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Memória » A história reescrita de Carlos Lacerda Poduzido a partir dos registros que ele deixou, Cartas reforça mitos do político e apresenta sua relação com Pernambuco

Tércio Amaral

Publicação: 02/06/2014 09:28 Atualização:

Ex-governador do estado da Guanabara (Rio de Janeiro), Carlos Lacerda (e) tinha estreita ligação com intelectuais. Foto: Arquivo/DP
Ex-governador do estado da Guanabara (Rio de Janeiro), Carlos Lacerda (e) tinha estreita ligação com intelectuais. Foto: Arquivo/DP
A expressão aristocrática no rosto contrastava com os óculos de armação grossa e o discurso sempre incisivo. Um perfil complexo, principalmente em se tratando de uma personalidade ao mesmo tempo intransigente e elegante. Nas comemorações do centenário de seu nascimento, a história do ex-governador do estado da Guanabara (atual cidade do Rio de Janeiro) Carlos Lacerda (1914-1967) começa a ser reescrita de forma "justa". Ou seja, a partir dos registros que ele mesmo deixou. Lançado recentemente pela Editora Bem-Te-Vi, Cartas reforça mitos do político, mas também apresenta outra faceta: sua relação com o estado de Pernambuco.

O livro é dividido em três partes, em eixos como família, amigos, autores e livros. A obra resgata documentos de diversos arquivos, inclusive privados, e foi organizada pelos escritores Cláudio Mello e Souza, que faleceu durante a produção, e Eduardo Coelho. "Os documentos reunidos neste livro demonstram que Lacerda defendia uma grande transformação política no Brasil. De fato, ele apresentava um projeto para o país. Contudo, os métodos não eram, às vezes, democráticos. Não que ele fosse antidemocrático", disse Eduardo Coelho ao Diario.

A "sombra" da democracia transparece na vida de Carlos Lacerda em dois momentos bastante delicados na história nacional. O primeiro foi o protagonismo durante a pressão pela renúncia do então presidente Getúlio Vargas (1882-1954), na década de 1950, que acabou se suicidando. O outro momento é pelo "movimento de resistência" ao governo do também presidente João Goulart (1919-1976), que acaba deposto pelo Golpe de 1964. "Se a posição política de Lacerda foi sempre motivo de muitas dúvidas, de muitas controvérsias, seu papel como administrador da cidade é exemplar", defende Eduardo, ao falar de projetos como o Aterro do Flamengo e do Túnel Rebouças, no Rio de Janeiro.

No livro, é possível também notar esse "outro lado" de Lacerda: sua estreita ligação com intelectuais. Diretor do jornal fluminense Tribuna da Imprensa, ele mantém contato com o bispo auxiliar do Rio de Janeiro d. Helder Camara (1909-1999) - que só seria nomeado arcebispo de Olinda e Recife na década de 1960 - e o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987). Com esse último, protagoniza uma discussão bem peculiar, registrada em uma carta da obra (ver quadro).

Ligações
Em Pernambuco, a ligação de Carlos Lacerda é com o então governador Cid Sampaio (1910-2010), que administrou o estado entre os anos de 1959 e 1963."Os dois eram da UDN, mas tinham um perfil bastante distinto", lembra o professor do curso de direito da UFPE José Luiz Delgado, 67 anos. Lacerda esteve em atos políticos importantes no Recife. A primeira no funeral do estudante Demócrito de Sousa (1921-1945), morto em frente à antiga sede do Diario no Centro, num movimento que pôs fim à Era Vargas (1930-1945). "Ele também fez um discurso brilhante na Câmara do Recife, que eu acompanhei, em 1963, na resistência contra o governo João Goulart. A sua oratória era a marca mais forte".

Saiba mais

Trechos de algumas cartas

Gilberto Freyre (1900-1987)
Escritor pernambucano

8 de junho de 1973

"Mas, a propósito, você estranha que uma enciclopédia dirigida por mim e editada pela José Olympio dedique menos linhas ao autor de Casa Grande & Senzala do que a outros, como Jorge Amado, por exemplo. Devo-lhe, pois, uma explicação. Não adianta dizer que a importância dada a um autor, numa enciclopédia, não se mede somente pelo número de linhas. Mas, se medisse, você veria que as vinte e quatro linhas que lhe são dedicadas são excedidas em oito linhas pelo verbete Jorge Amado porque: (I) a lista de obras de Jorge Amado é mais numerosa - refiro-me à lista e não à importância - que a sua. Uma linha é dedicada a dizer que ele é primo de Gilberto Amado. Em nenhuma linha está dito que ele escreveu obra fundamental da literatura brasileira. No verbete Gilberto Freyre está dito esta elementar verdade: -renovador das bases do estudo da formação da sociedade no Brasil com Casa grande e senzala, obra fundamental da moderna sociologia brasileira-, etc."

D. Helder Camara (1909-1999)
Arcebispo de Olinda e Recife

19 de dezembro de 1952

"Fiel ao compromisso que assumi com V. Ex., quando me procurou com René Finkenstein para encarregar a Tribuna da Imprensa do esforço de editar no Brasil uma revista de boa leitura para crianças, sacrifiquei até agora a Tribuna, com prejuízo acima de suas forças. Fiel, ainda, a esse compromisso, estou tentando agora a sobrevivência do Bamba (revista que substituiu o suplemento infantil do jornal) com ajuda da sra. Paes de Carvalho, da Associação de Pais e Família. Se essa dedicada senhora nada conseguir, no sentido de concretizar o apoio moral que não tem faltado ao Bamba, fecharei a revista em janeiro próximo. Para isto, peço desde já que V. Ex. me desobrigue do compromisso que até aqui tratei de cumprir do melhor modo possível, com a inestimável colaboração de muitos poucas mas devotadíssimas pessoas."

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