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Opinião Vamireh Chacon: Os outros lados das sombras "Difícil, senão impossível, separar sonho e realidade, no equilíbrio do medo entre fracasso e sucesso"

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 04/05/2016 07:08 Atualizado em:

Por Vamireh Chacon
Professor Emérito da Universidade de Brasília

As sombras têm muitos lados com suas luzes implícitas ou explícitas. O outro lado da sombra de Mariana Portella apresenta o da autora, tão crítica e autocrítica desde tão jovem. Ela faz bem ao situar masculino o principal personagem na primeira pessoa da narrativa, em vez de feminino, ela própria, ao ampliar a universalidade dos sentimentos e pensamentos ali explícitos e implícitos, indo além de si mesmo (a). Na realidade Mariana Portella não se deixa limitar por ícones.

Seu personagem principal, Soren, tem algo de Kierkegaard e muito da autora, dentro dos seus limites de autocontenção. Tende a sair de si mesma para pensar, não só sentir, a sua própria circunstância. Martin, prenome também filosófico, aparece e ressurgirá também tocando  nos dilemas do ser no tempo. Quando Soren chega à metade da sua narração, começa a confissão. 

Para quem quiser ir à raiz última do sentir e pensar, Deus torna-se inevitável tanto pelo não quanto pelo sim. Deus na imortalidade envolta pelo mistério que nem Dante tentou desvendar, por mais que o autor da Divina Comédia fosse íntimo de poetas e filósofos na sua ascensão do inferno ao purgatório e céu, nos círculos em espiral projetando-se por dentro e por fora dos seres humanos.

A vida transcorre enquanto a autora vive os seus personagens. Viagens por mundos alheios e pelo de si próprio (a). O (a) personagem não é relativista, nas existências sempre termina por buscar a essência presente em todas. Quem está vivo tem sentimentos e aproveita os sentidos por menores que sejam. A eternidade sobrevive na intensidade recordada.
Também a queda revela o que está mais profundo no poço, inferno de Dante ou inferno escandinavo. O sofrimento e o abandono são os mesmos, mais que idênticos. Os relógios, mesmo parados, não evitam o transcorrer do tempo, se é que ele existe ou é apenas ilusão. O fundo do poço atrai mais que a curiosidade.

Os grãos de areia da ampulheta são infinitos que se multiplicam. Difícil, senão impossível, separar sonho e realidade, no equilíbrio do medo entre fracasso e sucesso. A metáfora do poço é recorrente. Muda de lugar permanecendo a mesma. Na limitada compreensão humana o passado e o futuro são sempre o presente. É A ânsia do finito do livro buscando transformar a ilusão em esperança. A arte, em músicos e pintores, aprofunda porém torna mais leve a busca.

Soren confessa sua lembrança de Kierkegaard, que muito o (a) toca: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para frente”. Martin, prenome do outro filósofo não explícito, reaparece ao término da narrativa que não pretende esgotar o ser no tempo.


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