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Opinião Francisco Bandeira: Obesidade e câncer: é hora de agir! Francisco Bandeira é professor Associado e Livre-Docente. Regente da Disciplina de Endocrinologia da Faculdade de Ciências Médicas da UPE. Chefe da Divisão de Endocrinologia e Diabetes do Hospital Agamenon Magalhães. Pesquisador do CNPq

Publicado em: 11/10/2017 07:14 Atualizado em:

A obesidade é uma doença crônica, recidivante, multifatorial, que resulta em aumento da gordura corporal, com disfunção do tecido adiposo e consequências metabólicas, biomecânicas e psicossociais. Dentre os fatores que levam à obesidade, destacamos o estilo de vida adverso com o consumo excessivo de açúcares e calorias, o qual, dentre outras consequências, induz a modificações na microbiota (flora) intestinal, levando ao predomínio de bactérias que digerem facilmente os carboidratos (amido) e produzem substâncias inflamatórias, contribuindo de forma marcante para o desenvolvimento de obesidade, resistência à insulina e, consequentemente, doenças como hipertensão arterial, diabetes, dislipidemias, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, demência e vários tipos de câncer.

O processo inflamatório crônico que se estabelece com a obesidade, envolve o tecido adiposo por si só, principalmente a gordura visceral ou ectópica, partes do cérebro e o endotélio vascular (a camada mais interna das artérias). Neste cenário é que vem a predisposição ao desenvolvimento de neoplasias malignas. Dados recentes vindos do Reino Unido revelam que 40% dos casos de câncer têm a obesidade como fator causal mais importante, e que, até 2035 cerca de 700 mil novos casos de câncer serão atribuídos à obesidade.

A lista dos tipos de câncer associados à obesidade é longa, mas destacamos bexiga, cérebro, mama, útero, esôfago, vesícula biliar, cabeça e pescoço, fígado, pâncreas, próstata, estômago, leucemias e mieloma múltiplo. Através das pesquisas do meu grupo, entendemos melhor a ocorrência de obesidade e diabetes em nossa população. Por exemplo: dos homens acima de 60 anos, atendidos no programa de saúde da família, a maioria apresenta obesidade central, hipertensão arterial, elevação dos triglicérides e redução do colesterol HDL no sangue (marcadores metabólicos de resistência à insulina) e intolerância à glicose (pré-diabetes e diabetes).

Ao mesmo tempo, as mulheres com diabetes, também apresentam, na sua maioria, obesidade central, dislipidemia e hipertensão, caracterizando a síndrome metabólica e, consequentemente, a autoinflamação. Essas alterações metabólicas em conjunto são encontradas em indivíduos jovens que apresentam obesidade classe III ou mais (índice de massa corporal acima de 35 kg/m2). Portanto a vulnerabilidade da nossa população, no que tange às doenças relacionadas à obesidade, é assustadora. Em sua maioria, ao invés de praticarem, por exemplo, a dieta do “mediterrâneo” (hábitos dietéticos que comprovadamente reduzem o risco de várias doenças, inclusive obesidade, diabetes tipo 2 e câncer), inadvertidamente praticam a dieta do “subterrâneo”.

A AACE (American Association of Clinical Endocrinologists) e seu capítulo brasileiro (AACE-Brazil), o qual tenho a honra de presidir, está comprometida prioritariamente com o combate à obesidade e suas complicações, e durante o 2º Congresso da AACE-Brazil, a ser realizado no Mar Hotel, no Recife, nos dias 3 e 4 de novembro próximo, a obesidade terá destaque, com a presença de especialistas norte-americanos e brasileiros.

Portanto, a obesidade, como uma forma grave de má nutrição, necessita mais atenção do que a maioria dos países está preparada para dar. A educação intensa e contínua de crianças e adultos a respeito de hábitos dietéticos saudáveis e da prática regular de exercícios físicos deve ser o primeiro passo!


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