civil, sabem que Doria, Kassab e Garcia, juntos, não têm influência sobre todas as respectivas bancadas no Congresso.

Mas o governo acredita que o trio pode contribuir para puxar votos de outros partidos do Centrão, como PRB e PP, que compuseram a chapa tucana vencedora na eleição de SP. As duas siglas contam, juntas, com 67 deputados e seis senadores. A meta de Bolsonaro e da cúpula política é convencer essas legendas a apoiarem a agenda econômica e até as pautas de costumes e valores.

Os primeiros contatos da coordenação política de Bolsonaro com o entorno tucano ocorrem gradualmente. Nesta semana, o deputado eleito coronel Tadeu (PSL-SP) deve se encontrar com Kassab para traçar pautas prioritárias para o governo. “Essa aproximação tem que ser feita para consolidar a base política. Precisamos conversar para alinhar o apoio”, pondera o braço direito do deputado e senador eleito Major Olimpio (PSL-SP).

O diálogo entre o diretório paulista do PSL e o PSDB não é simples. Durante as eleições, Olimpio apoiou formalmente o adversário tucano, o atual governador de São Paulo, Márcio França (PSB). Apesar das diferenças no período eleitoral, o momento agora é de paz, prega Tadeu. “Não estamos no ringue. Doria vai governar o meu estado e, para isso, vai precisar do governo (federal)”, ponderou.

A coordenação política do PSL não cogita a possibilidade de negociar cargos e espaço no governo em troca do apoio da gestão tucana. Mas acredita que pode negociar no campo de interesse mútuo. Tadeu reforça que Doria foi eleito com 51,75% dos votos, o que, para ele, demonstra uma rejeição que o tucano precisará reverter. Para isso, precisará colocar a máquina do governo a favor da população. “Para tocar o barco, ele fica dependente da renegociação da dívida do estado com a União”, alerta.

Débitos

A reorganização dos débitos de São Paulo com a União, entre outras pautas fiscais que beneficiem São Paulo, pode, dessa forma, criar uma política de boa vizinhança com Doria que resulte no apoio a projetos do governo federal, prevê Tadeu. O deputado eleito adverte, no entanto, que determinadas pautas podem ter dificuldades de interlocução, como a reforma da Previdência. “Cada assunto será tratado de uma forma”, avisa.

O governador eleito de São Paulo terá um desafio difícil pela frente. A deputada eleita Joice Hasselmann (PSL-SP) mantém um contato próximo de Doria desde as eleições e cobra que ele “seja” o PSDB. Olimpio também se encontrou com o tucano e reforçou o recado. Mas a fragmentação do PSDB deve fazer com que essa tarefa seja difícil, avalia o cientista político Enrico Ribeiro, coordenador da Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical.

A divisão tucana aponta para quatro alas diferentes, pondera Ribeiro: uma ligada a Doria; outra, ao governador eleito do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite; outra, fiel ao presidente nacional tucano, Geraldo Alckmin; e outra, conectada aos ex-governadores de São Paulo José Serra e Alberto Goldman. “Doria não tem influência sobre todos, sobretudo dos mais independentes”, analisa.

O apoio de Doria é uma faca de dois gumes. Ao passo em que pode ser positivo para a governabilidade de Bolsonaro, há um risco de o tucano se aproximar demais para, na frente, se lançar como protagonista das reformas aprovadas e disputar o cargo de presidente da República. 
 
A expectativa é que Doria possa reduzir a divisão do PSDB para ser o trator que o PSL espera. Para isso, precisará garantir a vitória de Bruno Araújo (PE) na Presidência nacional do partido. Em reunião da bancada na quarta-feira (28), em Brasília, Alckmin estabeleceu as eleições municipais para março, as estaduais, para abril, e a nacional, para maio.

Aproximação

O governador eleito de São Paulo não foi à reunião convocada por Alckmin, mas se reuniu depois com correligionários em um jantar organizado na casa do deputado e senador eleito Izalci Lucas (PSDB-DF) para aproximar deputados e senadores novatos e antigos. A expectativa de Doria é convencer, sobretudo, os parlamentares eleitos para ampliar a força dentro da legenda.

Na prática, Izalci admite que Doria declarou apoio a Bolsonaro. “Agora, vamos debater e fazer uma discussão sobre o apoio da bancada (ao governo)”, afirma. O senador eleito admite a existência de alas distintas, mas garante que, independentemente de o PSDB ocupar espaços no governo ou não, a legenda vai apoiar “o que for bom para o Brasil”. “Tem uma turma mais governista, outra mais independente, e outra que pode até fazer uma oposição, mas é uma minoria, muito minoria”, explica.


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