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Opinião Cláudio Lacerda: Tributo a Alessandra Cláudio Lacerda é cirurgião e professor da UPE e da Uninassau

Publicado em: 11/08/2017 07:07 Atualizado em:

Engana-se redondamente quem imagina ser “um mar de rosas” a vida de um cirurgião transplantador de fígado.

Depois de uma longa série de resultados gratificantes e de final feliz, que nos enchem de alegria existencial e até de certa vaidade, inesperadamente sobrevém um insucesso, um óbito, com efeito devastador para toda a equipe. Quase sempre com sabor de derrota, de frustração e, pior, de culpa. Culpa pela sensação de que, em algum momento, falhamos. Em algum ponto, cometemos algum erro.

Piora a situação o reconhecimento de que para os familiares do paciente falecido, nada importa se temos tido 85% de sucesso em cirurgia tão complexa, em doentes tão graves. Para eles, operamos apenas um, e este morreu. De modo que, para essa família, temos zero por cento de sucesso e, portanto, 100% de mortalidade.

Resta-nos, porém, o consolo e a paz interior pela certeza de que não nos acovardamos. Tentamos. E mais: pela convicção de que os erros, se houve, decorreram das limitações da própria medicina ou da nossa condição humana. Jamais de termos agido com imprudência, negligência ou imperícia. Nunca por falta de empenho.

Alessandra tinha apenas 33 anos e precisava de um transplante de fígado. Alimentava planos para uma longa vida, com saúde. Surgiu um doador compatível e aparentemente muito bom. Na mesa da sala de cirurgias, antes de ser anestesiada, exigiu a minha presença. Queria apertar minha mão para se sentir mais segura. Confiava totalmente em mim e na minha equipe. Senti que sua mão estava fria, certamente de medo, mas, quiçá, também de pressentimento pelo que viria. Aquilo me tocou, e tive um mau presságio. Mas tal sensação tinha que passar. Passou e fui em frente.

Alessandra foi anestesiada e operada, mas não acordou. Por motivos totalmente desconhecidos para mim, para toda a minha equipe e talvez até para a própria ciência, o seu transplante não deu certo. O fígado “novo” simplesmente não funcionou. Nós a retransplantamos, vinte e quatro horas depois, em situação dramática, mas o segundo órgão tampouco funcionou e, algumas horas após, ela morreu. Com apenas 33 anos de idade.

Aquele aperto de mão e aquele olhar enigmático, de confiança, de entrega, mas também, agora percebo, de despedida, persistirão na minha memória por muito tempo. Talvez para sempre.

Só o que me resta fazer é pedir perdão. A ela e a seus familiares. E rogar a Deus que cuide bem dela. Porque nós não conseguimos. Tudo o que tínhamos a fazer, nós o fizemos. Mas, “tudo nem sempre é o bastante”.

Perdão, Alessandra!


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