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Ditadura » Fafá e o diploma atrasado por causa do golpe militar Impedida pelo golpe militar de concluir o curso de serviço social, pernambucana se formou após 5 décadas

Josué Nogueira - Diário de Pernambuco

Publicação: 08/04/2014 09:56 Atualização:

Cerimônia de formatura de Maria de Fátima ocorreu na última quarta-feira, 50 anos depois de quando deveria ter acontecido. Foto: Luminar Imagens/Divulgação
Cerimônia de formatura de Maria de Fátima ocorreu na última quarta-feira, 50 anos depois de quando deveria ter acontecido. Foto: Luminar Imagens/Divulgação
Entre a fuga que a impossibilitou de concluir o curso e a defesa da dissertação que lhe garantiu a diplomação em serviço social, Maria de Fátima Pimentel Lins esperou 50 anos. Na última quarta-feira, no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro da Praia Vermelha, ela pôde, finalmente, fechar um ciclo que permaneceu aberto como seguem abertas as feridas de quem perdeu a paz com o golpe militar de 1964. Às 18h30, Fafá, como é carinhosamente chamada por amigos e familiares, formou-se. Fez da própria vida objeto de estudo. Escreveu o memorial “Não é a história… mas é a minha verdade”. Uma verdade dura, mas contada ao Diario com bom humor, leveza.

Pernambucana do Recife, Fátima reside no Rio desde 1979, quando ela, o marido e os três filhos retornaram de um segundo exílio na Europa. Com os ventos da anistia soprando, entrou com o pedido para concluir o curso. O processo se arrastou até 2013. “Havia troca de reitor, greves e só agora consegui”, diz. Quis a burocracia que o desfecho se desse no momento em que o país vive - e tenta expurgar - as dores do golpe.

Naquele 1964, Fátima, com 24 anos, foi obrigada a interromper o curso quando seu noivo teve de sair às pressas do Recife para não ser preso. Marcos Lins era advogado da Sudene, mas cedido à gestão de Pelópidas Silveira na prefeitura da capital. O envolvimento que teve com movimento estudantil e a Juventude Universitária Católica (JUC) bastou para que ele fosse considerado subversivo e merecesse a cadeia. Por não ser do quadro do Executivo municipal, acabou não sendo localizado pelos militares e teve tempo de se safar.

Com Pelópidas preso, Marcos rumou para São Paulo. Restava a Fafá segui-lo. Mas, por ordens paternas, só sairia do Recife casada. O matrimônio foi selado por procuração, tendo o pai como representante do noivo. “Casei com o meu pai”, recorda, em tom de brincadeira. Era 3 de junho de 64. Nove dias depois, já em terras paulistas, ela e Marcos selaram, na Igreja Dominicana, na região da Sé, a união que se estenderia por 40 anos.

A pressão dos “homens de farda” obrigou o casal a se exilar em Paris, onde já estavam alguns amigos. Lá, conseguiram bolsas de estudo e se integraram a movimentos católicos locais - uma espécie de continuidade à militância dos tempos da JUC. Depois de um ano, Marcos foi convidado a trabalhar na Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), na Argélia.

Com o contrato chegando ao fim e o evento da primeira gravidez, Fátima retornou ao Recife em 1966. O marido veio em seguida, numa odisseia que incluiu passagens pela França, Argentina e Paraguai, de onde conseguiu entrar de carro no Brasil. Renata nasceu e eles decidiram ficar. Fixaram residência no Rio. Tudo corria sob controle, quando, um dia depois de retornarem de uma visita a São Paulo, a casa da irmã de Marcos, onde eles se hospedaram, foi invadida. O episódio evidenciou que era hora de Marcos e Fáfa deixarem o país novamente.

O projeto que ela apresentaria como conclusão em 1964 se tratava de uma proposta de alfabetização pelo método Paulo Freire a ser aplicado numa favela da cidade. Marcos e família tiveram os passos acompanhados pelos militares até 1987, dois anos após a redemocratização.

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