Entrevista "Não podemos frustrar o povo brasileiro", diz Luciano Bivar Eleito deputado federal pelo PSL, Bivar falou sobre o futuro do país com o novo presidente, em entrevista ao Diario

Por: Kauê Diniz

Publicado em: 05/11/2018 14:36 Atualizado em: 05/11/2018 16:11

Foto: Bernardo Dantas/DP/D.A Press
Foto: Bernardo Dantas/DP/D.A Press
Foi com um celular à mão, já em conversas sobre o futuro político do país, que Luciano Bivar (PSL) recebeu a reportagem do Diario de pernambuco, na última quinta-feira (1), em sua residência. Nem parecia que no dia anterior tinha passado por uma intervenção cirúrgica na coluna vertebral, responsável, inclusive, por tirá-lo da festa da vitória de Jair Bolsonaro (PSL), domingo passado, no Rio de Janeiro. A decepção passou e agora ficou a satisfação. Após 20 anos "insistindo" nos ideais sociais liberais, Bivar, eleito deputado federal, confessa que já acreditava ser difícil ver se tornar realidade no Brasil o que defendia há décadas e escrevia nas páginas dos seus livros. Porém, uma chance, na qual rejeita sobre hipótese de aposta, bateu à sua porta. Era Bolsonaro, então deputado federal pelo PSC, convicto da candidatura à Presidência da República, mas precisando de uma legenda que encaixasse sua linha de pensamento. Segundo Bivar, o casamento de raciocínio foi imediato e o então parlamentar ingressou no PSL, partido criado e comandado pelo pernambucano, com carta branca. Doze anos após ele mesmo fracassar nas urnas - teve 62.064 votos - em uma disputa presidencial, vencida por Lula (PT), Bivar, além de se eleger deputado federal, enxerga em Bolsonaro características que também carrega. O defende das polêmicas nas quais o futuro presidente da República já se envolveu, mas também diz que já houve "bifurcações" entre eles de linha de pensamento e ambos souberam respeitar as opiniões. Entretanto, afirma, com certeza, em alguns trechos dessa entrevista ao Diario de Pernambuco, que ambos já conversaram e chegaram a um consenso: "não podem errar". O ex-presidente do Sport conta, a seguir, como se aproximou do aliado, qual será seu papel no futuro governo, o olhar de Bolsonaro para Pernambuco, entre outros pontos.

ENTREVISTA //

Como começou esse casamento Luciano e Bolsonaro? Foi na própria Câmara dos Deputados, já tinha afinidades em comum? Foi uma aposta que deu certo?

Na verdade, não foi uma aposta. Vou contar uma história e você vai ter que cortar muito, mas eu vou ser breve. O fato é o seguinte: a gente (o PSL) já existe há 20 anos, é um partido de centro, com a linha certa. Desde 1985 que escrevo sobre liberalismo, Imposto Único. Escrevi Cuba num retrato sem retoques, falando num sistema de economia massificada, escrevi o livro Brasil alerta, psicoses socialistas... Não queria colocar uma coisa que fosse um mal, uma doença incurável, mas que era um perigo para o Brasil, porque o socialismo parte do princípio de que, no fim, todos os resultados têm que ser iguais. É muito bonito isso, mas, para você ter resultados iguais, você desestimula o cara que é criativo, o cara que tem um talento maior. Como é que eu vou ter resultados finais iguais se eu tenho um talento diferente de você? Outra coisa: se eu tenho ambição e você não tem ambição e a minha ambição é produzir cada vez mais e você não tem essa ambição? Como eu vou dar superávit para a riqueza de um país para distribuir riquezas? Eu preciso da competitividade, mas tem gente que se basta com aquilo. Ele não vai diminuir nada, mas também não vai produzir nada. A gente não é um país de formigas, a gente é um país que tem que ter superávit. Adam Smith (filósofo e economista, considerado o pai do liberalismo) diz que o lucro é o investimento futuro do capitalista, enquanto o liberalismo, o ponto de partida dele, é a igualdade de oportunidades. Aí, vem o social liberal. Por que a igualdade de oportunidades? Porque a gente precisa ter educação para todos, a gente precisa ter um transporte acessível a todos, precisa ter uma educação, uma saúde para todos. Esse é o princípio que todos têm que ter as mesmas oportunidades. Esse é o princípio básico, a igualdade de oportunidades. Agora, eu não posso ter como princípio a igualdade de resultados no final, como é o socialismo. É muito bonito, mas que se mostrou ineficaz, os exemplos vêm aí desde 1917, desde os bolcheviques, que explodiram a União Soviética, todos esses processos se acabaram. Cuba, se não tivesse o subsídio do governo soviético, quebrava. Quando o advento de Mikhail Gorbatchov (o último presidente soviético)  o que aconteceu? Acabaram aqueles US$ 10 milhões que davam por dia. Porque não produziam, o estado é incapaz de criar, de produzir riquezas, mas é capaz de administrar. Essa foi a grande diferença. Quando Jair Bolsonaro chega no meu gabinete, dizendo que ele é pela economia de mercado, que ele é pelo liberalismo, por uma segurança firme, tudo casa comigo. Mas fui bem franco com ele e disse que o partido não tinha dinheiro, tempo de TV, não tinha nada. Ele disse: 'Não preciso de nada disso. O meu discurso é esse do PSL, quem quiser vir comigo vem. Eu não tenho obsessão, tenho uma missão, já estou liderando as pesquisas, porque eu acho que essa candidatura de Lula é ficção. Quem achar que isso vai levar a gente a ter uma mudança total de economia de mercado, de uma ordem, de respeito, então vota comigo. Quem não quiser votar comigo, vota com o outro. Vamos botar na balança o que o povo brasileiro quer. Antes de tudo, sou democrata, quero respeitar essas instituições desse país'. Então rapaz, foi uma coisa fantástica. 

Então, casou a sua ideia com a dele? 

Isso. Em setembro do ano passado, ele que me procurou, desci do meu gabinete, fui no gabinete de deputado Francischini (PSL-PR), que estava coordenando tudo dele e era delegado federal. Mas eu disse: 'Tem uma coisa a mais, Jair. Eu não quero que você se alie a mim, porque quero que você ganhe a eleição. O meu partido não tem nada e não vai te acrescentar nada. Eu tanto quero que você seja eleito que prefiro que você pense, raciocine, procure outro partido, depois, se for o caso, você fala comigo'. Aí ele disse: 'Tudo bem, Luciano'. Mas, quando eu estou saindo do gabinete, ele disse: 'Luciano, o PSL pode ser meu paraquedas?' 'Eu disse: pode sim'. É isso aí. Era a palavra mágica que ele queria. Fui almoçar com o meu advogado, Antônio de Rueda, vice-presidente do PSL. Antes de terminar o almoço, o telefone tocou. Era Francischini: 'O Jair está apaixonado pelo Luciano, ele quer o PSL de todo jeito, vamos continuar a reunião'. Aí, fizemos uma outra reunião. Eu disse: 'Olhe, eu tenho um problema. Tem 12 candidatos a deputados que afirmaram que vêm para o meu partido, que são os cabeças pretas (do grupo do Livres, movimento de renovação que defende o liberalismo econômico) e ele disse: 'Quando é isso?' Respondi: 'Marquei uma reunião para 3 de janeiro, é muito tempo, por isso você vai ter tempo para pensar'. Mas ele falou: 'Já está pensado. É o PSL". Quando eu saio, ele é um bocão danado, falou com a Revista Época que tinha conversado comigo e 99% estava certo. Ali, o Livres e os seus meninos põem uma nota no jornal dizendo que eu o recebi por gentileza, mas eu não recebi por gentileza. Eu recebi ele como presidente de um partido, que me sentiria honrado de ele entrar nas fileiras do PSL e eu tive que contradizer na hora. Até o Antagonista (site jornalístico) disse: 'Esses meninos não falaram com Luciano'. E deu aquele clima, quando chegou dia 3 de janeiro vieram todos os cabeças pretas e também o pessoal do MBL (Movimento Brasil Livre). Como escrevi um livro Intuição, a Terceira Mente, eu imaginei muito, porque aquilo teve uma relação em mim orgânica. Terça-feira à noite, ele (Bolsonaro) me telefona e pergunta: 'Fechou o negócio?' Respondi que não tinha funcionado. Ele falou: 'Então eu vou aí a no Recife'. Fomos para uma reunião no meu escritório e subscrevemos aquela carta que era nos comprometendo com a economia de mercado, com o direito de propriedade, com aqueles princípios básicos. Ele garantindo que, em 1º de março, assim que abrisse a janela (partidária, que liberava a troca de partido), ele iria para o PSL, mas já era do PSL. Tiramos a fotografia, assinamos o documento. E assim, em 1º de março, ele fez, porque é muito reto. No dia 1º, ele ingressou no PSL e daí começamos a campanha. Mas uma coisa muito boa, tanto aqui no Recife e como lá. Em nenhum momento, ele me disse: 'Se eu chegar no Palácio, você vai ter um ministério, vou te dar a vice-presidência... Em nenhum momento houve fisiologismo, isso me deixou muito tranquilo. Pensei: 'Esse é um cara sério. Dei sorte e assim foi'. 

O senhor imaginava conquistar uma bancada desse tamanho, com 51 deputados federais, a segunda maior da Câmara, atrás somente do PT? 

Imaginava de 30 a 40, porque a gente tinha o maior número de candidatos entre todos os partidos. E em alguns lugares nós fechamos, era só PSL. O que a gente queria fazer aqui (em Pernambuco), Mas não sei porque cargas d´água a gente, com certo receio, fez aquela coligaçãozinha (com PHS, PV e PRTB) e só botamos sete ou oito candidatos. Mas, pois bem, tivemos um milhão e trezentos mil votos a mais do que o PT. Não botamos mais seis deputados federais por causa da cláusula de barreira. Tinha que atingir o mínimo em São Paulo. Por conta disso, entraram até alguns caras do PCdoB, por conta da nossa sobra. Veja que ironia. 

O PSL poderia ter mudado os rumos da eleição ao governo de Pernambuco se tivesse um candidato?

Eu acho que sim, mas a gente não tinha quadro. Deixa eu te falar uma coisa. Tinha o general (Manoel) Pafiadache, que seria um candidato nosso, mas estava com impossibilidade porque não tinha largado o Exército no tempo hábil. Ele lamentou muito. Ele foi o comandante do Quarto Exército. Mas eu não queria também que a gente tivesse um candidato bisonho, que fosse fazer vergonha: 'Ah, o Jair, lá no Recife, teve 3%. Por outro lado, os outros dois candidatos - Paulo Câmara (PSB) e Armando Monteiro Neto (PTB) - não bateram em Jair. E eu queria garantir ele pelo menos no segundo turno. Então, aqui no Recife, ele foi o mais votado. Depois, foi que Fernando Haddad (PT) conseguiu aquilo ali (virar no segundo turno), mas nem Paulo Câmara bateu nele nem Armando. Eu fazia campanha por aí pedindo votos para ele, nos hostes dos dois sem problema algum. Então, isso foi uma estratégia política minha, até porque eu tava focado no meu candidato a presidente. Eu não pedia voto para os meus governadores. 

Com esse crescimento exponencial do partido, o PSL pretende lançar candidatura, daqui a dois anos, às principais prefeituras do estado?

Não estamos pensando em candidatura majoritária. O que a gente está pensando é fortalecer o partido com pessoas boas dentro do partido. É o mesmo sentimento que eu queria fazer com os cabeças pretas (do Livres), gente que queira vir naquele sentimento de: eu vim de graça. Agora, a gente tem dinheiro, mas o que a gente quer é convicção. A gente vai fazer um garimpo dessas pessoas que possam se enfileirar a nós e possam dar o melhor, sem qualquer fisiologismo. 

Então o foco é mais no Legislativo aqui? Não seria encontrar um nome que congregasse valores que pudesse ter candidatura à Prefeitura do Recife?

Não estou com objetivo de ganhar a prefeitura. Estou com objetivo de fortalecer o partido. Quem quer fortalecer o partido, e se pensar amanhã em voos mais altos, o partido, claro, que está acessível a isso. Mas não é objetivo primeiro nosso.

Esses três primeiros governadores (Coronel Marcos Rocha, Rondônia; Antonio Denarium, Roraima; e Comandante Moisés, Santa Catarina) que o PSL fez vão servir de exemplos de práticas para que PSL possa mostrar, mais à frente, como um cartão de visitas do partido, como governante?

Não, primeiro que nós achamos o seguinte: eles vieram agora e vieram nesse lema, 'vim de graça'. Ou seja, os caras vieram com convicção. Inclusive, gravei vídeo para alguns deles como presidente nacional do partido. Mas o que tenho falado, e falei anteontem (terça-feira, dia 30) com Jair (Bolsonaro), é que a gente não pode errar. As coisas têm que ser muito sérias. O PSL é um partido que não veio para ser uma onda, uma ventania bolsonariana, não. Ele veio para realmente, agora, aproveitando Jair, dizer o que ele pensa.

Porque senão se torna um partido que cresceu numa eleição e na outra (diminui) como já vimos em outras ocasiões…

Pois é. Então isso vai (ficar) bem claro. Vamos fazer uma reunião e vamos dizer qual é a filosofia do partido. Eu tenho absoluta convicção que muita gente quer isso, porque a gente teve 57 milhões de votos. E esses 57 milhões de votos foram muito imbuídos nessa esperança de uma mudança. Então, o PSL agora, pode ficar certo, vai trabalhar nessa linha de correção, de não corrupção, não fisiologismo, de gente jovem, de entrar nas universidades. Ou aqueles que têm cabeça branca, mas que são pessoas lúcidas, e até pessoas recicladas que venham para o nosso partido. Serão muito bem-vindos. E a gente vai fazer essa campanha no Brasil inteiro.

Na política tradicional, quando você não é aliado, por muitas vezes você sofre retaliações de repasses de recursos federais e, queira ou não, o Nordeste derrotou Bolsonaro. E Pernambuco está dentro desse contexto. Como o pernambucano, e o nordestino em geral, pode esperar esse governo de Bolsonaro? Vamos entrar no fim da fila de prioridades ou não?

Não, não. Isso não acontece de jeito nenhum. Bolsonaro vai ter uma linha republicana. Há um projeto no Ministério da Economia de que haverá um hardware, onde o dinheiro vai chegar lá e será distribuído, numa linha mais direta até para os municípios e para os estados, independentemente de participação de deputados. O Ministério das Cidades não vai existir mais.

Não vai precisar mais daquela romaria de prefeitos e governadores?

Não, porque isso vem de forma automática. E independemente de cada estado, da coloração de cada governador, que elegeu A, B ou C. Isso será feito. Isso é um compromisso que ele tem com o povo brasileiro. O que é que tem a ver o pernambucano com a decisão de Paulo Câmara de ter apoiado Haddad? Nenhuma. O que precisa é que aqueles recursos que venham para cá sejam aplicados em benefício do povo. Até acredito que Paulo Câmara é um cara sério, e não fugirá a isso. Porque para isso terá também o Ministério Público, para fiscalizar os prefeitos em toda essa linha, porque essa vai ser a linha econômica do governo. A pirâmide, hoje, está invertida: o verso está para baixo e a base está para cima. Então, qual é aquela frase de Paulo Guedes (futuro ministro da Fazenda)? 'Menos Brasília e mais Brasil'. Ou seja, Brasília está com a base da pirâmide, que é a parte toda de dinheiro, e no verso não chega nada. Vamos inverter. Brasília não vai ter nada. O dinheiro vai correr. Dizem, muitos amigos meus, diz uma deputada amiga minha, que teve 2 milhões de votos: 'Mas Luciano, isso é tão perigoso, porque tem tanto prefeito picareta'. Sim, vai ser uma loucura isso. Mas o Ministério Público vai ter que investigar e todo mundo tem que falar. Porque também vai ser mais fácil o cara que mora lá em Moreilândia cobrar do prefeito segurança, saúde e transporte. A verba está lá com ele (o prefeito). Ele quem vai administrar aquilo ali. Então, o povo vai depor ele ou não, dependendo de como vai aplicar aquele dinheiro. Ele só não pode roubar, porque ali vai haver fiscalização dura. Vamos ter um ministro da Justiça, Sérgio Moro, que vai ter o apoio cego do presidente. Por que qual a ideia do presidente? É ele delegar a seus ministros poder absoluto. Poder absoluto entre aspas. Absoluto em filosofia não existe. As coisas são relativas sempre. Mas tem uma carta branca para amanhã Sérgio Moro chegar para o presidente, e o presidente dizer assim: 'Olha, me bota esse guarda lá na esquina, esse guarda civil'. O Sérgio Moro vai botar, é um pedido do presidente. Mas ele (Bolsonaro) não quer amanhã dizer:'Ô, Sérgio, vê o rolo que deu lá na esquina com aquele guarda civil'! Aí Sérgio (diz): 'Foi o bilhetinho que o senhor mandou, por isso que eu botei, o problema é seu'. Então, Bolsonaro é muito inteligente. Disse: "Não, eu não boto nada e nem faço nenhum bilhete, tudo é você'. E assim serão todos os ministérios. Porque ele quer cobrar a só um. E não tem esse um, vem dizer assim: 'Não, eu fiz isso por acomodação'. Não terá acomodação. Não tem toma lá, dá cá. Não eu precisei botar isso porque esse cara tinha não sei quantos votos lá. Não tem paradigma. É difícil eu explicar isso.

Mas, infelizmente, muitas vezes a política brasileira é feita de um outro modo.

Então, vai ser uma coisa totalmente diferente.

O bloco que está sendo construído no Congresso é PSL e o centrão, o PT, como oposição, e um terceiro grupo vem se formando, prometendo atuar de acordo com cada pauta, formado por PSB, PDT, PSDB e PPS. Esse último grupo, então, será o fiel da balança?

No momento em que você tem um projeto que seja em benefício do Brasil, aquele PL (projeto de lei) não tem capa nem coloração. Estaremos juntos. Mas enquanto a esquerda tomar aquilo como uma seita, achar que as coisas têm que ser da maneira deles, não enxergar o óbvio, como é que pode? Posso te afirmar que se Bolsonaro for um cara corrupto, o primeiro a pedir a saída dele é o próprio PSL, porque a gente não tem o partido como seita. O Bruno Ribeiro (presidente do PT em Pernambuco) ficou doente outro dia porque fui dizer que (o partido) era uma seita. Como é que você admite o líder dele (Lula) estar na cadeia por crime de lavagem de dinheiro, entre outras coisas, e achar que esse cara é inocente quando todas as instâncias comprovaram que o cara (era culpado)? Aí (os aliados dizem): 'Ah, isso não tem prova'. Como não tem prova? Um calhamaço de provas. Existe, no direito, as provas circunstanciais e as provas concretas que dão, como por exemplo, o fato de o apartamento (tríplex do Guarujá) estar no nome dele. (O discurso do PT) é de uma limitação jurídica sem tamanho. Se o crime de lavagem de dinheiro é você botar no nome de outros, como é que poderia estar no nome dele (Lula)? Quer dizer, eles erram por base um princípio jurídico estudando a lavagem de dinheiro. Batem nessa tecla e dizem que o povo não tem prova concreta. Como que as pessoas com a cabeça tão lúcida pensam desse jeito? Mas o ser humano é muito perigoso e difícil. O ovo da serpente estava muito grande com esse cara. Se você não consegue esmagá-lo agora, ia sair dali um dinossauro que ia engolir todos nós. 

Bolsonaro foi muito criticado por posicionamentos em relação a questões de costumes, algumas relacionadas ao público LGBT, como também em defesa do coronel Brilhante Ustra, acusado de ser um torturador no período da ditadura militar. São posições individuais de Bolsonaro ou a população pode entender que se tornem coletivas para o país?

As posições que ele tomou, e que dizia, muitas delas há vinte anos atrás, são tiradas de um contexto que não está completo. Quando ele fala 'eu sou a favor da tortura', em que contexto ele falou isso? Numa discussão acalorada, você prendeu um bandido, caçam teu filho, e ele não diz onde está o cativeiro. Então, pega esse cara, ele tem que falar. Aí (ele diz) eu sou a favor da tortura. Aí cortaram e botaram ele lá. Isso é uma circunstância. Outra é Maria do Rosário. Ele está no salão verde, passa ela, que não era entrevistada, para agredi-lo e dizer: 'O problema é maior que isso, você quer botar todo mundo na cadeia, não sei o quê… Estupradores têm problemas antes de eles serem estupradores'. Aí, aquele bate-boca danado, aí ela vira-se para ele e diz 'você é um estuprador'. Ele diz: 'Mas não se preocupe, que eu jamais lhe estupraria. Você não merece ser estuprada'. E ele, um cara feito você, você sai todo dia do Diario, vai ali tomar bebida em mesa de bar, a gente fala coisas que são coisas coloridas para gente dizer… É feito você vai num salão, num desfile de moda, vem mulher com roupa bem fantasiosa, um balão enorme: "Vixe que coisa ridícula". Mas aquilo é a tendência da moda, os vestidos vão ser todos de balão, todos daquela cor lilás. Mas o figurinista, o estilista, ele põe aquela coisa no desfile de forma aberrante. Então assim é a política. Você às vezes põe determinados argumentos de forma aberrante. Mas não é o contexto daquilo ali. Ele (Bolsonaro) disse: 'Você evolui. Mudei vários conceitos que eu tinha'. Tanto que quantas vezes eu troquei e-mail com ele no começo, e ele terminava assim: 'Luciano, a gente tem algumas bifurcações nesse assunto'. Porque eu sou extremamente liberal. Eu escrevi um artigo, uma vez, dizendo que sou a favor da privatização da Eletrobras (tema que Bolsonaro é contrário), e mandei para ele. Ele disse: 'Está perfeito, mas têm algumas coisas que a gente bifurca'. Mas não é nada impossível da gente conversar. Aí arruma Paulo Guedes, que tem cabeça igual a minha. É muito inteligente e Bolsonaro também. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar. Acho que essas coisas vão se acoplando. Ele está fazendo o governo dentro daquilo que é uma dedicação, que vai ser um sacerdócio, e estou muito esperançoso. Eu não pensei que, com minha idade (73 anos), o PSL fosse ter vez, porque quantas vezes nesses vinte anos políticos me chamaram dizendo: 'Luciano, venha para cá, você não cresce no PSL. O PSL não tem condições, não tem estrutura'. E eles tinham razão. Eu nunca cresci no PSL. Mas sempre preferi ficar num partido onde tinha minha independência de falar minhas besteiras. E assim foi o PSL. Quer dizer, minha vida inteira, de dizer coisas que queria, de defender liberalismo, não tinha cara, não tinha poder, mas sempre tive respeito dos meus colegas. Todos eles me tratavam bem. O próprio Lula, Dilma me convidou para participar do conselho político dela. Marina (Silva) insistiu que eu fosse apoiá-la, porque eu apoiava o Eduardo Campos. E eu fui. Naquela época (2014), estava entre Marina e o PT, e eu fiquei com Marina. Então, tudo isso foram circunstâncias da vida, sem toma lá dá, cá, sem perder minha identidade. No momento em que você defenestrou o DEM, foi um erro fatal. Por que defenestrar o DEM no meio da campanha? Tirar o Caiado daquilo que era um defensor? Um movimento ruralista grande? Ela (Marina) começou a dar um esquerdismo, de um exacerbada defesa do meio ambiente que fez com que perdesse a eleição. E chegou agora e desmascarou total. Mandaram ela, num dos debates, agredir Bolsonaro. Ela no palco, entrou, quase que ele saia da área do ringue. Com dedo em riste para ele. Quando ela saiu, foi palma, foi elogio de todo mundo. Ela engolia daquela corda, como quem diz 'eu sou magrinha, mas eu enfrento'.

A reforma da Previdência é apontada como um dos primeiros desafios que Bolsonaro precisa vencer. Dá para ser votada e aprovada, o senhor que estava agora exercendo mandato de deputado federal, pelo Congresso antes do início do mandato de Bolsonaro?

Acho que ele tem que ver possibilidade de ter êxito e isso Rodrigo Maia (atual presidente da Câmara) está vendo isso. Todos eles estão vendo isso. Eu acho que se puder já iniciar no governo Temer é melhor, porque é um assunto que urge para que a gente resolva. Eu concordo que vote já agora no governo Temer. 

Nos últimos dias, Paulo Guedes e Onyx Lorenzoni, futuros ministros da Fazenda e Casa Civil, trocaram algumas farpas. Vocês acham que pode haver estremecimento?

Olha, tudo tem que ser ajustado com Onyx. Com Paulo Guedes também, mas ele sintetizou bem. Eu não posso falar em política se eu não conheço. Como vou botar isso para rodar se o Onyx diz que não. Como Onyx não pode falar em economia. Então, são duas áreas diferentes e é o que Bolsonaro quer. Cada um tem sua área. O Onyx talvez, por um lapso de disciplina dentro da nova ordem, porque é um político tradicional, ele tem que sentir que cada macaco no seu galho. Está certo. Falou aquilo. Mas aquilo não teve reverberação dentro do bloco e permanece tudo bem. Mas foi um momento ali que ele estava afobado e o cara vem dizer aquilo e ficou grave. Ele tem que responder pela área dele.

Outro ponto que, nos últimos dias, foi alvo de várias críticas é a questão da junção de alguns ministérios. Dá para levar adiante essa junção de Planejamento com Fazenda, e Meio Ambiente com Agricultura ou é algo que deve ser revisto?

Olha, tem um economista que está no sistema, que está nesse projeto, muito respeitado e é da equipe de Paulo Guedes, ele entende que Planejamento e Fazenda devem ser diferentes. Devem ser dois ministérios. Mas eu posso dizer que a gente pode ponderar a opinião dele e ter outro raciocínio. Paulo Guedes, o que ele vai fazer? Ele vai ter a secretaria de cada um desses ministérios como se fosse um ministro. O que ele não quer é que você faça uma política econômica que depende do Planejamento. O cara do Planejamento já está ali dentro. Então, eles vão discutir, vão quebrar pau ali entre eles, sem ter que hierarquia. Porque se você bota hierarquia naquele negócio tem que respeitar o Planejamento? Não. Ele vai ter que dizer e vai ter que ser feito daquela forma. Se o secretário de Planejamento entender que não, vai ser um grande problema, mas tem que sair a fumaça branca ali. Como acontece na escolha do papa. Eles ficam ali um dois, três dias até sair. Mas o importante é você não ficar esperando que outro ministério, que é independente, der o ar da sua graça.

Em relação à Presidência da Câmara, o PSL vai reivindicá-la ou abrir mão para evitar também atritos com os demais partidos?

Deixa eu te dizer uma coisa em primeira mão. Anteontem (terça-feira), eu falei com Bolsonaro. Ele disse: "Bivar, a gente presidir a Câmara não é um sinal assim de certo autoritarismo, entendeu? A gente não pode ter um aliado aí agora na presidência da Câmara. Estou falando isso e vou até frustrar alguns colegas meus que vão estar com ele (Bolsonaro) na terça-feira, que querem por querem que a gente tenha presidente na Câmara e o nome que eles escolheram foi o meu. Tenho que convencer esses caras que não briguem mais porque quero conversar com Bolsonaro. E Bolsonaro disse: 'Luciano, nós podemos conversar nós humildemente sobre esse assunto. Ele foi de uma forma extremamente humilde comigo, como quem diz assim: 'Eu não quero impor. Poder Legislativo é Poder Legislativo, Poder Executivo é Poder Executivo. Ele disse que nós dois não podemos errar". Somos responsáveis por tudo isso que está acontecendo. A gente pode ter outros lugares na Mesa Diretora da Câmara, mas a presidência fica ruim para nossa imagem. Chegamos e já queremos… Então, é possível que, na terça-feira, eu convença a bancada de abrir mão disso aí porque a gente teve muito apoio que surpreendeu ele. Bolsonaro não podia imaginar que a gente seria capaz de ganhar. E ele também ficou feliz que ele viu a força que tem a caneta porque o que mais se questionava era se ele teria governabilidade E está se provando hoje que ele vai ter governabilidade. Talvez não de mudar uma PEC, assim com tanta facilidade, mas leis ordinárias, sim. Ele vai modificar isso que é maioria simples e vai mudar com tranquilidade.

O senhor falou algumas vezes nesta entrevista "a gente não pode errar". É uma situação imposta pela divisão que hoje há no país e qualquer erro pode dar munição à oposição de apontar que a escolha da mudança foi equivocada?

Não foi nesse sentido que ele (Bolsonaro) falou. Ele falou no sentido que nós não podemos errar para não frustrar o povo brasileiro. Não que a escolha foi errada. Está tudo depositado nele e é uma frustração. Não que eles fizeram a opção errada. A opção que eles fizeram foi certa, foi correta. Eles acreditam que sim. Todos que votaram em Bolsonaro. O que ele não pode é não corresponder a isso aí. É o que mais dói nele. É não corresponder a essa confiança. Por isso que ele disse: 'nós não podemos errar'. Porque não existe coisa pior do que você se decepcionar. O pior sentimento que o ser humano tem é a decepção. Então, ele quer fazer tudo dentro das convicções de ter um país sem corrupção, com economia liberal, implantar uma segurança ao povo, a segurança jurídica, as instituições preservadas... Ele está imbuído de todos esses valores que só os teóricos falam, mas todo mundo fala que isso é uma coisa angelical, que ninguém vai chegar ao poder com esse discurso e ele chegou. Deram essa oportunidade a ele. Então, ele não quer decepcionar. Fez elogios a mim mais que eu merecia, dizendo que nós somos responsáveis por isso que está aí. Não. Isso foi uma responsabilidade dele.

E qual será seu papel neste momento do país?

Meu papel será de dar substância ao partido. Foi tudo que eu quis. Foi todo meu sonho: ter um partido político que representasse realmente um movimento liberal. Um movimento que todos tivessem igualdade de oportunidade. Se for para ter universidade federal de graça e primeiro grau de graça, tem que ser tudo (investimento) para o primeiro grau de graça. Também investir em cursos à distância e cursos técnico. É um conceito de educação norte-americana. Para você chegar na universidade ou tem bolsa ou você tem notas altíssimas. Mas isso é uma benesse da universidade. Não entra dinheiro do estado. A gente gastou, no último ano, R$ 750 milhões em pagamentos de bolsas às universidades por conta desse subsídio federal. Então, vamos fazer a igualdade da oportunidade. Esse que é o princípio liberal. Não um igualdade de resultado. A igualdade de resultado fica para o socialismo. Mas o estado mostrou-se eficaz de ser justa a igualdade de oportunidade porque cada homem é importante dele ser diferente. Ele é indivisível. Cada um tem que respeitar sua criatividade. Cada um tem seus ideias diferentes. Cada um tem seus objetivos de crescer diferente. Você não pode igualar ele. Não faz sentido. Isso fere o princípio liberal. Tem coisas que obstaculam o liberalismo que são essas coisas. Então, você não poder ter umas convicções que você vai limitar. A igreja, com todo respeito, ela tem que entender que você não pode ter convicções fundamentalistas, que isso inibe o liberalismo. O liberalismo transpõem a igreja, ao estado de economia massificada, a limitação de produção, a levar para o estado todo poder de definir para onde você vai, para onde você quer. Não pode fazer isso. Isso são obstáculos para você atingir o liberalismo. Então, isso é o meu sonho. Isso dentro do partido é o que eu quero pregar. Eu quero ser no governo de Jair Bolsonaro um pregador. Nem ministro me interessa. De todas especulações e conversas desde de vice até ministro não me interessa. Tenho 74 anos de vida (vai completar essa idade dia 29 de novembro). Não tenho mais grandes objetivos políticos na minha vida, mas tenho esse objetivo de a gente ter essa corrente que une a sociedade de forma onde você respeita a individualidade de cada um.

Ou seja o senhor chegou aos 74 anos com a chance de, enfim, concretizar o sonho de toda vida de conceito?

Eu falava sozinho. Eu como Bolsonaro eram dois solitários. Eu ficava centrando em uma coisa ele em outra. Ele não tinha participação em relatoria, em comissões porque a turma sabia que não podia contar com ele. O pessoal dizia: 'Não bota Bolsonaro nesse negócio que vai dar água. Não traz Luciano para isso que vai dar água'. E eu, com um partido pequeno, nunca me aviltei também. Passei todo esse tempo lá (em Brasília) e escutava: 'Olha, Luciano, tem um negócio aí para a gente juntar seu partido". Eu dizia: 'Mas quais são as ideias?' Aí diziam, 'mas a gente vai… rapaz não me fala desse negócio não. Não me interessa'. Mas isso não foi em vão. A essa altura, depois de 20 anos, eu fazer um presidente da República. Isso foi uma satisfação muito grande.

Foi como ver o Sport, do qual o senhor já foi presidente algumas vezes, campeão?

O Sport campeão é uma coisa de muita paixão. A política é muita paixão também e me deu muita alegria. Eu estava muito tenso com tudo isso. A minha própria empresa vivia uma situação muito complicada. Todas as empresas estão complicadas. O país vive uma situação delicada.São raríssimas as que não estão nessa situação. E por que isso? Quando você tem um Sertão tão complicado e pega quase cerca de R$ 1,9 trilhão desviado para coisas fora do Brasil... Lula emite um decreto onde o BNDES pode emprestar para empresas no exterior. Isso dói. Eu ligava a televisão e achava que era só eu quem estava indignado e depois descobri que era muita gente. Em 2013, eu estava na Avenida Paulista no meu carro. Aí, de repente, vem aquela multidão, aquela passeata. Era só de avô com neto, com filho, com mãe. Era uma indignação nacional.Aí depois infiltraram aqueles movimentos (black blocks) e esvaziou. Mas o primeiro movimento foi autêntico. (Geraldo) Alckmin e Aécio (Neves) foram se infiltrar lá no meio e a turma colocou eles para fora. Era um movimento apartidário.

Como foram as comemorações dessas vitórias políticas?

Deixa eu te dizer uma coisa, essa é a quinta cirurgia que faço. Algumas pessoas nascem com deficiência mental, cardíaca, a minha é na coluna vertebral. Agora, para eu votar, quase que fui em uma cadeira de rodas. Mas meu assessor ponderou: 'Luciano, é muito ruim você ir votar assim, aí imprensa toda vai está lá'. Dobrei a dose de morfina, fui meio leso, mas acertei ainda o 17 (risos) - o número de Bolsonaro. O bom desse negócio é que tive essa crise quando estava um mês sem jogar tênis, devido à campanha. Então, não foi o tênis que provocou esse problema e desta vez ia ficar muito preocupado porque o tênis é o que sei fazer e gosto. Mas fiquei aqui em casa chateado, por que sabe o que é o presidente do cara ganhar, ser eleito deputado federal com quase 118 mil votos e você não poder nem ir ao Rio para comemorar com todos? Mas vencemos, isso o que importa. 


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