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Diario Opinião: remédios para a alma

Publicado em: 21/04/2017 08:16 Atualizado em:

Por Manoel Bione
Psiquiatra, psicoterapeuta e jornalista

Você já deve ter notado que os objetos mais levados aos velórios e enterros são flores, velas e caixas de tranquilizantes. Nos tempos atuais é proibido chorar. Não é à toa que o medicamento mais vendido no Brasil seja um psicotrópico. Ele tem o nome de Rivotril, denominação comercial do clonazepam, um tranquilizante do grupo dos benzodiazepínicos.
Mas não é só ele. O mercado farmacêutico oferece muitos outros. Como os Somalium, os Anafranil, os Dienpax e os Prozac da vida. Curiosamente, este último, quando surgiu, em 1986, foi batizado de “a pílula da felicidade”. Segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), só no ano de 2012, os brasileiros compraram 42,3 milhões de caixas de antidepressivos. Um mercado que cresceu 16,3% em relação a 2011 e movimentou 1,85 bilhão de reais. Para Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), órgão da Anvisa, o consumo desses medicamentos pulou, no período de 1999 a 2015, 161%.
Com certa frequência eu sou abordado por pessoas que me pedem receita de um medicamento que ajude a mudar o comportamento de algum familiar. Seja uma filha caladona, seja um marido briguento ou uma mãe depressiva. Peço para conversar, se possível, com essa pessoa. E muitas vezes não bate a descrição do parente incomodado. Comportamento não se muda com remédio de farmácia. A ansiedade, a depressão, o pânico, a angústia, são as dores da alma.
Se você tem um prego no sapato e anestesia o pé como solução, o resultado vai ser um ferimento cada vez maior em seu pé. A dor é um sinal de alarme que deve levar a uma ação. Se alguém encosta, acidentalmente, um cigarro em seu braço, sua ação imediata é puxar o braço. No caso do prego, sua ação é tirar o sapato e arrancar o prego. Do mesmo modo, se temos uma tristeza que não sabemos de onde vem, uma ansiedade da qual desconhecemos o motivo, elas estão querendo lhe dizer que alguma coisa vai mal em sua vida e pedem uma ação de mudança. Mas você prefere anestesiar sua alma. Para isso dispõe de uma vasta gama de “anestésicos” nas prateleiras da farmácia mais próxima.
EMOÇÕES AUTÊNTICAS E DISFARCES – Cada família tem um padrão emocional próprio. E nós vamos aprendendo, já nos primeiros anos de vida, que tipos de emoção devemos vivenciar e quais devemos reprimir. As emoções são descargas energéticas de nosso organismo, produzidas por vivências do dia a dia. Se eu estou sob uma ameaça, sinto medo; diante de uma perda, advém a tristeza; se tenho algum de meus instintos básicos saciado, uma emoção prazerosa toma conta do meu ser. Tudo isso é propiciado por hormônios chamados de neurotransmissores.
  Essas substâncias são jogadas na corrente sanguínea e, quando chegam a uma parte do cérebro chamada hipotálamo, produzem descargas emocionais. A adrenalina, por exemplo, produz excitação, estresse, desencadeia o instinto de luta/fuga. As endorfinas produzem sensação de repouso e tranquilidade – semelhante à da morfina. As dopaminas levam ao prazer da saciedade, depois de uma boa refeição, a degustação de um belo vinho, etc. E são dezenas de neurotransmissores circulando em nosso corpo.
Ocorre que, na infância, de acordo com seu padrão familiar – e até cultural -, a pessoa vai aprendendo a vivenciar ou a reprimir determinadas emoções. Se a menina não tem permissão para sentir raiva porque é a “princesinha do papai” ou o menino não pode expressar tristeza porque “homem não chora”, na vida adulta, em momentos de raiva, ela vai chorar. Já o varão, por exemplo, se é demitido, vai chegar em casa, e em vez de mostrar tristeza e pedir ajuda, vai dar um berro na mulher, um cascudo no menino e um chute no cachorro. Isto pra usar dois exemplos bem simplórios.
O resultado desses episódios de se substituir uma “emoção autêntica” pelo que o psiquiatra americano Eric Berne chamava de “emoção disfarce” é o aparecimento das doenças psicossomáticas, das depressões e das ansiedades. “Doutor, é uma tristeza que não sei de onde vem”. “É uma ansiedade, um medo, que não sei qual é a causa”, são essas frases comuns que ouvimos no consultório. E tome Rivotril, e tome Somalium, e tome Prozac. Mas a dor da alma será apenas anestesiada. E o estrago continua.

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