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José Paulo Cavalcanti Filho: Las Vegas e Janaúba José Paulo Cavalcanti Filho é jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 13/10/2017 07:22 Atualizado em: 13/10/2017 07:24

Segundo Eça de Queiroz (Últimas Páginas), “Portugal é um país traduzido do francês”. Adaptando a frase, para os dias de hoje, se poderia dizer que o Brasil é traduzido do inglês. Mais propriamente, daquele falado nos Estados Unidos. Como agora se vê nessas duas tragédias. A tentação é dizer serem diferentes. Nas aparências. A começar por onde tudo se deu. A grande Las Vegas, pujante centro de turismo e jogatina, tem 1,9 milhões de habitantes. Enquanto a pequena Janaúba, sobrevivendo basicamente do Bolsa Família, somente 67 mil.

Nos Estados Unidos, foram 59 mortos. Por enquanto. Honrando a tradição de chacinas grandiosas, bem comuns por lá. E o atirador não conhecia ninguém. Enquanto, em Minas Gerais, foram 8 crianças com só 4 anos. Mais outra, com 5. Além de uma professora, 43. Gente amiga, com quem o vigia conversava todos os dias. Difícil entender. Lá, os tiros vieram do luxuoso Resort Mandalay Bay. Já por aqui, tudo se deu no Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente. Como se esse nome definisse as vítimas no próprio local de suas mortes, Gente Inocente.

O americano usou 19 espingardas adaptadas para funcionar como metralhadoras. Enquanto o mineiro, pobre de doer, escolheu álcool. Barato. Comprado num posto de gasolina. Mais conhecido por “Dão do Picolé”, gêmeo que como tantos outros tem um irmão chamado Cosme, Damião Soares dos Santos marca, na própria carteira de identidade, o destino de suas vítimas. Que hoje são dos Santos, como ele, vagando por céus imprecisos e distantes. Semelhantes, os dois algozes, só em serem enterrados sem amigos ou familiares que os velassem. Ou chorassem por eles. Na tristeza da solidão derradeira que os espera.

Ocorre que, no fundo, são duas tragédias iguais. A tragédia da natureza humana. Cabendo só especular sobre as razões que levam pessoas comuns a praticar gestos extremos. Em tentativa de explicação, imagino que, vivendo vidas comuns, em algum momento, já próximo do fim, os autores não vissem mais sentido nas suas trajetórias. Como se quisessem marcar, com um ato definitivo, suas vidas. Como se quisessem dizer  ao mundo, utilizando título da autobiografia de Paulo Neruda, “Confesso que vivi”. Mesmo sabendo que não receberão homenagens, pelo que fizeram. Importa pouco. Vale é que serão lembrados. Bem diferentes de tantos, à sua volta, com vidas parecidas. Quase vegetais. Sem que fique marcado um traço, sequer, de suas passagens terrenas. Sem que ninguém se lembre, depois, das suas existências.

O Esteves, da Tabacaria, era um vizinho de Fernando Pessoa. Joaquim Esteves. Mais um, como tantos, que vivem à nossa volta e depois desaparecem. Pessoa até diz isso. Para ele, era só o “Esteves sem metafísica”. A ironia é que esse Esteves foi o declarante no atestado de óbito do poeta. Seja como for, Esteves será lembrado, até a eternidade, por aqueles versos. E tantos outros, não. É como se, em casos assim, o homem se rebelasse. Guerra Junqueiro, em A Velhice do Padre Eterno, põe Judas enfrentando Jesus na cruz: “E vou provar-te agora,/ Oh pobre Cristo nu,/ Que sou maior do que Deus/ Mais justo do que tu/ Pois um justo que é justo não perdoa”. Judas, fazendo o que fez, entrou para a história. Da pior maneira. Traindo um amigo. Mas entrou.

Os dois assassinos de agora, em síntese, talvez tenham querido apenas marcar suas existências com um ato extremo. Não há como ter certeza. Fora disso, sobra só o imponderável. Que se revela na falta de explicação de por que homens se realizam, numa espécie de catarse, ao matar inocentes. Na razão de gestos assim, desprovidos de qualquer sentido. No suicídio que praticaram, depois do êxtase de tirar a vida de tantas pessoas. Tudo confirmando velha sentença do Corão, “Ninguém pode saber o que nos reserva o destino”.


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