ELEIÇÕES 2018 Nordeste manteve a tradição Região foi onde, mais uma vez, o candidato do PT conquistou ampla vantagem sobre adversário, mas não suficiente para a vitória

Por: Aline Moura - Diario de Pernambuco

Publicado em: 29/10/2018 08:22 Atualizado em: 29/10/2018 08:26

Foto: Marina Curcio/DP
Foto: Marina Curcio/DP

Se o Nordeste fosse um país, o presidenciável Fernando Haddad (PT), escolhido por Luiz Inácio Lula da Silva para concorrer ao pleito, teria vencido a disputa eleitoral contra Jair Bolsonaro (PSL). Em termos proporcionais, Haddad teve 68,49% de preferência dos nordestinos e nordestinas contra 31,51% do seu adversário, um pouco mais que o dobro. O estado de Alagoas, governado por Renan Filho (MDB), reeleito no primeiro turno, foi onde o presidente eleito teve seu melhor desempenho, 40,08% dos votos válidos. Ainda assim, Haddad venceu no estado alagoano com 59,92%, bem como nos outros oito estados da região. 

O Rio Grande do Norte ficou em segundo lugar no ranking de votos em prol de Bolsonaro, dando a ele 36,59%, seguido da Paraíba, onde o militar reformado conquistou 35,02% do eleitorado. A votação de Bolsonaro na região, entretanto, não ultrapassou a média do PSDB, que é de 33,94% em sete eleições, de 1994 a 2018. Os índices do PSDB nesse ano também foram contabilizados no levantamento feito pelo Diario, mas o ex-presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB) ficou de fora da polarização desse pleito no segundo turno, perdendo espaço para um nome considerado outsider, que não tinha tempo de televisão ou grandes partidos aliados. A média de Alckmin nos nove estados do Nordeste foi de 2,40% dos votos válidos, a menor entre os tucanos na história. 

“De goleada”
Por outro lado, o Piauí, governado por Wellington Dias (PT), deu 77,04% dos votos a Haddad, o primeiro lugar no Nordeste a favor do petista, seguido respectivamente do Maranhão, onde ele teve 73,06%. No Ceará, sem apoio do ex-presidenciável Ciro Gomes (PDT), que ameaçava deixar a política se Bolsonaro ganhasse, o petista alcançou 71,11% da votação. Uma votação alta, considerando que o estado cearense é reduto eleitoral dos Gomes, que se revezam no poder.

De modo geral, a média de votos do PT no Nordeste, desde 1994, quando iniciou a polarização da sigla petista contra o PSDB, é de 56,45% de favoritismo. De todos os tucanos, entre os adversários petistas, Fernando Henrique Cardoso foi o que teve o melhor desempenho entre os nordestinos no confronto direto com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 57,59% dos votos da região, no ano de 1994, embalado pelo sucesso do Plano Real e redução da inflação. Não houve segundo turno naquele ano, como em 1998, quando o tucano se reelegeu com 48,58% de apoio dos nordestinos (uma leve queda em relação ao ano anterior). Em 1998, aliás, FHC foi o mais votado em Pernambuco. 

O afastamento do PSDB do Nordeste começou em 2002, quando Lula venceu a disputa regional, antes mesmo do lançamento do popular programa Bolsa Família. Lula teve 58,95% dos votos no Nordeste naquele ano (61,27% no Brasil) e cresceu em 2006, com 70,80%. Favorecida pela popularidade de Lula, Dilma Rousseff (PT) teve 67% dos votos em 2010, e 70,83% em 2014. A presidente que sofreu o impeachment em 2016 alcançou tantos votos quanto Lula entre os nordestinos quando disputou a reeleição. 

Lançado como candidato oficial da sigla somente quando Lula foi proibido de disputar a eleição pelo Tribunal Superior Eleitoral, no mês de setembro, o professor obteve uma votação acima da média petista nos últimos anos, porém um pouco menor que a de Dilma e do próprio Lula. Foi chamado de “Andrade” por muitos nordestinos que não sabiam pronunciar seu nome.     

No Nordeste, que tem uma população de 56 milhões de habitantes, segundo dados do IBGE,  Bolsonaro venceu em três capitais: Maceió (AL), Natal (RN) e João Pessoa (PB). De um total de aproximadamente 1700 municípios, ele ganhou em 21, o que ainda mostra a popularidade do PT na região, mesmo sem Lula encabeçando a chapa majoritária. Mas o Nordeste não é independente. E o presidente da região também é Bolsonaro. 
 
Vantagem ampliada em Pernambuco

Foto: Arte/DP
Foto: Arte/DP


Em Pernambuco, terra natal do ex-presidente Luiz Inácio da Silva (PT), o município de Santa Cruz do Capibaribe, terceiro maior do Agreste, comandado por Edson Vieira (PSDB), foi o único onde Jair Bolsonaro venceu as eleições. A votação de Bolsonaro caiu no estado comparada à do primeiro turno. Haddad conquistou 66,50% dos votos válidos pernambucanos nessa fase contra 48,50% do primeiro. Dos 184 municípios do estado, Haddad ganhou em 183. A maior votação do petista foi em Carnaubeira da Penha, no Sertão de Itaparica, onde ele obteve 95,23% dos votos válidos, 7.402 votos ao todo. O presidente eleito do PSL teve o apoio de apenas 371 eleitores nessa cidade sertaneja. Em Carnaubeira da Penha, o petista também ganhou na etapa inicial, com 88,79% dos votos válidos contra 5,03% de Bolsonaro, pouca mudança. 

Entre os nove estados do Nordeste, Pernambuco, comandado por Paulo Câmara (PSB), ocupou a 6ª posição no ranking dos que votaram em Fernando Haddad, com 66,50% dos votos válidos. O Recife, por sua vez, também deu vitória ao petista, uma leve virada em relação ao primeiro turno, quando Bolsonaro venceu em todas as 11 zonas eleitorais. 

Capitais
Em relação às capitais nordestinas, o Recife, repetindo o desempenho do estado, também ficou em sexto no ranking em termos de apoio a Haddad. O resultado dos votos válidos na capital pernambucana foi de 52,50% para Haddad contra 47,50% dados ao presidente eleito. Bolsonaro venceu em quatro zonas, na 1ª (55%), 2ª (50,73%), 8ª (50,90%) e na 149ª (55,94). Ele manteve a votação alta em três delas (1ª, 8ª e 149ª). O presidente eleito teve seu melhor desempenho em bairros da Zona Sul.

Lulismo   
Em Caetés e Garanhuns, respectivamente, Haddad teve 91,73% e 72,22% dos votos. Lula nasceu em Caetés em 1945, quando o então município era um distrito de Garanhuns. Ele saiu de lá para São Paulo, ainda criança, ao lado da mãe e dos irmãos, para fugir da seca, em cima de um caminhão pau-de-arara. 

Depois da redemocratização, somente a partir de 2002 Lula começou a ganhar as eleições em Pernambuco. Em cinco eleições, o petista e seus sucessores venceram a disputa presidencial contra antigos adversários. Os resultados favoráveis foram mantidos. 

Apesar de Haddad ter sido blindado novamente no Nordeste, incluindo Pernambuco, dessa vez não foi suficiente para sua vitória, o que preocupa especialistas que temem perseguições políticas e retaliações. “Vejo ele (Bolsonaro) como uma conjunção de forças históricas que se mesclam para dar corpo ao autoritarismo desenfreado em que vivemos. Temos um passado escravocrata que se atualiza por uma cultura de ódio da elite e classe média em relação ao povo negro e camada popular. Vivemos um revisionismo da ditadura civil militar, resultado da nossa dificuldade em lidar com este passado”, disse a professora da Universidade Federal de Pernambuco Liana Lewis, psicóloga, com mestrado e doutorado em antropologia. 
 


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