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Livro » Suicídio foi "calculado friamente", acredita Lira Neto, biógrafo de Vargas "Ele sabia da eloquência, do significado e dos efeitos sobre a crise política", explica o jornalista

Publicação: 23/08/2014 16:45 Atualização:

Confira a entrevista com Lira Neto, autor de uma trilogia com a biografia de Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954). O recém-lançado GETÚLIO - Da volta pela consagração popular ao suicídio (1945-1954) conta os anos finais do gaúcho de São Borja com os impressionantes detalhes de quem passou cinco anos dedicado à missão de pesquisar a vida do principal político brasileiro do século XX.

Getúlio era um personagem controverso. Essa complexidade ajudou a formar o mito que persiste até hoje?

De fato, Getúlio é um personagem absolutamente complexo, e é nisso que reside a sua importância e fascínio. Ora é identificado como ditador, violento, que fechou o Congresso, mas é o mesmo homem que exerceu um papel de protagonista na invenção do Brasil moderno. Essas facetas é que são fascinantes; um homem que caiu em 1945, como ditador, e volta em 1950, eleito como um grande líder de massas. E, sem dúvida, a forma como ele escolheu para passar à história, dando fim à própria vida, ajudou a consolidar ainda mais a sua permanência no imaginário coletivo.

A pressão em torno de Getúlio era, no momento do suicídio, realmente incontornável?

Sem dúvida. Ao contrário das vezes anteriores em que ele viu o suicídio como resposta a uma situação aparentemente incontornável, daquela vez, em 1954, ele de fato estava numa situação irreversível. Tentando fazer um exercício de “futurologia histórica”, certamente, caso não houvesse apontado o revólver contra o próprio peito, ele teria saído preso do palácio. As lideranças das três Forças Armadas exigiam a saída imediata do presidente. Antevendo o vexame, uma possível prisão, uma provável deportação, ele resolve pôr em ação o plano tão longamente planejado.

O suicídio de Vargas foi o seu mais marcante ato político?

Em geral, o senso comum costuma associar o suicídio a um ato de desespero ou covardia. Naquele momento, o ato de Getúlio não correspondia a nenhum dos dois. Era, na verdade, um ato político, calculado friamente, do qual ele sabia da eloquência, do significado e dos efeitos sobre a crise política. Ele sabia que o gesto seria tão forte, com efeitos tão intensos, que seus adversários teriam que partir para a defensiva. O suicídio foi o ato político mais incisivo e perene de toda a sua trajetória. Curiosamente, a sua derrota naquele momento, a sua morte, significou uma vitória. Ele conseguiu trocar os sinais de uma equação política que já parecia resolvida: quem era o vitorioso passou a ser o derrotado, e o quase certo derrotado foi o grande vitorioso, não só para aquele momento, mas para a própria história.

Qual o papel da filha Alzira no processo de decisões políticas de Getúlio? Pelo que você pesquisou para a biografia, inclusive centenas de cartas escritas por ela, há alguma chance de o suicídio ter sido articulado não individualmente, por Getúlio, mas em conjunto com outras pessoas?

Alzira tinha, de fato, um diálogo intenso, bastante frequente, toda uma articulação política, entre 1945 e 1950, para a volta do Getúlio ao cenário político. (O período se insere entre o fim da ditadura do Estado Novo e as eleições de 1950). Mas a surpresa foi geral. Ninguém esperava que ele terminasse daquela forma. Tanto que 10 dias antes, lá pelo dia 13, 14 de agosto (de 1954), um dos ajudantes de ordem encontrou um rascunho de uma carta de suicídio e a entregou para Alzira, que foi tomar satisfações como pai. Getúlio desconversou, tentou tranquilizá-la, dizendo que não era nada daquilo.

E o secretario do Getúlio, Maciel Filho, que datilografou a carta-testamento - Getúlio não sabia bater à máquina de datilografia-, nem ele entendia aquilo como uma carta de suicida. Ele afirmou, depois, quando foi cobrado, que achou que se tratasse de uma carta de resistência, não de suicídio. Se você ler a carta-testamento na perspectiva de alguém que está disposto a morrer com a arma na mão, ela tem esse sentido.

Para o Maciel, que redigiu* e datilografou, era o testemunho de um homem disposto a morrer lutando. A própria Alzira propôs a ele (Getúlio) a resistência, peitou o Zenóbio, ministro da Guerra, propondo que nao entregasse os pontos diante das adversidades. Ela conta nas anotações pessoais que estava armada, esperando que o Exército invadisse o Palácio do Catete. Mas Getúlio escolheu poupar os outros e disse, textualmente, que "Se algum sangue for derramado, será o de um homem cansado e enojado de tudo isso”.

Qual o principal legado getulista, hoje?

Algumas das questões suscitadas pelo Getúlio ainda são atualíssimas, ainda permanecem a nos desafiar e, portanto, ele continua a servir como referência. A discussão em torno do tamanho do Estado, se deve ser gestor, interventor na economia, ou se deve deixar para tal tarefa a mão invisível do mercado, na responsabilidade da condução econômica - como querem os liberais-, essa discussão permanece, está atual.

Para ver o legado de Getúlio, basta olhar para o lado. Ele permanece não só na questão da legislação trabalhista, toda a regulamentação desta relação entre capital e trabalho, mas no seu projeto de desenvolvimento, com a criação da Petrobras, do BNDES, do Banco do Nordeste, da Eletrobras. Agora, temos que ter como perspectiva - e foi com isso que me preocupei como biógrafo - a necessidade de fugir do maniqueísmo de tentar vê-lo só por um lado positivo, ou só negativo, do ditador, que perseguiu liberdades democráticas. Ele é fascinante, exatamente, por isso: porque ele é isso e é aquilo. Qualquer tentativa de analisá-lo por um único viés vai cair no pecado original daqueles que simplesmente o amam ou o odeiam. Como diz (o historiador) Boris Fausto, para o bem ou para o mal, ele foi o personagem mais importante da história brasileira.

* A versão da carta-testamento manuscrita por Vargas é mais curta que a oficial, datilografada. O texto adicional, que não altera o sentido desejado por Vargas, tem a autoria atribuída ao jornalista José Soares Maciel Filho, que redigia os discursos de Vargas.

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