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Direitos Humanos Ministério de Direitos Humanos coleta amostras de DNA dos parentes de desaparecidos na ditadura militar

Por: Tércio Amaral

Publicado em: 17/11/2015 11:29 Atualizado em:

Amparo Araújo tem uma história de vida cercada de perdas de amigos e parentes. Foto: Hesiodo Goes/DP/D.A. Press
Amparo Araújo tem uma história de vida cercada de perdas de amigos e parentes. Foto: Hesiodo Goes/DP/D.A. Press

Aos 102 anos de idade, dona Elzita Santa Cruz não possui nem a memória, nem a força de antes, mas, em seu corpo resiste um sinal de esperança. É de seu sangue que surge uma das últimas cartadas para descobrir o paradeiro do seu filho, Fernando Santa Cruz, que hoje teria 66 anos e desapareceu no dia 23 de março de 1974, no Rio de Janeiro, num dos casos mais sombrios envolvendo um pernambucano no regime militar (1964-1985). Hoje, o coordenador de buscas do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, Ivan Seixas, coleta amostras de DNA de Elzita, do seu filho Marcelo Santa Cruz e de parentes de outros dois desaparecidos durante a repressão. A tentativa é de localizar esses corpos e dar um destino final à história dos que lutaram pelo estabelecimento da democracia no país.

Desta vez, além dos parentes de Fernando Santa Cruz, serão coletadas amostras de DNA dos parentes do alagoano Luiz Almeida Araújo, desaparecido em junho de 1973, e do pernambucano Edgar Aquino Duarte, cujo paradeiro é desconhecido desde junho de 1973. “É um banco de DNA que já existia mas está sendo refeito por causa das ossadas de Perus (distrito localizado na zona noroeste de São Paulo). Estamos renovando esse banco e coletando novas amostras não apenas de parentes diretos, mas daqueles que são da segunda geração das famílias”, contou Ivan Seixas ao Diario. Ivan foi coordenador da Comissão da Verdade de São Paulo e estará acompanhado, em sua visita ao Recife, do perito do Ministério da Justiça Samuel Ferreira. Da capital pernambucana, segue para Natal, no Rio Grande do Norte, com a mesma missão.

A militante dos direitos humanos Amparo Araújo, de 65 anos, é irmã de Luiz Almeida de Araújo. Sua história é marcada pela perda de amigos e parentes durante a ditadura. Além do irmão, Amparo perdeu três companheiros no período. “A partir do momento que esse banco esteja surgindo aumenta a minha esperança de poder enterrar meu irmão”. Além de Amparo, a equipe do Ministério dos Direitos Humanos fará a coleta do sangue de sua mãe, Maria José de Araújo, de 89 anos, em Maceió, e de seu irmão Pedro, no Recife. Luiz Almeida era da Ação Libertadora Nacional (ALN) e desapareceu em São Paulo numa ação até hoje não esclarecida.

Após uma investigação recente, um grupo de especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou 139 pessoas nas ossadas do Cemitério Dom Bosco, em Perus. Especula-se que entre esses, 20 sejam de militantes políticos. Graças a uma emenda parlamentar de R$ 2 milhões, de autoria da deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), estudos estão sendo realizados, como as técnicas de antropometria, que define, por exemplo, altura, sexo e etnia do cadáver. A esperança é cruzar essa informações e partir para o exame de DNA. A lista de mortes na ditadura chega a 434, sendo 210 dessas desaparecidas.

O vereador de Olinda Marcelo Santa Cruz (PT), irmão de Fernando Santa Cruz, que também terá seu sangue coletado, diz que a busca encampada pelo ministério servirá para outras eventuais descobertas e defende um legado político: “No momento em que manifestações pedem a volta da ditadura, mostramos o lado mais cruel do regime, o dos desaparecidos. É um direito universal enterrar seus mortos. Minha mãe (dona Elzita) dá uma demonstração de justiça”.

Saiba mais
Fernando Santa Cruz

- Nasceu em Olinda, em 20 de
fevereiro de 1949. Foi
estudante e militante político e
se converteu num dos
símbolos de resistência contra
a ditadura no Brasil.
Desapareceu no Rio de Janeiro,
em 23 de março de 1974

Luiz Almeida de Araújo

- Nasceu em Alagoas em 27 de
agosto de 1943. Foi um
militante da ALN e
desapareceu em 24 de junho
de 1971. Sua irmã Amparo
Araújo, que mora no Recife, foi
uma das últimas pessoas a vê-
lo antes do desaparecimento

Edgar de Aquino Duarte

- Nasceu no município de Bom
Jardim, em Pernambuco, em
28 de fevereiro de 1941. Era
membro da Marinha do Brasil
quando aconteceu o golpe
militar no país. Por conta de
suas posições políticas, foi
obrigado a se exilar, mas
retornou ao país na
clandestinidade. Desapareceu
em 22 de junho de 1973



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