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Opinião Luzilá Gonçalves Ferreira: Lugares de partir e de chegar Luzilá Gonçalves Ferreira é doutora em Letras pela Universidade de Paris VII e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 28/11/2017 07:25 Atualizado em:

Ando impressionada com a quantidade de amigos ou conhecidos, que não sabem o que fazer de suas bibliotecas: centenas, milhares até, de obras reunidas ao longo de anos, lidas e relidas, anotadas, pedaços de vidas que se construíram, formaram espíritos, sensibilidades. No Centro de Artes da Ufpe uma dessas preciosidades existe: a biblioteca que pertenceu a Joaquim Cardozo. Na qual se pode acompanhar uma trajetória de profissional competente, mas também de leitor, de poeta, com anotações do tipo, "eu também fiz isso" comentários diversos, tudo bem cuidado, catalogado. O que nem sempre acontece. Não consigo esquecer um amontoado de livros, quase uma biblioteca inteira, num pé de escadas do Centro, há uns anos. Um caminhão havia trazido o despojo: aproveitando um carregamento de areia. Alguém me disse: leve o que quiser, foi do professor X. Com a morte na alma, salvei um pequeno volume intitulado A mulher na literatura latina. Um crítico francês, acho que Sainte Beuve assinalou o modo de se livrar de livros, de parte de esposas, ciumentas, ou parentes outros, incapazes de entender o interesse do pai, do irmão, por esses pedaços de papel. Lembro também uma enorme quantidade de livros no chão de um terraço de bela residência, molhados pela chuva. Com a morte do proprietário, o problema se colocou: vender? Quem compraria essas velharias? Doar? Queimar, como na Idade Média, em outras épocas como a do nazismo ou ocasiões mais recentes. Foi a solução aconselhada por um velho senhor que, na cheia de 76, veio nos ajudar a limpar a casa, lavar e enxugar livros. Perguntou: a senhora já leu isso tudo? Falei: quase tudo, sim. E ele: então por que não joga fora?

Outro dia, em solenidade na APL, homenageamos José Condé, a quem tanto deve a memória literária brasileira. O professor e poeta Edson Tavares, nos apresentou uma análise da biblioteca daquele grande caruaruense, cuidadosa e inteligente leitura, em vista de tese de doutorado, Naquele grande acervo de preciosidades, Edson se deteve em parte nas dedicatórias, em livros doados a Condé por gente como Raquel de Queiroz, Drummond, Bandeira, um relicário de amizade, mas também um arquivo precioso sobre a vida intelectual brasileira, durante parte do século 20. Como éramos, o que deixamos em herança para o país?

Valter Hugo Mãe escreveu a respeito de bibliotecas: "deveriam ser classificadas da família dos aeroportos porque são lugares de partir e de chegar". De onde parte cada leitor quando pega num livro, que novos lugares da alma descobre, até onde o levam as paisagens vislumbradas, e como se encontra na viagem de volta? Há dois meses, colaborando com a Secretaria de Educação, a APL conseguiu reunir e doar milhares de livros a bibliotecas de escolas. E a gente pensa como Fernando Pessoa: que dava adeus ao livro escrito, imaginando a viagem possível de um leitor. (cito quase de memória, que José Paulo Cavalcanti me perdoe). Nesses lugares de partir e de chegar como quer Hugo Mãe.
 


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