ELEIÇÕES 2018 'Exército de Bolsonaro' comemora a vitória no Recife Eleitores respeitaram a ordem de prestar continência e tiveram um caixão com símbolo do PT como atração

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 29/10/2018 08:32 Atualizado em: 29/10/2018 08:42

Foto: Paulo Paiva/DP
Foto: Paulo Paiva/DP

O Mercado da Madalena, na Zona Oeste, e o Segundo Jardim de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, se transformaram em “palcos de rua” para festejar a vitória do presidente eleito Jair Bolsonaro. Antes mesmo da confirmação do nome do candidato do PSL como o novo presidente do Brasil, as pessoas começaram a chegar no final da tarde no mercado para aguardar a apuração dos votos. Enquanto esperavam, fogos de artifícios eram soltos e um caixão com o símbolo do PT chegou em uma caminhonete, transformando-se na atração principal da festa. Os eleitores faziam questão de tirar fotos ao lado do caixão como forma de simbolizar o enterro da era petista. As comemorações ganharam maior dimensão à noite na orla de Boa Viagem.

Em cima de um trio elétrico e em meio a fogos de artifício, os eleitores de Bolsonaro se revezavam no microfone para dizer que a era PT tinha chegado ao fim, que a mentira nunca mais existiria, nem desvio de verba pública, que o comunismo tinha acabado e que a nação estava liberta. O caixão, que virou atração no Mercado da Madalena e que tinha a imagem do ex-presidente Lula (PT) como defunto, foi levado para Boa Viagem junto com outro ataúde. Os dois foram exibidos como verdadeiros troféus e expostos no trio elétrico.

Em coro, eles cantavam um dos jingles da campanha de Bolsonaro, destacando que a conduta do PT era imoral e que todos estavam ali para derrubar o Partido dos Trabalhadores. “Vá de retro. É caixão e vela preta”, gritavam as pessoas de cima do trio elétrico. Minutos antes da fala de Bolsonaro na condição de novo presidente, militares da Aeronáutica, da Polícia Militar de Pernambuco e do Corpo de Bombeiros pediram aos presentes para ensaiar a primeira coreografia de saudação “ao capitão presidente”.

Durante as falas, os militares se referiram aos eleitores como sendo o “Exército de Bolsonaro”, empregando expressões comuns da caserna, a exemplo de continência, sentido e apresentar armas. Para os novos “soldados”, as palavras de ordem geraram certa confusão. Alguns confundiram sentido com continência e foi preciso que um dos militares corrigisse. “Sentido não é continência, meu filho”, alertou um dos coronéis. Como se estivessem prontos para a batalha, os eleitores repetiram com orgulho as orientações.

O tom militar dos discursos foi quebrado com a fala do empresário Gilson Machado Neto. Em cima do trio elétrico, ele enfatizou que naquele momento o povo estava em festa e que o país corria o risco de virar uma Venezuela. “Não temos o direito de errar de novo. É preciso criar mecanismo de não termos uma ditadura instalada em nosso país como o PT tentou fazer. Vamos cobrar de Jair Bolsonaro que daqui a quatro anos o filho do pobre possa estudar na mesma escola do rico”, exigiu.

Na Avenida Boa Viagem, os eleitores festejaram a vitória de Bolsonaro, mas avisaram que vão cobrar ações do presidente eleito, principalmente nas áreas da saúde, educação e segurança. “O Brasil nunca teve um presidente de direita. Bolsonaro é o primeiro e tem que cuidar dessas coisas, pois o povo escolheu a mudança”, disse o auxiliar administrativo Eberton Freitas, 28 anos. Para a aposentada Maria do Socorro Veras, 70 anos, o presidente eleito significa a mudança que ela queria ter visto ser implantada nos governos do PT. “Gosto do Lula, mas estava na hora de mudar. Agora é a vez de Bolsonaro. Ele tem que acabar com a bandidagem”, destacou, completando que daqui a quatro anos verá se as promessas do novo presidente foram cumpridas. “Mas tenho esperança que ele cumpra o que prometeu para o Brasil”, declarou.
 
Resistência como palavra de ordem

Reação triste se misturou com disposição para lutar. Foto: Peu Ricardo/DP
Reação triste se misturou com disposição para lutar. Foto: Peu Ricardo/DP


Teve choro. Abraços apertados e preocupação com o futuro do país que a partir de 1º de janeiro terá Jair Bolsonaro (PSL) como presidente. Mas a palavra de maior força e que foi repetida várias vezes por militantes e representantes do Partido dos Trabalhadores foi resistência. Ontem, na rua Martins de Barros, centro do Recife, no Espaço 13, os apoiadores de Fernando Haddad (PT) começaram a chegar logo cedo. Enquanto aguardavam o resultado da apuração, alimentavam a esperança da virada, acreditando principalmente nos votos do Nordeste. 

Às 19h, quando foram anunciados os percentuais que decretaram a vitória do adversário, veio a reação triste misturada com a disposição de continuar a luta em defesa do Brasil. “Não vamos abandonar as ruas. Vamos resistir. Não vamos permitir que um fascista faça o que quiser com o país”, gritou ao microfone uma militante. Mesmo com a derrota anunciada, o grupo continuou entoando os jingles da campanha petista e o “Lula Livre”.

Em entrevista, o presidente estadual do PT, Bruno Araújo, afirmou que a luta pela democracia vai continuar contra “as ameaças” que Bolsonaro proferiu ao longo de toda campanha. “Ele não enganou ao país. Disse tudo de primitivo e grotesco que pensa sobre a sociedade brasileira. E vamos nas ruas garantir as conquistas que povo brasileiro acumulou até hoje”, ressaltou. Bruno disse, ainda, que a esquerda foi desafiada por uma eleição que, segundo ele, ainda vai ser muito discutida. “Não podemos hoje dizer que a democracia foi destruída, que foi derrotada pelo voto popular porque mesmo que o presidente eleito não queira, o povo não vai abrir mão dela”, destacou o petista.

Sobre o trabalho da oposição ao novo governo, ele definiu. “O tamanho da nossa oposição vai ser dimensionada pelas ações desse governo. Então, se ele for desenvolver as suas promessas selvagens, vai encontrar um povo disposto a mostrar que um presidente não pode fazer de um país o que ele quer”. Já para a deputada estadual reeleita Teresa Leitão (PT), é um  momento difícil “para o qual não nos preparamos pois tínhamos a expectativa da vitória da democracia pela campanha bonita que fizemos. De toda forma, o importante é o legado que nosso candidato, que foi um gigante, nos deixou, e a confirmação da possibilidade real de derrotar o golpe ainda em curso”.


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