Entrevista Líder da oposição sugere Priscila Krause para a sua sucessão a partir de 2019 Sempre policiando as próprias palavras, para não causar polêmicas desnecessárias entre os aliados, Silvinho acredita que Priscila está madura e se preparou nos últimos anos para assumir o liderança do bloco adversário de Paulo Câmara

Por: Aline Moura - Diario de Pernambuco

Publicado em: 24/11/2018 06:00 Atualizado em:

Silvio Costa diz que a oposição precisa fazer autocrítica, corrigir os erros, atuar de forma mais unida e nos anos anteriores aos eleitorais. Foto: Roberto Ramos/Assembleia Legislativa
Silvio Costa diz que a oposição precisa fazer autocrítica, corrigir os erros, atuar de forma mais unida e nos anos anteriores aos eleitorais. Foto: Roberto Ramos/Assembleia Legislativa

 

Líder da oposição estadual, Silvio Costa Filho (PRB) sugere, aos novos deputados estaduais e aos reeleitos, que a deputada estadual Priscila Krause (DEM) assuma a liderança do bloco opositor a Paulo Câmara a partir do próximo ano, quando assumirá um mandato de deputado federal. Silvio Filho, conhecido nos corredores da Assembleia Legislativa e pelos parlamentares como Silvinho, fala sobre o tema “sucessão”, mas, ao mesmo tempo, evita causar ciumeiras. Desde que entrou na política como vereador, aos 21 anos - hoje tem 36 - sempre seguiu o caminho do meio, usando poucas vezes o advérbio “nunca” ou “jamais”, evitando fazer acusações acima do tom. Foi candidato a vice na chapa com João Paulo, em 2012, perderam juntos a disputa municipal. Ele permaneceu na oposição, ficou na liderança oposicionista por quatro anos. João Paulo se desfiliou do PT e entrou nas fileiras do PCdoB, partido da futura vice-governadora, Luciana Santos. 

Em entrevista exclusiva ao Diario de Pernambuco, também faz um balanço da atuação da bancada, diz que a oposição precisa se reciclar e corrigir os erros, pensar nos municípios, reunir-se com frequência, não apenas nas eleições. Tudo com palavras pausadas, medidas, um estilo bem diferente do seu pai, o deputado federal Silvio Costa (Avante). Policia-se a cada momento. Silvinho fica com o rosto vermelho quando alguém, sem querer, tira uma brincadeira com ele, sem que esteja preparado. Nesse momento, perde o ar solene e gagueja, outro aspecto que o diferencia do pai. Fala quase sempre em terceira pessoa, usando o pronome “nós” e a locução pronominal “a gente”. Quando não está preocupado se causará celeuma, com suas palavras, solta, livremente, “eu”. “Saio da Assembleia Legislativa muito mais maduro. Saio com a visão de Pernambuco”   

Deputado, o senhor está deixando a liderança da bancada da oposição no próximo ano. Qual o balanço que você faz desse período em que você foi líder?
A gente passou quatro anos como líder, quero inclusive agradecer a todos os companheiros da oposição, a oportunidade que me deram por duas vezes, fui eleito e reeleito pela unanimidade.  Nós procuramos fazer uma oposição serena, responsável, não uma oposição contra Pernambuco, mas uma oposição a favor de Pernambuco. Nós buscamos ouvir a sociedade através de audiências públicas e através do Pernambuco de Verdade. A oposição teve a oportunidade de visitar mais de 120 municípios ao longo desses últimos quatro anos, de ouvir todos os canais institucionais de participação popular. A oposição esteve presente, andando Pernambuco, cumprimos o nosso papel que é de legislar e fiscalizar o Poder Executivo. Mesmo pequena, em número, todos os companheiros da Assembleia deram sua contribuição da melhor forma. A gente espera que a oposição possa continuar na mesma direção. Na hora de ajudar Pernambuco, nunca nos furtamos. Sempre que convidada, estivemos presentes. Infelizmente, o governador Paulo Câmara não valoriza o Poder Legislativo, não dialoga com a sociedade civil organizada, não pôde fazer um debate mais transparente com o Poder Legislativo, sobretudo, da forma como encaminhou os projetos. A gente esta vendo, agora, os projetos que chegaram no final do ano como penalizam a população. O governo precisa melhorar e muito o diálogo com o Legislativo e com a sociedade pernambucana.

A oposição faz uma autocrítica neste período, considerando que Paulo Câmara foi reeleito e ganhou no primeiro turno?
Eu acho que é um momento que a oposição precisa fazer uma reflexão do processo em Pernambuco. Primeiro, penso que Paulo Câmara ganhou, sobretudo pelos erros da oposição. A oposição precisa ampliar o diálogo com a sociedade pernambucana, seu papel de fiscalização. Quer queira quer não, o debate em Pernambuco foi nacionalizado e não estadualizado, tanto é que o governo Paulo Câmara ganhou pela força do PT e de Lula no Nordeste e em Pernambuco. Acho que a oposição poderia ter tido a estratégia de lançar múltiplas candidaturas. Segundo, a oposição precisava ter feito uma leitura do processo nacional, que não foi feito. Terceiro, a oposição precisa, desde já, fazer um planejamento para 2020 e 2022. Acho que o que faltou na oposição foi plano estratégico no sentido de tentar construir uma unidade não só no período eleitoral, mas um período de diálogo permanente para decidir as estratégias. Acho que o momento agora é de a oposição se reciclar. A oposição precisa trabalhar pela renovação dos quadros, tem que andar mais Pernambuco, sobretudo, visitando as regiões do estado de forma permanente, e sobretudo discutir e debater políticas públicas não apenas na eleição, mas ao longo de 2019, 2020 e 2022. O Paulo Câmara não ganhou pelo sucesso do governo dele. Paulo perdeu, de uma eleição para outra, mais de um milhão e 100 mil votos. O governador ganhou pelos erros da oposição e, sobretudo pela força e o PT do presidente Lula tem em Pernambuco. Tanto é que ele fez tudo para tirar a candidatura de Marília Arraes.

E, na sua avaliação, quem tem o perfil para ser líder da oposição no próximo ano?
Em respeito aos companheiros da nova Legislatura da Assembleia Legislativa, naturalmente eles vão fazer um debate interno, mas, se eu pudesse sugerir um nome que pudesse liderar, eu defenderia o nome da deputada estadual Priscila Krause (DEM). Tenho muita afinidade com a deputada, ela cumpre um papel importante na Assembleia, pode dar continuidade ao trabalho da oposição realizado nos últimos quatro anos, sobretudo no Pernambuco de Verdade. Acho que, pela experiência que acumulou nos últimos quatro anos, pelo papel que ela cumpriu, penso que ela pode cumprir o papel de líder. E onde eu puder ajudar, com deputados reeleitos e com os que estão chegando agora, nós vamos falar para defender o nome de Priscila.

Mas o senhor é um dos deputados que têm mais trânsito na Assembleia. Pelo que o senhor conversa e sonda, Priscila será a líder?
Acho que sim. Se depender das pessoas que conversei da oposição até agora, ela tem todas as credenciais para ser a futura líder da oposição. Onde eu puder contribuir com esse encaminhamento, ela contará com o nosso apoio, porque entendo que ela pode dar continuidade a um trabalho que vem sendo feito nesses últimos quatro anos no estado.

Quando o senhor entrou na Assembleia, era praticamente um menino. O que te emocionou mais nos últimos anos como deputado estadual?
O que mais me marcou foi a gente perceber, como deputado estadual, que pode conhecer mais a realidade social e econômica do nosso estado. Existe uma coisa chamada desigualdade social e diferença social. Desigualdade social é uma pessoa ter um BMW e o outro ter um Gol. Isso é uma desigualdade social. Diferença social é você ter uma BMW e a outra não ter nem o que comer dentro de casa. Acho que, como deputado estadual, pude caminhar no estado, conhecer os problemas de Pernambuco, perceber as dificuldades regionais do ponto de vista social e econômico. Saio da Assembleia Legislativa muito mais maduro. Saio com a visão de Pernambuco. Pernambuco tem muitas vocações para se desenvolver, crescer dentro do ponto de vista econômico e social. O que me emocionou foi conhecer, in loco, os problemas reais da vida das pessoas.

Deputado, qual vai ser seu papel na Câmara Federal a partir do próximo ano. O senhor integra o PRB, do bispo Edir Macêdo, gostaria de saber se senhor vai apoiar Bolsonaro (ele já foi aliado do PT no estado)?
Como deputado federal, quero trabalhar nosso mandato para dedicar à Agenda Brasil. Independentemente da coloração partidária, da minha avaliação do processo eleitoral. Acho que é hora de se encerrar esse debate entre coxinhas e mortadelas e entre nós e eles. A hora é de ajudar o Brasil. E todas as vezes que chegarem matérias a favor do país que busquem o desenvolvimento econômico, a geração de emprego e renda, a retomada do crescimento, contarão com o nosso apoio na Câmara Federal. Eu defendo o Prouni, o Pronatec, o Bolsa Família, o Luz para Todos, mas o maior programa social do Brasil tem que ser o emprego e a renda. Quero dedicar o nosso mandato para trabalhar pelo desenvolvimento do país. A agenda Brasil tem que ser a redução do estado brasileiro, uma reforma da Previdência que não prejudique a população, a busca permanente pela eficiência da gestão pública. É fundamental que possa haver um pacto federativo, porque hoje, 70% do que se arrecada no país está nas mãos da união e 30% nos estados e municípios, é preciso que os municípios e estados recuperem a capacidade de investimento. Quero me dedicar na Câmara Federal ao Pacto Federativo, além de outros temas como educação, saúde, segurança pública. Todas as vezes que o presidente Jair Bolsonaro enviar pautas que estimulem o desenvolvimento econômico contará com o nosso apoio no Congresso Nacional.

E se houver pautas que estimulem o crescimento econômico de um lado e pautas contrárias aos direitos fundamentais de outro, pautas contrárias ao artigo 5º da Constituição Federal?
Nosso desejo é trabalhar pela preservação dos direitos fundamentais. Acho que o Brasil não permite retrocessos. É uma democracia moderna, consolidada no mundo e sou contra a qualquer tipo de retrocessos. Entretanto, precisamos ter pautas que busquem a consolidação das políticas públicas,  a consolidação dos direitos humanos, mas, ao mesmo tempo, é importante ter uma pauta que busque o desenvolvimento e o crescimento do país. Precisamos, primeiro, saber qual é a pauta e o tema que serão colocados. Quero fazer um mandato presente em Pernambuco. A gente vai querer ouvir a sociedade pernambucana e tentar representar Pernambuco na Câmara Federal.

O senhor, que é presidente estadual do PRB, vai ter um papel de destaque em Brasília?
Espaço você não pede, espaço você conquista. Eu quero poder somar o partido, a legenda hoje tem um papel estratégico no nosso país, o PRB é o maior partido de oposição aqui no nosso estado. Em termos de bancada congressual, penso que hoje são 30 deputados federais e terá um papel importante na governabilidade do nosso país nos próximos quatro anos. Nós, mesmo em Brasília, reafirmamos nosso papel de fazer oposição ao PSB nesses próximos quatro anos. Quero me colocar como instrumento dos deputados estaduais lá em Brasília para ajudar Pernambuco, fortalecer a oposição no nosso estado, mas também vou procurar o governador Paulo Câmara, em janeiro, para me colocar à sua disposição na Câmara Federal. Quero dizer ao governador e me colocar à disposição todas as vezes que ele precisar do nosso mandato na Câmara Federal.



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