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Opinião Samuel Albuquerque: A botija de Orlando Cavalcanti ( I ) Samuel Albuquerque é presidente do IHGSE e professor da UFS

Publicado em: 22/11/2017 07:05 Atualizado em:

No prumo de baraúnas que, antes, avistava ao longe, este trabalho representa um “ponto fora da curva” em minha produção historiográfica.

Desde o meu primeiro livro, o Memórias de dona Sinhá, publicado em 2005, venho estudando o delicado universo das mulheres da aristocracia brasileira do século XIX. Não tenciono abandonar minhas adoráveis “defuntas”. Mas, o truculento universo dos coronéis pernambucanos e alagoanos do século XIX passou também a me interessar. Nesse sentido, permitam-me, num misto de “escrita de si e escrita da história”, tratar da experiência que tive com o Fundo Orlando Cavalcanti, no arquivo do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano.

Sou professor de História do Brasil e História de Sergipe no Campus de Laranjeiras da Universidade Federal de Sergipe. Atuo, também, no Programa de Pós-Graduação em História da mesma universidade e no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, como seu presidente. Todavia, apesar de viver em Sergipe desde a infância, sou pernambucano, e minha família paterna está estabelecida nos sertões de Pernambuco (atuais municípios de Águas Belas, Iati e Bom Conselho) desde idos do século XVIII, quando meu tetravô Lourenço Bezerra Cavalcante de Albuquerque, o conhecido coronel Lourenço Bezerra das Antas, estabeleceu-se como proprietário rural na ribeira do Rio Ipanema.

Fato é que nunca perdi o vínculo com Pernambuco e, sendo o único historiador entre os meus familiares paternos, tornei-me, involuntariamente, uma espécie de catalizador da memória familiar. Há anos, depois das festas de Natal e Ano Bom, voltava para Aracaju com caixinhas de “coisas velhas” que tios, tias e parentes confiavam-me, acreditando que estariam melhor guardadas comigo. Eram livros de assento, traslados de inventários e testamentos, fotografias, retratos a óleo etc. Quando me sobrava algum tempo, passava a organizar e estudar o material que se avolumava a cada ano, visando à produção de um pequeno livro para consumo doméstico.

Os traslados de inventários e testamentos, todavia, inquietavam-me. Sabia que estavam incompletos e pretendia cotejá-los com os originais, para melhor reconstituir a trajetória das pessoas e dos bens da família. Faltava-me tempo para voltar ao Sertão pernambucano e garimpar a documentação original nos cartórios de suas antigas vilas e cidades. Mas, com a roda da fortuna girando ao meu favor, um colega do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, o secretário Reinaldo Carneiro Leão, sugeriu-me, em uma conversa telefônica, a leitura dos três volumes da obra Gente de Pernambuco, do genealogista Orlando Cavalcanti, publicadas entre 1994 e 2000, por aquele Instituto e pela Editora da UFPE. Adquiri-os com ajuda do amigo e, dias depois, já os tinha em mãos.

Aparentemente, eu tinha a faca e o queijo, pois Orlando dava conta da trajetória da minha família desde o meu bisavô paterno, José Florentino de Albuquerque, até o meu pentavô Lourenço Bezerra Cavalcante (coronel Lourenço Bezerra das Panelas), anotando, inclusive, a localização dos inventários e testamentos que compulsara. Não tardou, porém, para que eu desse com os burros n’água!

Com o roteiro extraído de sua obra, visitei a maior parte dos arquivos cartoriais indicados por Orlando Cavalcanti. Além de muita má vontade e do lamentável estado daqueles acervos, não encontrei uma única folha perdida de inventário ou testamento que me interessasse. Restava-me acreditar que tais documentos não teriam sobrevivido à incúria do tempo e dos homens. Mas, por que justamente os documentos referidos e localizados criteriosamente por Orlando haviam desaparecido daqueles acervos? Só obtive resposta para o meu questionamento muito recentemente, quando, em julho de 2016, fui pessoalmente ao Instituto Pernambucano, para conhecer o fundo Orlando Cavalcanti.

Preciso dizer que o volumoso fundo arquivístico não está plenamente organizado, apesar dos notáveis esforços da equipe do Instituto. Não há por exemplo, um instrumento de pesquisa concluído para facilitar a investigação do pesquisador. Todavia, seja por coincidência ou por ajuda dos espectros que me acompanham (já que os estudo), logo na primeira das dezenas de caixas-arquivo que vasculhei, deparei-me com o robusto inventário do meu trisavô Apolinário Florentino de Albuquerque Maranhão, o senhor do Quati de Dentro, coronel da Guarda Nacional e prefeito da Comarca de Garanhuns. Era um dos principais documentos que eu buscava e que, sem sucesso, tentara localizar nos cartórios do interior de Pernambuco. Dali por diante, encontrei a maioria dos inventários e testamentos dos meus ancestrais diretos, até o meu pentavô.
 


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