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Candidatos » Fernando Pimentel e Apolo Heringer passaram de companheiros a adversários Prováveis candidatos na disputa pelo governo de Minas, Fernando Pimentel (PT) e Apolo Heringer (PSB) atuaram no Colina, grupo de esquerda criado em 1968 contra a ditadura

Estado de Minas

Publicação: 04/05/2014 13:12 Atualização:

Os dois candidatos de oposição que tentam impedir a quarta vitória seguida do PSDB em Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT) e Apolo Heringer Lisboa (PSB), têm a mesma origem política: o Comando de Libertação Nacional (Colina), organização de esquerda que combateu a ditadura. Apolo, de 71 anos, tinha 24 quando foi um dos fundadores da organização, uma dissidência da Política Operária (Polop). Pimentel, que é oito anos mais novo que seu adversário do pleito de outubro, começou a militar no Colina ainda estudante secundarista, aos 16 anos. Além dos dois, o Colina teve em seus quadros a presidente Dilma Rousseff (PT), que participou ativamente da organização do grupo, mas, ao contrário de Pimentel, não chegou a pegar em armas para tentar derrubar os militares do poder.

Apolo lembra que Pimentel era colega de seu irmão, Ageu, no Estadual Central, onde também estudavam outros militantes que vieram a integrar o Colina, como Dilma e Marco Antônio Meyer. “Ele sempre foi um bom menino. Uma pessoa comprometida com a escola, os estudos e a política. Uma pessoa corajosa, de uma família muito bacana e que arriscou a vida pela liberdade”, descreve Apolo sobre Pimentel, seu provável adversário na disputa pelo governo mineiro.

Os pais de ambos eram amigos e frequentavam a mesma igreja presbiteriana. Apolo, aliás, logo após ser preso pela primeira vez, em 1964, foi campeão de um concurso nacional de Bíblia, recitando passagens de memória. O livreiro Marco Antônio Meyer, de 69, lembra que foi Apolo o seu mentor. “Foi ele quem iluminou o meu caminho político.”

Marco Antônio foi presidente do grêmio estudantil do Colégio Estadual Central. Ele trabalhava em um banco de dia e estudava à noite. “Era arrimo de família. Minha mãe ficou viúva e tinham 10 pessoas lá em casa”, recorda. Quando saía do trabalho, em 1967, e ia para a escola, Marco Antônio deu de cara com uma manifestação. “Vi um policial batendo com um cassetete em uma mulher loira. Não aguentei e pulei com os dois pés em cima dele”, lembra. A mulher era a namorada de Apolo. Em outra manifestação, no dia seguinte, o casal se encontrou com Marco Antônio, agradeceu a atitude do dia anterior, e o convidou a ingressar no grupo de estudos a que faziam parte. Era assim que se referiam à Polop.

Coragem Para compreender o Colina é preciso retornar a 1961, quando a Polop foi criada por dissidentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do antigo Partido Socialista Brasileiro (PSB). O jornalista Ricardo Batista Amaral destaca em seu livro A vida quer é coragem (Primeiros Passos, 2011), biografia da presidente Dilma Rousseff (PT), que a ideologia da organização era influenciada por Leon Trotski e pela alemã Rosa Luxemburgo. Umas das obras fundamentais de quem quisesse militar na Polop era Princípios fundamentais de filosofia, do francês Georges Politzer. O livro é uma coletânea das palestras para operários do Partido Comunista Francês, na década de 1940, redigido na forma de perguntas e respostas.

Com o golpe militar, Apolo foi preso pela primeira vez. Já em liberdade, foi um dos artífices da criação do Colina, em 1968. Da espinha da Polop foi criada por militantes de São Paulo a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que fez história sob a liderança do capitão do Exército Carlos Lamarca e para onde Pimentel migrou. O núcleo de Belo Horizonte formou o Colina.

O grupo foi formado em um congresso realizado em um sítio, em Contagem, com a presença de Apolo e também de Dilma Rousseff, que tinha 21 anos à época. A sigla Colina foi uma ideia de Apolo: “Minas Gerais são as alterosas, as montanhas, as colinas”, recorda o pré-candidato ao governo mineiro, que lembra que a Polop era o grupo mais intelectual da esquerda brasileira. “O pessoal do partidão (PCB) era mais stalinista e a Polop queria o socialismo democrático”, recorda. No Colina, segundo Apolo, havia também apego à teoria, mas não era tão intenso quanto na Polop.

Sequestro Pela VPR, Pimentel participou do grupo de oito militantes que tentou sequestrar, sem sucesso, o diplomata norte-americano Curtis Carly Cutter, veterano da guerra da Coreia, Animados com o êxito de outros grupos de esquerda – como a ação do MR-8 e da ALN, que sequestrou o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, trocando o diplomata por 15 presos políticos – os militantes da VPR em Porto Alegre partiram para a ação a bordo de um fusca.

 Pimentel foi no banco de trás, armado com uma pistola .45. Quando tiveram uma chance, fecharam o carro do diplomata, um imenso Plymouth Fury. Quando três guerrilheiros desceram, o diplomata acelerou o carro e atropelou Pimentel. Um dos companheiros do ex-prefeito de BH conseguiu atingir o diplomata no ombro, mas ele escapou.

Pimentel conseguiu escapar, mancando, pois teve o tornozelo atingido pelo carro do diplomata. Sem poder ir a um hospital, pois estava clandestino, teve que se recuperar em um aparelho, mas uma semana depois foi preso e brutalmente torturado. Já Apolo, após o fim do Colina, foi clandestino para o Rio e depois para o exílio no Chile. Quando ocorreu o golpe no país andino, seguiu para a Argélia, onde trabalhou como médico. A reportagem do EM não conseguiu falar com Pimentel.

Memória

Banho de sangue

O inicio do fim da Colina foi em 14 de janeiro de 1969, quando sete integrantes haviam feito um ato de expropriação (assalto, para a polícia) em uma agência do Banco da Lavoura, em Sabará, e estavam escondidos em uma casa no Bairro São Geraldo. Policiais do Dops e da Delegacia de Furtos e Roubos estouraram o portão e, segundo relatos, entraram atirando. A resposta foi no mesmo tom, e o policial que estava à frente morreu baleado por projéteis de uma metralhadora .30. Do lado de fora da casa outro policial morreu. Os sete membros da Colina foram rendidos. Eles foram colocados no paredão e os policiais, furiosos com a morte dos colegas, queriam fuzilá-los ali mesmo, mas o comandante da operação, o delegado Luiz Soares da Rocha, chefe do Dops, impediu o banho de sangue. Com a ação frustrada e a morte dos policiais, o cerco aos integrantes da Colina apertou em Belo Horizonte.

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