ELEIÇÕES 2018 Com base forte, PT lidera oposição Partido sai como espécie de sobrevivente nestas eleições e terá oportunidade histórica de se reconectar às bases

Por: Sílvia Bessa - Diário de Pernambuco

Publicado em: 29/10/2018 08:55 Atualizado em:

No Nordeste, onde teve votação expressiva, o PT mantém a liderança, com quatro governadores e cinco aliados. Foto: Peu Ricardo/DP
No Nordeste, onde teve votação expressiva, o PT mantém a liderança, com quatro governadores e cinco aliados. Foto: Peu Ricardo/DP
Depois de quatro vitórias eleitorais, a derrota. Para o PT, é o fim de um ciclo de sucesso em disputas presidenciais, da sequência de resultados de 2002, 2006, 2010 e 2014. A ascensão do ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro (PSL) ao poder marca ainda a volta da direita ao poder. Antes do PT, no Planalto por 13 anos, a Presidência era do PSDB, um social-democrata. Com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o principal líder do partido, na cadeia, acusado de corrupção e lavagem de dinheiro, o PT enfrentará períodos de purgação, avaliação e renovação. Na gestão de Bolsonaro, eleito com 55,13% contra 44,87% para o candidato petista Fernando Haddad no segundo turno realizado ontem, o PT será a maior referência de oposição no Brasil.

 “O partido sai como espécie de sobrevivente e vai exercer importante papel na oposição”, diz o cientista político Joanildo Burity, da Fundação Joaquim Nabuco. “Não sei se a melhor maneira é liderar o processo porque há uma necessidade de se articular uma frente de forças distribuídas no Congresso para além do PT, mas é óbvio que é o maior partido do ponto de vista do congresso, o que lhe dá esse papel de condução”. 

Na nova fase, o PT terá de admitir erros durante os últimos anos à frente do poder - práticas condenadas pela sociedade e Justiça, algumas das quais levaram à prisão a elite do partido e ao impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016. Precisará buscar se aproximar da sociedade e com o lado que perdeu, forças que não concordam com a espinha dorsal do partido mas que são aliadas no bloco dos que farão frente a discursos e ações do presidente eleito e equipe. 

“O PT volta para o estágio dos anos 1990. O partido experimentou o governo, acabou experimentando do doce, comeu e se lambuzou. Muitos achavam que o PT tinha morrido. Não morreu. Acho que está mais forte no cenário nacional, mas (a oposição) é o local onde o PT pode reaprender a ser PT”, diz Gerson Moraes, cientista da Unversidade Presbiteriana Mackenzie. “Ele construiu sua identidade fazendo oposição séria, construindo quadros sérios, (passando a imagem de) partido vinculado à ética, honesto, que sabia fazer oposição inteligente. Quando chegou ao poder se mostrou igual aos outros. Talvez o PT tenha a grande oportunidade histórica de se reconectar às suas bases, como Fernando Haddad falou em seu discurso”, afirma Gerson Moraes.

A musculatura necessária para exercer a liderança da oposição está nos resultados revelados pelas urnas. Afora a votação de Haddad (47 milhões de votos), o PT conseguiu se sair bem nas eleições da base. É dono da futura maior bancada na Câmara dos Deputados, com 56 parlamentares, ainda que tenha perdido sete representantes se houver comparação com o pleito anterior. Em números absolutos, o PT supera a bancada do PSL, que saiu de 1 para 52 parlamentares. PP, MDB e PSD seguem na sequência, respectivamente com 37, 34 e 34 parlamentares na balança do poder legislativo. 

O volume de votos no Nordeste pró-PT é um fator extra. Na região, o PT manterá a liderança: fez quatro governadores e tem cinco aliados. Ao final do primeiro turno, já se podia ver esta força localizada, quando se creditou à região a ida de Haddad ao segundo turno. Mas será preciso moderação, ponderação e tempo para vir como o PT se posicionará diante de alianças e de como o discurso propagado terá aderência junto ao eleitor.

“A situação do PT é complexa. Mas, em primeiro lugar, ele não desapareceu como muitos desejariam”, frisa Joanildo Burity. Para ele, o posicionamento atual se mostra “muito impressionante”, porque o antipetismo foi uma marca desta disputa presidencial. “O PT perde espaço, perde a eleição. Havia sido alvo sistemático de denúncias, com algumas pessoas envolvidas, mas o partido demonstrou resiliência”. 
 
Partido terá hegemonia no Nordeste
 
 A maior novidade revelada pelas urnas foi a hegemonia do PT e aliados em todos os nove estados do Nordeste. É a primeira vez em uma eleição. A confirmação do quadro favorável ao partido na região se deu com a vitória da governadora eleita do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra. Ela foi a quarta do PT. Afora Fátima, foram eleitos no primeiro turno Rui Costa, na Bahia; Wellington Dias, no Piauí; e Camilo Santana, no estado do Ceará. Fora do Nordeste, o PT não fez governadores este ano.

“O que se vê é que o PT desloca a base social da região de São Paulo para o Nordeste, algo que vários estudiosos já vinham desenhando como tendência”, diz Joanildo Burity, cientista político da Fundaj. “Deixa um pouco o setor ligado à industrialização, o perfil urbano, para um contingente social e mais empobrecido, não necessariamente urbano, que tem sufragado a proposta do PT”, analisa. Um dos primeiros desafios do partido, acredita Burity, é reconquistar setores importantes das camadas médias e industrial. 

Entre os aliados da legenda figuram o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB); do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB); o de Alagoas, Renan Filho (MDB); o da Paraíba, João Azevêdo (PSB); e de Sergipe, Belivaldo Chagas (PSD). O crescimento do PT entre os estados do Nordeste vem em uma crescente. A curva foi iniciada com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência. Naquela época, somente um eleito: Wellington Dias. Em 2006, foram três mais dois aliados. Em 2010, venceu com dois governadores liderando a chapa vitoriosa e quatro aliados, somando seis governadores favoráveis ao governo federal, à época do PT. Em 2014, totalizaram-se três governadores petistas e mais três aliados na região.

O saldo de 2018, que inclui senadores - acreditam os especialistas -, pode ser em parte o eco da aprovação de políticas públicas que beneficiaram sobretudo a população mais pobre. Lembra-se que o Nordeste tem os piores indicadores socioeconômicos do Brasil e está entre os destaques dos beneficiários de programas como o Bolsa Família.  

Não se pode esquecer de eventual impacto da campanha presidencial sobre o humor dos eleitores. Nesta disputa, tanto no primeiro quanto no segundo turno, proliferaram declarações contra os nordestinos (o então candidato Jair Bolsonaro chegou a prometer o fim do “coitadismo” nordestino), denúncias de preconceitos aos cidadãos dessa região e fake news que acentuaram a inquietação do eleitor. Para a cientista política da Universidade Federal de Alagoas Luciana Santana, outro fator a se acrescentar diz respeito à “desidratação de partidos como PSDB e MDB na região”. 
 


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