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Opinião Samuel Albuquerque: A botija de Orlando Cavalcanti ( II ) Samuel Albuquerque é presidente do IHGSE e professor da UFS

Publicado em: 12/01/2018 07:00 Atualizado em:

Tratávamos, na primeira parte deste artigo, do legado de Orlando Cavalcanti para os estudos genealógicos e para a história de família no Brasil. Mas quem é o construtor do acervo vertido em um dos principais fundos arquivísticos do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano?

O magistrado Orlando Marques Cavalcanti de Albuquerque (1919-1984) é considerado um dos maiores genealogistas brasileiros do século 20 e, ao longo de quase cinquenta anos, constituiu um arquivo pessoal que reúne centenas de notas de pesquisa e um vultoso número de inventários, testamentos e outros documentos, garimpados e “extraídos” nos cartórios de antigas comarcas pernambucanas (Cimbres, Pesqueira, Brejo da Madre de Deus, Garanhuns, Buíque, Águas Belas, Pedra etc.). O linhagista ambicionava reunir e estudar os documentos que registravam a história das famílias que desbravaram e povoaram o Pernambuco profundo.

Com sua morte, em setembro de 1984, amigos e parentes ligados ao Instituto Pernambucano negociaram com a viúva Risalva Tenório de Albuquerque a doação do acervo, o que se efetivou sob a batuta do historiador José Antônio Gonçalves de Mello, presidente do Instituto. Desdobramento dessas ações, foi constituído o Fundo Orlando Cavalcanti - FOC, um dos mais importantes e requisitados fundos arquivísticos do Instituto Pernambucano. Além disso, como já assinalei, entre 1994 e 2000, a Editora Universitária da UFPE e o Instituto Pernambucano publicaram os três volumes da obra Gente de Pernambuco, reunindo escritos inéditos e escritos de imprensa de Orlando Cavalcanti – mais de uma centena de artigos veiculados na década de 1960 pelo Diario de Pernambuco. Tais escritos, mais que rigorosa investigação genealógica, possuem um caráter pedagógico evidente: instruir familiares, parentes e pernambucanos de “boa cepa” sobre suas origens, reforçando elos, sentimentos de pertença, solidariedades de grupo, diferenciações.

Em se tratando do Fundo Orlando Cavalcanti, a criminosa prática de incorporar papéis públicos aos arquivos pessoais teve consequências positivas, considerando o lastimável estado dos arquivos cartoriais no interior de Pernambuco, bem como a sobrevivência e o acesso público aos documentos “recolhidos” pelo juiz linhagista.

Com base nas centenas de documentos do Fundo Orlando Cavalcanti, muitas genealogias e histórias de famílias podem ser escritas e conhecidas. Para exemplificar isso, torno a minha experiência com esse fundo arquivístico do Instituto Pernambucano.

Mesmo que visando a uma circulação restrita, doméstica, familiar, estou concluindo uma pequena brochura intitulada Aos filhos da Mina Nova, contendo a ascendência do meu bisavô José Florentino de Albuquerque, o senhor da Fazenda Mina Nova, em Águas Belas, Pernambuco.

Os três volumes da obra Gente de Pernambuco e, sobretudo, os preciosos inventários e testamentos do Fundo Orlando Cavalcanti permitiram-me reconstituir a trajetória da família até princípios do século 18. Para além disso, e ainda seguindo as pistas de Orlando Cavalcanti, recorri aos clássicos estudos de Borges da Fonseca, autor de Nobiliarquia Pernambucana, e Braamcamp Freire, autor de Salões da Sala de Sintra, o que me permitiu recuar cada vez mais no tempo e chegar ao medievo lusitano, na figura de D. Afonso Sanches, o senhor de Alburquerque, nas raias entre Castela e Portugal. O livrinho que, para cada ancestral direto, traz uma nota com dados biográficos e indicação das fontes, logo será vertido em presente de Natal para tios, primos e parentes.

Visando a uma circulação mais ampla, já que pretendo publicá-lo na centenária Revista do Instituto Pernambucano e, posteriormente, vertê-lo em capítulo de livro, está outro trabalho – apresentado meses atrás, no XXIX Simpósio Nacional de História, realizado pela Associação Nacional de História (ANPUH/Nacional), na Universidade de Brasília. Sob o título Uma caçada medonha, estudei a perseguição capitaneada pelo coronel Apolinário Florentino de Albuquerque Maranhão, meu trisavô, ao bandoleiro José Caetano de Moraes na década de 1850, percorrendo territórios dos sertões de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. A história dessa “peleja” revela não só um episódio pouquíssimo conhecido da história do banditismo sertanejo oitocentista, como também o cotidiano dos conflitos entre liberais e conservadores nas províncias do norte do Império.

Mas, é preciso dizer: apanhei o fio condutor dessa história no Fundo Orlando Cavalcanti. É que o linhagista, além de inventários e testamentos, “colecionou” recortes de jornais pernambucanos e alagoanos do século 19. Ao final do inventário do coronel Apolinário, Orlando Cavalcanti anotou referências de jornais oitocentistas que levaram-me às suas versões integrais, disponíveis na Hemeroteca Digital Brasileira da Fundação Biblioteca Nacional. Lá encontrei um mundo de outras referências às pelejas entre o coronel Apolinário, seus familiares e o bando liderado por José de Moraes.

Os exemplos que trouxe, indicam as potencialidades do Fundo Orlando Cavalcanti do Instituto Pernambucano. Com base nele, repito, muitas genealogias, histórias de famílias e a própria história pernambucana e alagoana podem ser (re)escritas.



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