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Opinião Luciana Grassano Melo: Todas elas, para você Luciana Grassano Melo é professora de Direito da UFPE

Publicado em: 06/12/2017 07:16 Atualizado em:

Quanta desordem na casa. Agora mesmo reparo nas manchas brancas carimbadas pelos meus pés no kilim da sala. Tudo é pura poeira de gesso que se espalha na casa feito saudade e se acumula nas mais escondidas reentrâncias.
 
O corredor do apartamento é estreito e longo.  De piso, teto e paredes brancos. Nunca pensei que o branco no branco aparecesse tanto! Mas o que mais vejo no corredor de piso, parede e teto brancos é o branco da poeira no chão, como o açúcar em pó que Maria usa para confeitar seus bolos na cozinha da casa.

Acho que é porque gosto tanto do Natal que quero a casa bonita nessa época do ano. E caio nessa agonia de o tempo não bastar, como me prometeram.

Aqui da sala vejo as paredes bem alvas, recém-visitadas por tinta fresca. E janelas, muitas janelas. É certo que quase não vejo paredes na sala, mas as poucas paredes da sala estão alvas, muito alvas.

As cortinas, tirei-as das janelas. Estavam todas como aqueles pés de meninos felizes, que brincam descalços. Os seus tecidos mostravam as sombras engorduradas do tempo de uso.

Gostei muito da casa sem cortinas. Dependendo de onde eu esteja me sinto como num navio, que ora avança no mar ora o alcança, saindo da praia. A sensação de pertencer ao mar habita em mim desde sempre, mas tirar as cortinas das janelas da sala para levá-las à lavanderia foi como abrir meus olhos sem jamais fechá-los.

Sinto muita falta da moça do quadro que exibe seu bronzeado no contraste da pele escura com o biquíni branco que veste. Tem umas coxas grossas e firmes e gargalha tão alto que sua cabeça se angula para trás como se estivesse prestes a tombar com o peso do entusiasmo da moça.

Lembro que foi o primeiro quadro que comprei para a casa. Depois encomendei uns coqueiros, para que a ela fizessem sombra. Duas ausências que me incomodam, mas cujas faltas suporto por saber que assim se protegem melhor da poeira.

Já vivo aqui há tantos anos e foram algumas as reformas que fiz, ora pequenas, ora maiores, porque a minha casa tem que acompanhar as minhas íntimas metamorfoses e mudar para acomodar as minhas novas realidades. Mas é substancialmente a mesma casa de sempre.

Acho que nunca contei um sonho que tive. Já faz alguns anos. Enquanto dormia, sonhei que o interfone tocava. Levantei e fui atendê-lo. É claro que não era o mar que falava, mas eu sabia que o interfone tocava porque ele queria entrar, e eu deixei.

Me recordo do meu espanto no sonho cheio de incredulidade quando vi aquela onda imensa de água salgada entrando pela varanda do apartamento. E eu em pé, imóvel, como quem aguarda um tiro de peito aberto. A água do mar inundou toda a casa. Saiu lavando tudo, mas não encharcava nada; nem tirava nada do lugar. A água simplesmente entrava com força na casa e nada arrastava consigo; sua força consistia em lavar a alma da casa, sem tirar as coisas do lugar.

Esse foi um sonho de liberdade. E me recordo dele muitas vezes como agora que o conto para você. Penso nessas águas do mar que consenti entrarem pela minha sala e espero que essas mesmas águas que lavaram com sal a alma da minha casa, levem embora essas palavras que escrevo com destino certo: todas elas, para você.  


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