Eleições O impacto dos robôs no emocional e na democracia do Brasil Especialistas entrevistados pelo Diario de Pernambuco acreditam que é necessário criar leis, melhorar a tecnologia na área da Justiça e saber que você pode brigar ou apoiar um ciborgue nessa nova era

Por: Aline Moura - Diario de Pernambuco

Publicado em: 04/11/2018 06:00 Atualizado em: 05/11/2018 15:26

Será possível impedir que os ciborgues controlem a democracia daqui para frente?
Será possível impedir que os ciborgues controlem a democracia daqui para frente?

Quando você entra em alguns sites da internet, uma pergunta é feita com frequência: “você é um robô?” Então, pacientemente, você vai lá no quadradinho e clica no X, “não sou um robô”. Virou rotina, o cliente se chateia, às vezes. Mas a indagação mostra, há anos, a preocupação de empresas com androides que disparam mensagens, simulam ações humanas e podem prejudicar uma imagem construída com dedicação. Uma reportagem da BBC chegou a apontar, no ano passado, o risco de o país viver uma Democracia Ciborgue, a exemplo do que aconteceu nos Estados Unidos. O verbo se fez carne, numa eleição de apenas 40 dias, marcada por notícias (muitas falsas) disparadas em série por máquinas comandadas por seres humanos. O incômodo ficou no ar. Será possível impedir que os ciborgues controlem a democracia daqui para frente?

Em 2020, os brasileiros vão novamente às urnas escolher prefeitos e vereadores e o questionamento está no ar. A psicóloga psicanalista, doutora em sociologia e especialista em cultura digital e redes sociais, Cristina Petersen Cypriano, diz que não ter previsões se haverá mudanças de comportamento dos internautas e das redes sociais dentro de dois anos. Ela acredita que as mensagens disparadas em alta velocidade (a maioria baseada em mentiras, mas com toques humanos) despertaram sentimentos subjetivos (até então desconhecidos) nos brasileiros e influenciaram. De repente, você se viu brigando ou concordando com um robô programado, sem saber.

“Os robôs influenciam na medida que tocam em alguma coisa muito subjetiva, que a pessoa não sabe identificar”, frisou. Cristina Petersen diz ser frequente ouvir a pergunta no consultório pós-eleições, após uma campanha pautada no discurso contra minorias. “E agora?” Mas ela não tem respostas prontas. Para ela, por exemplo, quem transmite um boato se identifica de certa forma com ele, de modo que não há como prever se isso mudará nas próximas eleições. “Com certeza, tem um processo de identificação entre as pessoas que vão passando, compartilhando, as mensagens passam por algum tipo de referência moral, ideológica, muito mais do que a preocupação sobre a veracidade ou não. É mais de consolidação de uma postura ideológica ou moral ou religiosa”, declara. “Acompanhei a polêmica do kit gay, onde as pessoas perguntavam: 'Alguém já viu esse kit gay?' Tinha uma argumentação lógica (e contrária) dada sobre o assunto que não era aceita”.

Cristina Petersen complementa haver muito para ser estudado, porque os ciborgues atuam com algorítimos, porém são comandados por humanos. “Quando se fala da fake news, a gente não pode deixar de fora a participação forte da tecnologia nisso, dos robôs. Não é apenas o que as pessoas acreditam ou não, mas há de ser analisado e estudado o impacto disso no pensamento das pessoas”.

Arthur Igreja, Cristina Petersen e José Luiz falam sobre momento político brasileiro pós fake news dominarem as eleições. Fotos: arquivos pessoais
Arthur Igreja, Cristina Petersen e José Luiz falam sobre momento político brasileiro pós fake news dominarem as eleições. Fotos: arquivos pessoais

O professor da Fundação Getúlio Vargas Arthur Igreja, especialista em Tecnologia e Inovação, acredita na mudança caso a Justiça ande na mesma velocidade da tecnologia - não andar a reboque. Ele lembrou que o Tribunal Superior Eleitoral, em pleno século 21, propôs uma espécie de acordo de cavalheiros entre os candidatos para que não se propagassem notícias falsas - um pedido camarada em meio à disputa pelo poder máximo de uma nação. Arthur Igreja tem atuação profissional em mais de 25 países, possui certificações executivas em Harvard e Cambrige. Segundo ele, a saída a médio prazo, para evitar que fake news interfiram na democracia, é a identificação (dos usuários) pelos proprietários das redes sociais e as devidas punições. “Por um lado, a população tem que ficar mais atenta ao que consome como verdade e como conteúdo. De outro lado, precisa haver uma intensificação dos proprietários das redes sociais, porque veja, elas vão cair em descrédito se não melhorarem. Eu também diria que, do ponto de vista legal, o que eu tenho escutado muito fora do Brasil é sobre a responsabilização das redes sociais”.

Segundo Arthur Igreja, depende também da população (que precisa fiscalizar), dos políticos eleitos e das instituições não jogar o tema debaixo do tapete após essa eleição. “É importante que se monitore a questão das fake news. Os mecanismos estão mudando, evoluindo”, frisa. Para ele, contudo, o cenário não parece tão sombrio. “Os mecanismos de investigação vão melhorar muito por parte do Ministério Público Federal. Vão existir denúncias de todos os lados e isso também vai ser muito monitorado pelas próprias redes sociais, pelo próprio Facebook e Twitter, porque é do interesse deles que as redes fiquem mas limpas nesse momento”.

O advogado José Luiz Galvão, integrante da Comissão de Direito Penal da OAB/PE e da União dos Advogados Criminalistas (UNACRIM), diz haver leis que precisam ser debatidas no Congresso Nacional para combater fakes. Ele não sabe prever, entretanto, se haverá interesse do novo governo em votá-las. Segundo José Luiz, um dos principais projetos é o 6812/2017, proposto pelo deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB). Ele acredita que, nessa área de fake news, para impedir prejuízo às próximas eleições, é importante debater essa matéria, que já anexou (apensou) nove projetos. O advogado lembra que a proposta estabelece uma pena de detenção de seis meses a dois anos para quem divulga notícias - que saiba ser falsa – capazes de corromper a verdade nos temas relacionados à saúde, à segurança pública, à economia nacional, ao processo eleitoral ou que afete interesse público relevante.

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“O projeto tipifica algo moderno, que é a fake news”, explica. José Luiz Galvão lembra que as mentiras causam danos em todas as áreas. Ele cita o caso da vereadora e socióloga Marielle Franco (PSol), que foi assassinada no Rio de Janeiro. Naquela ocasião, foram divulgadas, nas redes, que ela era mulher de um ex-integrante do Comando Vermelho, uma inverdade. O discurso que se seguiu nas redes, intensificado por robôs, foi de que ela mereceu a morte. “Uma mentira que é dita 10 vezes se torna verdade. Veja a quantidade de coisas que você pode propagar que pode trazer prejuízo para várias pessoas. Você deturpar fatos em relação à honra de alguém é muito grave”, frisa. Até agora, o caso Marielle Franco não foi esclarecido.



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