Presidente eleito Com Bolsonaro, Brasil deve buscar novos parceiros comerciais Declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro, mostram que o Brasil deixará de lado a vontade de liderar os países em desenvolvimento para procurar parceiros que sejam interessantes do ponto de vista econômico, como os Estados Unidos

Por: Paloma Oliveto - Correio Braziliense

Publicado em: 04/11/2018 10:18 Atualizado em:

Pronunciamentos do futuro presidente indicam que o Chile, de Piñera, e os Estados Unidos, de Donald Trump (foto), têm potencial para ser os maiores aliados comerciais e diplomáticos. Foto: Nato/Fotos Públicas
Pronunciamentos do futuro presidente indicam que o Chile, de Piñera, e os Estados Unidos, de Donald Trump (foto), têm potencial para ser os maiores aliados comerciais e diplomáticos. Foto: Nato/Fotos Públicas
Declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro, mostram que o Brasil deixará de lado a vontade de liderar os países em desenvolvimento para procurar parceiros que sejam interessantes do ponto de vista econômico, como os Estados Unidos

O mundo jamais havia escutado este nome. Mas, pelos próximos quatro anos, Jair Bolsonaro fará parte da pauta internacional, no comando da oitava economia do planeta. Visto com desconfiança pelos aliados tradicionais do Brasil, o presidente eleito já conquistou, porém, a simpatia de governos de direita, como os de Bolívia, Estados Unidos, Israel e Chile. Os três últimos, aliás, foram escolhidos pela equipe dele para inaugurar a agenda de viagens presidenciais, em detrimento da Argentina, principal parceiro comercial do país na América Latina. A confirmação de que levaria a embaixada brasileira em território israelense de Tel Aviv para Jerusalém também trouxe polêmica para os relacionamentos exteriores.

Embora a política externa de Bolsonaro ainda seja uma incógnita, com o enxuto programa de governo divulgado durante a campanha pouco esclarecedor sobre esse tema, o discurso do presidente eleito alinha-se especialmente ao de Donald Trump, que, no domingo da eleição brasileira, telefonou para o futuro colega, parabenizando-o pelo resultado das urnas. Logo em seguida, o norte-americano tuitou sobre a conversa e disse que ambos concordaram que “Brasil e Estados Unidos vão trabalhar bem próximos no Congresso, em assuntos militares e tudo o mais!”.

As congratulações não parecem mera formalidade. Na sexta-feira, em entrevista à BBC News Brasil, o diplomata Thomas Shannon, que foi embaixador em Brasília no governo de Barack Obama e ocupou o cargo de Secretário de Estado Interino na transição de governo, disse que Brasil e EUA estão buscando maneiras de “mostrar sinais mútuos claros de que querem uma aproximação melhor, para, então, tornarem essa aproximação benéfica para os dois lados”. Shannon defendeu a entrada do país na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e disse que “torce” para que isso aconteça.

A cientista política Ariane Roder, professora no Instituto Coppead de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que, sob o comando de Bolsonaro, o Brasil deve restabelecer uma diretriz de alinhamento preferencial aos Estados Unidos, em contraste com a política externa da última década. “O país vinha apostando na diversificação de parcerias internacionais, sobretudo para diminuir a dependência dos EUA. Agora, essa política sofrerá uma descontinuidade”, aponta.

Fora de blocos
Bolsonaro deixou claro várias vezes que não tem interesse em blocos políticos ou comerciais. Guru do presidente eleito, Paulo Guedes, anunciado como ministro da Economia, disse ao jornal argentino Clarín que o Mercosul não está nos planos do futuro governo. “O Mercosul não é prioridade. A gente fala a verdade, a gente não está preocupado em te agradar”, afirmou à correspondente da publicação no Brasil.

“A diplomacia sul-sul começa muito forte com Fernando Henrique Cardoso, mas isso deve acabar. Bolsonaro já disse que quer se alinhar a países que possam ‘agregar valor ao setor produtivo’. Ou seja, não interessa a ele países tão ou mais pobres do que nós”, aponta Henrique Bezerra, mestre em relações econômicas internacionais e diretor de relações governamentais do grupo Speyside, especialista em mercados emergentes globais. Para o cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer, o aparente desprezo do presidente eleito pelos vizinhos e, em particular, pela Argentina, é perigoso. “O Brasil exporta muitas coisas para a Argentina e não pode se esquecer disso.” No final da semana, Bolsonaro afirmou que pode romper relações com Cuba.

Na América Latina, o maior interesse do futuro governo Bolsonaro é o Chile de Sebástian Piñera. Os dois têm trocado elogios e, mesmo antes do resultado das eleições, o presidente chileno se pronunciou sobre ele, no fórum Desafio no Chile: Rumo a um Crescimento Integral, Inclusivo e Sustentável. “Conheço pouco Bolsonaro, mas, no aspecto econômico, aponta na direção certa”, afirmou três vezes durante o evento, citado pelo jornal El País. Por sua vez, o presidente eleito se declarou admirador do conservador Piñera e disse que quer trabalhar com ele pelo progresso dos dois países. “Sei que juntos temos tudo para trazer progresso e felicidade para nossos povos”, disse.

Palestinos condenam 
Na sexta-feira, os palestinos chamaram de “provocação” a decisão de Bolsonaro de transferir de Tel Aviv para Jerusalém a embaixada do país em Israel. “É uma medida de provocação, que é ilegal em virtude do direito internacional e que apenas desestabiliza a região”, afirmou à AFP Hanan Ashraui, membro do comitê executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). A decisão brasileira também foi condenada pelo movimento islamita Hamas, que governa a Faixa de Gaza e que travou três guerras contra Israel desde 2008. “Nós consideramos que se trata de uma medida hostil em direção ao povo palestino e ao mundo árabe e muçulmano”, reagiu o porta-voz do Hamas, Sami Abu Zahri, também na sexta.


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