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Entrevista 'É muito necessário ter uma esquerda que não seja o PT' Em visita ao Diario de Pernambuco, Marcelo Freixo diz que não pretende ser candidato à Presidência da República e faz uma análise do cenário político do país

Por: Kauê Diniz

Por: Hugo Melo

Publicado em: 25/11/2017 11:10 Atualizado em: 27/11/2017 22:33

Ex-candidato a prefeito do Rio vai disputar Câmara Câmara Federal, em 2018, e tentar ajudar o PSol a escapar da degola da cláusula de barreira Crédito: Ricardo Fernandes/DP
Ex-candidato a prefeito do Rio vai disputar Câmara Câmara Federal, em 2018, e tentar ajudar o PSol a escapar da degola da cláusula de barreira Crédito: Ricardo Fernandes/DP

 

A campanha à Prefeitura do Rio, ano passado, quando perdeu para Marcelo Crivella, no segundo turno, por uma pequena diferença jogou os holofotes sobre a figura de Marcelo Freixo. Não que ele fosse desconhecido. Há uma década, vem sendo uma das vozes de oposição mais atuantes no estado fluminense, inclusive denunciando o que hoje a Justiça vem descortinando: um esquema criminoso, que segundo as investigações, era comandado pelo próprio governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), envolvendo as principais instituições políticas do estado. Não à toa, Freixo, 50 anos, inspirou o personagem do deputado Diogo Fraga (o ator Irandhir Santos), do filme Tropa de Elite 2, do cineasta José Padilha, que combatia os milicianos e a corrupção na Assembleia Legislativo do Rio, ou seja, nada tão atual como a realidade. Hoje, seu nome surge como um dos expoentes da esquerda nacional, mas, apesar das perguntas recorrentes se ele será candidato à Presidência da República em 2018, o parlamentar descarta. Coloca como missão chegar à Câmara Federal e salvar o PSol da degola da cláusula de barreira, que poderia sufocar de vez os recursos já reduzidos recebidos pela legenda do fundo partidário. Freixo esteve no Recife, sexta-feira, para participar de um ciclo de debates sobre segurança pública, na sede do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco, e visitou o Diario.

A sua campanha à Prefeitura do Rio, em 2016, jogou os holofotes sobre seu nome, mesmo perdendo no segundo turno para Marcelo Crivella. Isso ainda é refletido atualmente?
Na verdade, o meu nome nacionalizou muito, primeiro por uma característica do Rio. O Rio tem um efeito de caixa de ressonância. A campanha da gente (a prefeito do Rio) foi uma campanha muito forte, em um momento em que você estava vivendo o maior auge da crise da democracia. Enfim, muitos protestos contra o governo do PT, que, de alguma maneira, acabaram virando um protesto contra toda a esquerda. Mesmo quem não tinha nada a ver com o governo do PT acabou pagando um pouco dessa conta. O PSol nunca fez parte do governo do PT, não pode ser responsabilizado, a gente fazia uma oposição (que estava) à esquerda, mas (o PT) acabou criando uma imagem ruim para a esquerda como um todo. E mesmo nesse contexto, a gente foi para o segundo turno. Foram pouquíssimas as candidaturas de esquerda que foram ao segundo turno nessa última eleição municipal. Isso acabou ajudando a nacionalizar um pouco mais o nome, não diluiu em meio às outras candidaturas e, além disso, tem a característica do Rio de Janeiro. Mas o fato de nacionalizar o nome a gente pode usar bem isso para fortalecer o trabalho de base, programas, as candidaturas locais, que é o que eu tenho feito. Já fui a muitos lugares do Brasil fazendo os debates por onde a gente pode ajudar. Aqui, o debate da segurança pública ou a experiência que a gente viveu lá (no Rio de Janeiro) de um programa muito participativo, debates da cidade, enfim, mas isso não tem a ver com candidatura à Presidência.

Não há possibilidade alguma de ser candidato à Presidência da República?
Eu não sou candidato a presidente. Teremos candidato. Eu acho que o PSol tem que apresentar um nome. A gente tem debatido aí o nome de (Guilherme) Boulos (líder do MTST), por exemplo. A gente tem debatido o “Vamos!” (uma plataforma que vem discutindo um projeto para o país e é liderado pela Frente Povo Sem Medo), que é uma forma de você pensar um projeto do Brasil, o que é que a esquerda pensa para o Brasil. Fazendo a disputa também da hegemonia da esquerda pós-Lula, não estou dizendo que já existe um pós-Lula, não estou antecipando o fim de ninguém, mas mais cedo ou mais tarde, vai haver um pós-Lula, é natural e o PSol vai ter que cumprir um papel redefinindo qual a esquerda que vai existir. Não podemos repetir os erros que o PT cometeu.

Qual o caminho de Freixo então para 2018?
Serei candidato a deputado federal. É o projeto. Até pela lei da cláusula de barreiras, a gente tem que eleger dez deputados para superar o limite. No Rio, é onde o PSol tem mais votos, e eu estou animado aqui (em Pernambuco) que a gente faça deputados estaduais e federais. A conjuntura está muito favorável. Essa crise toda aí, as pessoas querendo algo novo na política. Eu acho que tem mais chances. Hoje somos seis deputados federais. Dobrar tem chance, é provável. Estadual é impossível calcular, é a realidade de cada estado.

Freixo inspirou personagem de Tropa de Elite 2, o deputado Diogo Fraga (protagonizado pelo ator Irandhir Santos) Crédito: Ricardo Fernandes/DP
Freixo inspirou personagem de Tropa de Elite 2, o deputado Diogo Fraga (protagonizado pelo ator Irandhir Santos) Crédito: Ricardo Fernandes/DP
O senhor veio ao Recife participar de um debate sobre segurança pública. O que o PSol pode contribuir nessa discussão?
Na verdade, eu venho estudando e debatendo segurança pública há 25 anos. E eu acho que essa é a primeira coisa importante. Isso eu digo na presença dos policiais aqui (dois representantes do Sinpol) por quem tenho muita admiração. Eu aceitei o convite (para vir ao Recife) muito por conta deles. Que são policiais que eu admiro muitom pelo trabalho e percepção sobre segurança pública. Eles estão na contramão de um senso comum que eu acho muito importante a gente apoiar. Primeiro, a ideia de que só fala de segurança pública quem é policial, quem fala de segurança pública é qualquer cidadão. Você quer segurança pública e tem direito à segurança pública. Fato é que a gente errou muito sobre a segurança pública no Brasil. Até hoje, no Rio de Janeiro, a gente debate muito a segurança pública e a gente errou muito, por exemplo em relação às UPPs (Unidades de Pacificação Pública). Eu participei de muitos debates, mas o governo nunca aceitou as nossas críticas. Tanto que acabou. Hoje é um projeto falido, como tudo que o PMDB representa no Rio de Janeiro. E não é uma crítica, é um fato, tanto que boa parte do PMDB-RJ está presa, atrás das grades. Não é uma fala de oposição, é uma leitura mínima de realidade. O PMDB do Rio de Janeiro hoje responde por organização criminosa, isso quem diz é o Ministério Público Federal. O projeto das UPPs, que tem um conceito importante, que é essa polícia de proximidade, de uma polícia mais próxima do cidadão, isso a gente sempre apoiou. Mas não foi isso que aconteceu. Na verdade, pegou-se uma polícia que tem uma mentalidade construída para guerra, com muita dificuldade de pensar a segurança pública de outra maneira, porque ela vem há anos obedecendo a uma lógica militarizada, é uma polícia refém disso, o que não quer dizer que todos os policiais pensem assim, mas ela é muito refém da truculência. Hoje a gente tem 120 policiais mortos no Rio de Janeiro só neste ano. Então, a gente tem a polícia que mais mata e mais morre no mundo. São três pessoas mortas pela polícia por dia e um policial morto a cada dois dias. Então esse é o resultado de uma lógica de segurança pública construída nos últimos anos. O projeto das UPPs deu errado porque, na verdade, era um projeto de cidades e não um projeto de segurança pública. Se você pegar as áreas de atuação das UPPs, elas não eram áreas que respondiam a qualquer mapa de violência. Elas eram áreas responsáveis a projetos de cidades muito gentrificados, áreas de supereventos. Agora 100% de todas as favelas da zona sul - e para quem não conhece a zona sul é a área mais nobre do Rio de Janeiro - tinham UPP. Já a Baixada Fluminense não tinha nenhuma. Então, era um projeto de cidade, e não de segurança. (Inaudível). Não houve valorização de policial, não houve nova formação de policial, não houve um controle sobre essa polícia, até hoje você não tem ouvidoria, nem investimento nesse policial, qualitativo e quantitativo. Você não tem controle, você não tem nesses lugares onde a polícia está qualquer mediação de conflito que não seja a presença da polícia. Quer dizer, o Estado continua dizendo que nas áreas pobres só entra com a polícia, mesmo que seja UPP. Mas ele só entra com a polícia. O policial não tem que resolver problemas que não fazem parte do escopo do policial. Então, numa UPP, o policial é responsável pelo lixo, por conflito familiar... ele não está preparado para isso. Você não resolve o problema do tráfico de armas e munições, que aí são outras medidas para muito além da polícia... enfim. Evidente que o projeto das UPPs hoje é uma marca de fantasia. Acho que a gente está construindo isso. Não sou eu quem vai dizer o que o PSol pensa sobre isso. Acho que tem profissionais que eu admiro muito e acredito, daqui de Pernambuco e do Recife, que pensam segurança pública, que agem na segurança pública. Mas tem alguns pontos importantes. Qualquer lugar do mundo, quando você melhorou os índices de segurança, e viu esses avanços acontecerem, algumas coisas básicas aconteceram. Entre eles: transparência, ou seja você tem projeto de segurança debatido num conjunto maior da sociedade. Você tem investimento na qualidade desse policial. Qualitativo e quantitativo. Você não pode ter o mesmo número de policiais em Pernambuco que você tinha há 10 anos. E você não pode ter policial sem formação adequada para um tempo da democracia. Nesse sentido, a desmilitarização da Polícia Militar é fundamental. É importante que você tenha uma polícia de ciclo completo e formação única. Isso é uma refundação da lógica de segurança. Olha as taxas de homícidios no Nordeste hoje. Vocês nunca tiveram essas taxas de homicídios que vocês estão tendo agora. As principais capitais (de homícidios) são no Norte e Nordeste. Vocês substituíram uma realidade que era do Sudeste. Veio para cá, deslocou. Isso tem uma ligação direta com desigualdade social. Você tem uma evasão escolar gigantesca, não tem uma política de juventude. Você vê 60 mil homicídios, dos quais 70% deles têm como vítimas jovens negros. Então, você tem um problema de modelo de cidade, democracia, política de juventude e isso tem que estar no debate da segurança pública. Agora, há uma questão social que tem que ser trabalhada: quando você discute, numa cidade, moradia e transporte, você está discutindo segurança pública, já que as pessoas não conseguem se deslocar por estar morando numa cidade violenta. Consequentemente, está limitando o acesso a empregos. Hoje, o modelo que a gente tem é produtivo. Você tem oito famílias com o equivalente à metade da riqueza do mundo. Você tem hoje um planeta funcionando para um terço dele.

O PSol é um partido que tem um discurso para as camadas menos favorecidas da população, porém não consegue conquistar, de um modo geral, o voto desse segmento.
É importante não só responder, mas que o pessoal pense sobre isso. Primeiro: a nossa votação no Rio conseguiu quebrar um pouco isso, mas acho que isso ainda não é uma realidade nacional. Se pegar o meu mapa eleitoral do segundo turno, de cada dez votos, eu tive cinco na Zona Norte, três na Zona Oeste e dois na Sul. Isso é o mapa eleitoral. Isso tem a ver com todo o trabalho de base que a gente fez lá, mas isso não muda a caracterização que você faz, que é correta. O PSol consegue hoje ter mais inserção na comunidade acadêmica, no meio dos sindicatos, dos formadores de opinião, do que nos setores populares, por mais que a nossa proposta dialogue mais com essa realidade popular. É verdade. Aí entram vários elementos. O PT, quando surge, vem com três bases: os sindicatos eram muito mais fortes do que você tem hoje; as universidades tinham muito mais inserção social; e a Teologia da Libertação. Esse era o tripé do PT. Se você for pensar hoje num partido de esquerda, para surgir... Pensa hoje esse tripé: você não tem mais os sindicatos com a força que você tinha (no passado), até porque você tem um desemprego estrutural, há exceções. Você não tem as universidades dialogando e estão muito precarizadas. E a Teologia da Libertação é uma memória. Você tem hoje uma base evangélica, popular, muito forte. Aí eu acho que a gente tem que disputar essa base evangélica. Aí é uma coisa que o PSol precisa fazer, que é difícil, mas necessário. Eu fiz uma reunião na Cidade de Deus (comunidade do Rio). Eu estou investindo muito nisso: chamar setores progressistas evangélicos para construir um debate popular pela esquerda. Se a gente não fizer isso, a gente está frito. Não adianta você ter uma proposta popular, socialista, que não chega nas bases. O PT fez as bases nos sindicatos, nas universidades. Essa realidade mudou. Ou a gente entende o que é o século 21 ou a gente vai ficar fazendo um discurso que não tem adesão. Eu não tenho dúvidas que o PSol é um partido necessário hoje. Quando você olha a atuação da nossa bancada, das nossas bases sociais, nos sindicatos, nos movimentos sociais... É muito necessário ter uma esquerda que não seja o PT. Agora, quem tem que achar essa necessidade real é a população. Não sou eu.

O maior case de sucesso de campanha com crowdfunding é o seu - arrecadou mais de R$ 1 milhão. É o futuro para os partidos que não têm a mesma estrutura das grandes legendas?
Eu acho que é fundamental, temos que saber fazer a campanha com o que estamos propondo. Criamos uma campanha muito participativa. Separamos os eixos e chamamos a sociedade para debater educação, cultura, mobilidade... Quando eu vou para a plenária defender esse modelo de cidade, tem um monte de gente que se sente representada. Então a gente começa a quebrar esse modelo de representatividade que é falido. Ao mesmo tempo, a gente sabia que seria o fim do financiamento privado, o que foi um avanço empresa não pode bancar campanha nenhuma. Empresa não vota, faz investimento. Se ela apoia a sua bandeira é porque quer alguma coisa do seu mandato, não pode. Empresa não tem que pagar nada. A gente fez, organizou tudo feito muito por jovens, eles organizaram a nossa plataforma, e foi um sucesso. A gente conseguiu mobilizar o Brasil inteiro, inclusive recebendo doações de Pernambuco, e conseguimos bater todos os recordes e financiar a campanha. Acho que essas coisas estão casadas porque consegue um envolvimento com aqueles que financiam uma campanha.


Você disputou uma eleição contra Marcelo Crivella, que tem forte presença no eleitorado evangélico e se tornou prefeito do Rio. Há alguma semelhança com Jair Bolsonaro, que vai concorrer à Presidência da República?

Freixo veio ao Diario acompanhado de lideranças filiadas ao PSol de Pernambuco. Prioridade do partido é aumentar suas bancadas federal e estadual Crédito: Ricardo Fernandes/DP
Freixo veio ao Diario acompanhado de lideranças filiadas ao PSol de Pernambuco. Prioridade do partido é aumentar suas bancadas federal e estadual Crédito: Ricardo Fernandes/DP

O Bolsonaro acho que é outra história. O Bolsonaro tem o diálogo do medo, e ele tem o diálogo da negação do política. O Bolsonaro é muito fruto do momento. É um cenário muito conjuntural. Eu não sei quanto tempo vai durar essa conjuntura, mas ele é muito conjuntural. Porque ele nega a política para fazer política. Ele se apoia totalmente no medo, na ideia da falência, da fragilidade. Ele não propõe algo. Ele é muito mais um sentimento. Não tenho a menor dúvida de que ele não dura muito tempo na história, num projeto como esse. Não se consolida num partido. Eu torço muito para que eu esteja certo. Ele é de uma direita muito cristalizada, uma ultradireita, que se você olhar não tem memória no Brasil. Você teve o Integralismo na década de 1930, mas você tem na ditadura alguma coisa, mas é diferente... Por quê? Porque você se baseia numa política do medo. É diferente do Crivella, que é uma vertente de construção de base religiosa, de uma periferia cada vez mais evangélica. Então acho que são duas coisas que eu não analiso da mesma maneira. Faço análises diferentes. Você tem que separar um pouco as coisas. Ele (Bolsonaro) vai conforme a onda. Isso não tende a durar muito.

O cenário eleitoral do próximo ano do Rio, como vai ficar diante do PMDB afundado?
É muito difícil o cálculo do que vai acontecer com o Rio de Janeiro. Eu não sei o que vai acontecer com o Rio na semana que vem. Quanto mais ano que vem. Cada dia é uma novidade. Você tem um vazio de poder no Rio. Pezão é um ex-governador em exercício, está esperando ser preso, provavelmente no fim do ano. É uma coisa impressionante: você tem os dois últimos ex-governadores, você tem o presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), o líder do governo, todo o Tribunal de Contas... É um vazio que você nunca viveu isso na história do Rio de Janeiro. Então, é difícil prever qualquer coisa porque você não tem experiência histórica para se basear e fazer qualquer análise. Agora, há um sentimento. A sessão extra da Alerj, que soltou os deputados foi na sexta-feira... No sábado, eu estava conversando com o meu enteado e fui até a padaria. Fui parado várias vezes. O cara fala: o deputado tal votou para soltar os outros safados... Impressionante. Descortinou a política. Todo mundo está falando de política no Rio de Janeiro. Há uma opinião pública popular. Isso pode gerar algo positivo. É minha esperança. Não tem um lugar que eu não pare que o assunto de qualquer um não seja esse. Todo mundo sabe o que está dizendo. A pessoa fala o nome do deputado, sabe em quem votou. Ou seja, as pessoas leram, as pessoas foram buscar aquela informação.

Você imaginava que essa situação do Rio fosse tão profunda?
Não. Eu denuncio isso há muitos anos. Eu tenho uma fala minha. Fiz um pronunciamento ontem (quinta) na Assembleia Legislativa onde eu li todas as denúncias que eu fiz de 2010 para cá. Se você pegar os assuntos, são todos aí da Lava-Jato. Delta, Adriana Ancelmo... eu denunciei todos esses esquemas desde 2010. O Ministério Público arquivou todos. Esse buraco não é só do Executivo, não. Esse buraco é um buraco que tem muita gente responsável por isso, lá no Rio. Então, tem muita gente que ajudou na cobertura desse bolo. O PMDB não botou a cereja sozinho, não. Tem mais gente. Tem mais coisa. Honestamente, há um ano atrás, se você me falasse: o (Sérgio) Cabral vai estar preso, o Picciani preso, fulano preso... eu acreditaria? Não. Desejaria, mas não acreditaria.

Mas o que foi que mudou nesse cenário para que essa realidade que a gente está vendo hoje pudesse acontecer?
Primeiro, essa investigação que está acontecendo no Rio de Janeiro é casada com uma investigação que está acontecendo no resto do país. Acho que tem toda uma conjuntura nacional de crise, impeachment, que tem desdobramentos.. Não é algo exclusivo do Rio. Me perguntaram se eu achava que era ruim para o Brasil ter esse conflito entre os poderes. E eu disse que acho ruim quando tem acordo entre os poderes. O acordo entre os poderes me assusta muito mais do que os conflitos. Porque o que a gente viveu no Rio de Janeiro foi um acordo entre os poderes nos últimos anos que deu no que deu. Ter alguns conflitos entre os poderes eu acho muito bom. Agora, eu acho que, evidentemente, você tem que ter a garantia legal de direito de defesa. Eu fico muito preocupado quando o Judiciário é movido pela opinião pública. Isso não é bom, em nenhum lugar do mundo. Agora, que é importante os grandes empresários serem investigados, serem presos, e de alguma maneira não estarem acima da lei, é um grande avanço.

 

O PSol tem a pretensão de chegar onde o PT chegou?
Não tem que ter medo de poder. Existem métodos, qualquer um que tem partido político é para disputar poder, apresentar os nomes, trazer novos nomes para politica... Meu grande empenho no último ano foi trazer gente dos movimentos sociais pra ser candidato. Temos que buscar nomes porque não adianta ficar reclamando que o Poder Legislativo é pouco representativo e pronto. E o que é que a gente está apresentando? O que a gente está mudando? O mundo evangélico é conservador. Tem evangélico que tem ideias progressistas. Vamo pegar e colocar como candidato do PSol. Policiais são todos de direita? Eu acho que não, então se tem um policial que tem ideias progressistas vamos colocar como candidato do PSol. Então essa realidade tem que ser trazida para um disputa de opinião. É isso a ideia de um partido político. É um caminho de base, de programa, que é um caminho diferente que o PT tomou depois de 2002. Eu tenho um grande respeito pela história do PT, talvez o meu respeito pelo PT seja maior que o próprio PT tem pela história dele, porque se tivesse mais respeito não tinha feito o que fez nos últimos tempos. Eu também não generalizo, não acho que são todos iguais ali. Respeito muito alguns quadros que ainda estão dentro do PT, pelo trabalho de base que foi feito ali, que tem uma importância grande e nisso a gente tem que aprender. Mas acho que a gente vive uma realidade hoje que não dá para fazer alianças em nome de um poder a qualquer custo, que te leve a não enxergar quem tem que ser enfrentado.

Dá para o PSol chegar no poder, assim como o PT, e manter o perfil ideológico?
Se você muda a sua ideologia, você deixa de ser o que você é. Todas as concessões que dizemos que faríamos se chegassemos no segundo turno foram feitas. Nós não ganhamos por elementos que não dava para ganhar mesmo, mas se a eleição fosse hoje a gente disputaria em outro patamar, porque a gente disputou em condições muito desfavoráveis na última eleição. A gente tinha o melhor programa. Apesar de ser de esquerda, conseguimos 42% dos votos em uma condição extremamente adversa. Acho que a gente tem que falar em gestão, acho que a gente tem que chamar os empresários para fazer um debate, de democracia. Eu chamei no Rio de janeiro. Eu quero chamar o setor produtivo para debater uma sociedade e o mercado, que cada vez é menos produtivo. Cada vez mais a lógica dos bancos, a lógica do lucro e o modelo de crescimento é ruim para o próprio empresariado. E eu chamei os donos de bares e restaurantes para pensar uma política de emprego para a juventude de áreas determinadas do Rio de Janeiro e eles vieram comigo. Agora é um projeto socialista. Claro que não estamos em revolução. Mas acho que a gente tem que chamar uma fatia maior da sociedade para participar de forma mais democrática, de forma mais justa, que seja de fato um programa, que junte as pessoas. Eu acho que esse é o caminho que é a sociedade que a gente está querendo, que a sociedade está pedindo, inclusive. Muito mais do que fazer determinadas alianças que eu não não vou explicar e não cumprir coisas que eu deveria cumprir, que é o que eu acho que foi por onde o PT caminhou e deu no que deu.

Quem será o candidato do PSol à Presidência da República?
A gente tem o Boulos (Guilherme), a Luciana (Genro), que disputou a última eleição com todo respeito da gente. Se colocou com uma possibilidade e tem muitas outras opções. A gente vai amadurecer os programas e os melhores projetos para isso.

E um prognóstico para 2018?
Eu acho que a eleição de Presidência, tudo indica, é uma eleição de dois turnos. Mas é o que eu disse: em um ano não dá para dizer. Eu espero que o segundo turno não seja entre a direita e a extrema direita. Eu espero que tenha alguma força progressista no segundo turno. E o PSol vai apoiar a força progressista que estiver no segundo turno, ainda mais se for contra a extrema direita. E vamos apoiar com toda tranquilidade, apoiar com toda a responsabilidade social e eleitoral. Não é para fazer parte do governo porque a gente tem uma construção a ser feita.



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