Eleições Por trás das fakes news e do ódio na política, o medo e a paixão O sentimento básico que está por trás de todo o ódio, no inconsciente coletivo do brasileiro, é o medo, diz o psicólogo Aurélio Melo

Por: Aline Moura - Diario de Pernambuco

Publicado em: 04/11/2018 06:01 Atualizado em: 05/11/2018 15:15

Para professor Aurélio Melo, as pessoas foram tomadas por sentimentos, mas não significa que sejam boas ou más. Foto: arquivo pessoal
Para professor Aurélio Melo, as pessoas foram tomadas por sentimentos, mas não significa que sejam boas ou más. Foto: arquivo pessoal

Na era dos boatos, que causam mais danos depois das redes sociais, em escala industrializada, será mais difícil para o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), estabelecer a reconciliação do país e preparar o terreno para eleições mais tranquilas em 2020. Os ânimos podem diminuir, num “cenário sem ameaças e onde nada acontece”, segundo o psicólogo Aurélio Melo, com mestrado e doutorado em psicologia escolar e desenvolvimento humano pela Universidade de São Paulo (USP). Ele também é especialista em análise de discursos e no chamado “inconsciente coletivo”. O problema, além dos robôs que disparam em alta velocidade, é não haver acenos de Bolsonaro para uma trégua. E o ódio, estimulado por ciborgues, pode causar mortes.

“O sentimento básico que está por trás de todo o ódio (no inconsciente coletivo do brasileiro) é o medo. Por um lado (dos adversários de Bolsonaro) há medo de que a ditadura volte, medo da falta de liberdade... e, do outro lado, o medo de que o Brasil vire a Venezuela, de que a corrupção volte com... Não importa se algo disso é real ou fantasia. A verdade é que a gente sente medo e a fantasia (o que imaginamos a partir dessa sensação) pode gerar mais medo do que a realidade”.

Para professor Aurélio Melo, as pessoas foram tomadas por sentimentos, mas não significa que sejam boas ou más. Foto: arquivo pessoal
Para professor Aurélio Melo, as pessoas foram tomadas por sentimentos, mas não significa que sejam boas ou más. Foto: arquivo pessoal

Segundo Aurélio Melo, os brasileiros estão sofrendo não apenas pelo que está acontecendo, mas pelo medo do que pode acontecer. Nesse contexto, entra também o temor individual, de cada um, que vai sendo compartilhado em rede – um pavio quando se junta com às fake news. “O medo está dos dois lados. Nunca dois candidatos tiveram o índice de rejeição tão alto. Isso vai permanecer até que alguma situação objetiva se concretize. As pessoas são tomadas por sentimento, não significa que sejam boas ou más. Nessa eleição, uma pessoa não brigou com um primo que 'não presta'. De repente, ela brigou com um primo de que sempre gostou”.

Outro sentimento envolvido nessa polarização é a própria paixão, de acordo Aurélio Melo. Ele compara os que apoiam o PT ou Bolsonaro a pessoas apaixonadas, que não conseguem enxergar os “defeitos” daquele que é alvo do afeto (é importante frisar que essa avaliação não diz respeito aos que votaram num ou no outro por falta de opção no segundo turno). “A paixão é avassaladora” e o “medo não faz pensar de maneira racional”.

Ele lembra que, quando você expõe o defeito de alguém por quem se é apaixonado – isso se repete na política - a reação é o outro se fechar e ficar com raiva. “O que está valendo são as paixões e o medo que aparece no comportamento sobre a forma de raiva, violência. O medo pode tanto paralisar uma pessoa como quanto pode levar uma pessoa a fazer coisas que ela não acredite”.

Indagado sobre como ainda é possível fantasiar mesmo diante de fatos, nos quais há vídeos e gravações para comprovar, ele respondeu: “O problema é que, por exemplo, aquela pessoa que é apaixonada nega esse fato, ou então, aceita e até gosta. Bolsonaro, por exemplo, conseguiu despertar sentimentos muito primitivos nas pessoas. De repente, ele desperta um ódio que nem mesmo ele tem, as pessoas acabam tomando isso”.

Para Aurélio Melo, tanto o medo, quanto a paixão amplifica tudo. Ele acredita, por exemplo, que, se um cidadão está exausto de sentir falta de segurança, por exemplo, pode estar disposto a “pagar o preço” de ficar sem democracia, em troca de segurança, uma das bases da pirâmide social. “Lembro que teve um vizinho que ficou preso no final da ditadura por dias, mas, hoje, se você fala da ditadura, é muito longe, só faz sentido no mundo acadêmico. Algumas pensam, ah, mas na ditadura pelo menos não tinha assalto”.

Na análise do discurso, segundo Aurélio Melo, os simpatizantes de Bolsonaro o veem como “o salvador da Pátria”, “um mito” o que, para ele, é “uma coisa bastante infantil” do ponto de vista psicológico. Um salvador, em tese, não precisa de fiscalização, como é necessário no exercício da política. A infantilidade, para ele, é porque o eleitor precisa amadurecer e pensar: “Olha, é a gente quem escolhe, a gente tem que cobrar, participar dos conselhos municipais... A nossa tradição política é só de comparecer à urna”. Ele destaca que, a partir de 2014, as pessoas incluíram a política no dia a dia, porém com raiva. “Na questão de afeto, foi pior nessas eleições, o pessoal está mais irado ainda. Está mais extremado, são mais os extremos em jogo. As pessoas se sentem mais ameaçadas, mas vamos ver se o mar se acalma”.



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