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Opinião Alceu Valença: Tito Lívio Alceu Valença é compositor e cantor

Publicado em: 28/11/2017 07:27 Atualizado em:

Ele era a elegância em pessoa. Educado, conveniente, sensível, engraçado espirituoso. Por sua cabeça não passava concorrência, inveja, maldade, rancor e outras mazelas que habitam corações e mentes de muita gente. Compunha música, sozinho ou acompanhado de amigos leais. Cheguei a gravar uma delas em parceria com Rodolfo Aureliano. 

Arreio de Prata é uma verdadeira joia registrada no final da década de 70 no meu LP Cinco Sentidos. Lembro de Tito Lívio no Posto 9 de Ipanema cantarolando Casaco Vison, música que fala das noitadas inesquecíveis do Baixo Leblon. De repente, Tito sumiu do Bar Diagonal e voltou para Pernambuco. Daí em diante, quase não nos encontrávamos. A não ser nas quartas-feiras de cinzas, em Olinda, na saída do bloco Bicho Maluco Beleza, onde a gente batia apenas um papinho porque o “dono” do bloco tem que dar atenção a todos os malucos e convivas. O tempo passa em continuidade e eu começo a frequentar mais Olinda, cidade, como diz minha mulher, que me promove surtos criativos. Comecei a escolher os atores para interpretar os papeis, até que um dia Charles Theone aparece em minha casa, acompanhado de Tito para ensaiar o papel que iria interpretar. Passamos uma, duas vezes as falas e Tito observando, calado. Yanê chega a nós dizendo que o almoço estava na mesa e eu convidei Tito Lívio para dividir as deliciosas guloseimas e acepipes. Tito Lívio disse que tinha acordado tarde e estava sem fome. Então eu pedi para que ele, pelo menos, nos desse o prazer de sentar à mesa. Entre uma garfada e outra, olhei para a cara expressiva do amigo, sua fala grave e o sotaque do nosso Pernambuco profundo. 

Falei: - Tito pegue essa colher, encha de comida, leve à boca e depois fale com ela cheia, feito uma pessoa mal-educada. Ele me perguntou: Por quê? Respondi: - loucura de minha cabeça. Tito encheu a boca de arroz, farofa e feijão e eu lhe pedi para falar o que lhe viesse em mente. Daí ele começou um monólogo dizendo que era um calunga de caminhão. Era tudo o que eu queria! Bati a mão na mesa e lhe falei, sorrindo. - Está contratado!. Ele: - Pra quê?. Para o papel de Severino Castilho, no meu filme. Modéstia à parte, descobri o ator que ele trazia na alma. Quem viu A Luneta do Tempo ficou impressionado com aquele ator desconhecido. 

O tempo passou e eu resolvi rodar um novo filme. Escrevi um grande papel para ele, mas nem cheguei a lhe falar. Queria fazer uma surpresa. Ontem à noite, estava trabalhando o roteiro e imaginei Tito interpretando o novo personagem que criei pra ele. O cara botou pra quebrar no novo papel. Interpretação nota mil. Às 23 horas fechei o computador e senti uma tristeza tomar conta de minha alma. Cheguei a comentar com minha mulher. Hoje de manhã, soube que Tito Lívio havia falecido... A vida é cinema. Saudade.


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