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Diario Editorial: Racismo, ato de covardia

Publicado em: 28/11/2017 07:20 Atualizado em:

A democracia racial, no Brasil, nunca passou de um sofisma. Camuflava o racismo vigoroso que sempre pautou as relações entre os negros e os não negros. Hoje, a discriminação e o preconceito étnicos se tornaram ostensivos. Entre as muitas expressões de violência, ele ganha destaque por meio das agressões verbais, físicas e até justificativas para o alto índice de mortalidade de afrodescendentes no país — dos mais 61 mil homicídios ocorridos em 2016, 71% das vítimas eram negras.

No fim de semana, o país ficou estarrecido e indignado com o covarde ataque da blogueira Day MacCarthy que, por meio de vídeo no Facebook, destilou preconceito e racismo contra Titi, negra africana, 4 anos, filha adotiva do casal de artista Giovana Ewbank e Bruno Gagliasso. A agressora chamou a criança de “macaca”. Não parou aí, e disse mais: “A menina é preta, tem cabelo horrível de pico de palha e tem o nariz de preto”. Não satisfeita, pois essa não é sua primeira vítima, gabou-se de morar no Canadá e, portanto, estaria livre de punição pelas leis brasileiras. Ela está certa da impunidade pelo crime de injúria racial.

Os pais de Titi registraram queixa na Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos e esperam que a blogueira seja punida com o máximo rigor. Essa é a mesma expectativa daqueles que buscam reparação quando ofendidos por terem a pele preta. Mas a agressora está convicta de que está protegida pela impunidade. A mesma certeza tem a maioria dos racistas que vivem no Brasil. São pessoas de índole e educação rasas, que se expõem, sem cerimônia, à execração pública. Agridem não só os pretos e pardos, mais também os valores culturais e religiosos do povo negro. Por miopia e por deficiência na formação intelectual ignoram a enorme contribuição dos africanos, sequestrados e tornados escravos pelos degredados colonizadores, ao desenvolvimento econômico e à formação do tecido cultural do país.

O racista tem razão quando aposta na impunidade. A aplicação da lei é lenta e, quando as eventuais investigações chegam ao Judiciário, o crime de racismo, imprescritível e inafiançável, é transformado em injúria racial, punido, na maioria das vezes, com cestas básicas, mas jamais com a privação de liberdade. Tudo depende da interpretação do magistrado. A leniência resulta de filigranas embutidas na lei que amparam o abrandamento das sanções.

Há ainda o descaso e o pleno desinteresse do poder público em combater com rigor, como deveria, o crime de racismo. E não à toa, o Estado também comete infrações semelhantes contra os afrodescendentes e contra os mais desvalidos, quando não respeita a territorialidade dos quilombolas, dos indígenas e de outros segmentos sociais, negando-lhes os direitos assegurados pela Constituição de 1988.

Faltam rigor e determinação tanto dos legisladores quanto dos operadores da lei para dar um basta à impunidade, o que estimula a violência contra os negros, parcela majoritária da população brasileira. Mais do que isso: falta educação de qualidade que rompa com o sectarismo que divide a sociedade apenas em razão da cor da pele. E nesse caso vale lembrar, como fez Bruno Gagliasso, a frase da filósofa Ângela Davis: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”.


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