novo governo Bolsonaro terá que buscar resultados rápidos para não frustrar o eleitorado A ideia é surfar na onda favorável que o levou a vencer nas urnas

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 30/10/2018 09:08 Atualizado em:

Foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Do alto de 57,8 milhões de votos, qualquer um pode se sentir em uma situação confortável para governar. Mas a ideia da equipe do presidente eleito, Jair Bolsonaro, é não desperdiçar esse capital político. Depois do descanso do dia seguinte ao resultado das urnas, hoje já é dia de trabalho duro para definir os rumos do novo governo. O deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), futuro ministro-chefe da Casa Civil, deve se reunir hoje cedo no Rio de Janeiro com Paulo Guedes, que será o responsável pelo novo Ministério da Economia, a junção da Fazenda e do Planejamento. Além de escolher nomes do futuro governo, eles devem decidir as estratégias a serem tomadas na Esplanada e no Congresso para conseguir resultados rápidos.

A ideia é surfar na onda favorável que levou Bolsonaro a vencer nas urnas. E também evitar contratempos que possam surgir depois de uma eleição tão polarizada quanto a que o país tem vivido nos últimos anos, e que se refletiu nas urnas, com 47 milhões de votos para o candidato do PT, Fernando Haddad. É um número que pode contaminar logo a popularidade do governo, caso faltem respostas para as demandas sociais que levaram o eleitor à sua escolha pelo vencedor.

Transformações

“Costuma-se dizer que a lua de mel entre o eleito e o eleitor dura seis meses. Mas, desta vez, é melhor não contar com mais de três meses”, alerta a cientista política Aline Machado. Para Paulo Baía, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o eleitor de Bolsonaro espera transformações significativas no próximo ano, do ponto de vista administrativo, das políticas públicas e da legislação. “Se essas mudanças não ocorrerem, esse eleitor vai se frustrar”, avisa.
Baía lembra que há também um contingente de 42 milhões de eleitores inscritos que não escolheram Bolsonaro ou Haddad, incluindo as abstenções, os votos em branco e os nulos. “Essas pessoas podem contribuir para a rejeição, caso os resultados não apareçam”, nota. Em entrevista ontem à Rede Record, o presidente eleito afirmou que apresentará em breve um pacote de medidas para satisfazer vários segmentos da população, mas não explicou o que fará. Disse também que 90% de suas ações dependem do Congresso, e apenas 10%, exclusivamente “da caneta presidencial”.

Mudanças

Há, porém, na avaliação de Baía, espaço para mudanças sem alterar marcos legais. No caso da Lei Rouanet, de incentivo à cultura, é possível mudar o perfil dos projetos aprovados por meio de medidas no âmbito administrativo. No caso do Bolsa Família, o governo pretende fazer um recadastramento dos beneficiários, com descadastramento dos que forem considerados sem o perfil adequado. Na política externa, a aproximação com Israel poderá levar à transferência da capital no país de Tel Aviv para Jerusalém, como fizeram os norte-americanos. Bolsonaro chegou a falar também em fechar a embaixada na Palestina.

Esse movimento representará uma mudança drástica em relação aos governos petistas. Há riscos: países árabes podem reduzir as compras de produtos do agronegócio brasileiro. Isso é uma consequência perigosa também para outra medida que o novo governo cogita: a extinção do Ministério do Meio Ambiente e a submissão dos órgãos ambientais a outra pasta, a da Agricultura ou a da Infraestrutura. O temor de ambientalistas é que o desmatamento aumente, prejudicando a imagem do Brasil em outros países. Representantes do próprio agronegócio já pediram que as mudanças na área sejam comedidas.

Previdência

Para Antônio Augusto de Queiroz, diretor de documentação do Departamento Intersindical de Análise Parlamentar (Diap), o governo vai priorizar, no início de 2019, a pauta econômica no Congresso. Entre as prioridades, estará a reforma da Previdência. “Não funciona tratar de assuntos diferentes ao mesmo tempo no Legislativo”.

É possível que seja aprovada, ainda neste ano, a flexibilização da estabilidade do servidor público. Projeto de lei complementar aprovado na Câmara, em discussão no Congresso, permite demitir funcionários que são mal-avaliados. “Isso só depende de anuência do Senado, e pode ir imediatamente para sanção presidencial”. Outro tema a ser tratado no Congresso é a privatização.

Queiroz acha que, quanto às medidas econômicas, o novo presidente vai travar polêmicas na sociedade em torno de assuntos como ideologia de gênero nas escolas. “É um tipo de disputa em que ele se senta à vontade. E, ao mesmo tempo, pode desviar a atenção sobre o que estará em discussão no Congresso”, vaticina. No campo administrativo, Queiroz prevê que serão eliminados convênios entre o governo e Organizações Não-Governamentais (ONGs), como o Movimento dos Sem Terra (MST), algo que depende apenas de diretrizes aos administradores públicos.


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