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Diario Editorial: Investigações, sim; espetáculo, não

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 07/12/2017 07:16 Atualizado em:

Não pode deixar de causar surpresa o fato de um reitor, dois ex-reitores, uma vice-reitora e duas ex-vice-reitoras de uma universidade tradicional serem alvos de um mandato de condução coercitiva - aquele instrumento pelo qual o suspeito é levado pela polícia para depor.
Aconteceu ontem em Belo Horizonte (MG), com os seis sendo levados para a sede da Polícia Federal. Todos são ligados à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O reitor chama-se Jaime Arturo Ramires, e a vice-reitora, Sandra Regina Goulart Almeida. A condução coercitiva deles ocorreu no âmbito da Operação Equilibrista, deflagrada pela PF, com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU) e do Tribunal de Contas da União (TCU), para investigar suposto desvio de cerca de R$ 3,8 milhões nas obras do Memorial da Anistia Política do Brasil.
Segundo a CGU, além do desvio teriam ocorrido irregularidades na execução e na prestação de contas do empreendimento, tais como falsificação de documentos, gastos não relacionados ao objeto da obra, pagamento de estágio a pessoas sem vínculo estudantil e desvio de valores para outras contas estranhas ao projeto.
Funcionários da UFMG foram para a frente do prédio da PF, protestar. Entidades do mundo político e acadêmico e a Comissão Estadual de Verdade de Minas Gerais também se posicionaram contra a ação. Em um tom duro, a Comissão da Verdade afirma em nota que “recebeu com surpresa e indignação a notícia da realização da operação da Polícia Federal, ironicamente intitulada Esperança Equilibrista”. Afirma que “há um evidente ataque de setores conservadores e autoritários contra a universidade brasileira e tudo o que essas instituições representam para o Brasil”. Sobre as obras do Memorial, destaca que a construção “é um complexo projeto arquitetônico e de engenharia que envolve a reforma de prédios antigos e a construção de novos equipamentos em terreno com problemas estruturais. Portanto, o devido acompanhamento dessa obra, paralisada a fórceps pelo atual governo federal, não deveria ser objeto de ação policial e sim, de adequações financeiras, técnicas e administrativas”.
O episódio de ontem evoca o ocorrido com o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier de Olivo, que cometeu suicídio em outubro passado, um mês depois de ter sido preso em uma operação da PF,  como suspeito de participação em desvios que teriam ocorrido em programa da instituição.
Sem entrar no mérito da questão, que terá seu devido desdobramento na Justiça, reafirmamos aqui nosso posicionamento em relação a fatos semelhantes: é fundamental que as apurações de malfeitos continuem e que não haja tréguas no combate à corrupção. Mas isso deve ocorrer com base em investigações consistentes e sem transformar as operações em espetáculos midiáticos. A falta de sobriedade e o estardalhaço não ajudam a busca da verdade nem a punição de culpados. Ao contrário, lança desconfiança sobre a ação empreendida e corre o risco de, em vez de chegar aos verdadeiros responsáveis, vitimar inocentes.
 


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