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Carta » O Arraes católico que a oposição escondeu Em carta a Dom Helder, ex-governador se mostra homem de fé, o que, segundo parentes, nunca foi segredo em casa

Jailson da Paz

Publicação: 06/04/2014 11:03 Atualização: 07/04/2014 10:22

A Miguel Arraes sempre foram comuns as acusações de ser comunista e ateu. Esses carimbos partiam dos opositores e do campo mais conservador da política. Apesar da força eleitoral das acusações, o ex-governador, eleito para administrar Pernambuco por três vezes, não costumava jogar lenha sobre essa fogueira. E ficava, para muitos, a pergunta sobre o real pensamento ideológico e religoso de Arraes (1916-2005). Uma carta enviada por ele ao então arcebispo de Olinda e Recife, dom Helder Camara (1909-1999), de 18 de março de 1965 e publicada com exclusividade pelo Diario, mostra o político contrário às perspectivas apontadas por seus opositores: Arraes era um homem de fé católica, o que, segundo os parentes, nunca foi segredo dentro de casa. O original da correspondência está no Centro de Documentação Dom Helder Camara (Cedhcoc).

Mas a religiosidade do governador, revela um de seus filhos, o médico Lula Arraes, 55 anos, era vivida de "maneira discreta". Isso porque, completou, "ele nunca quis misturar a vida política à vida reigiosa". A análise de Lula bate com o que diz o pai na carta-confissão ao arcebispo, cearense como o governador deposto em 1º de abril de 1964. Arraes entendia não ter "direito de explorar esses sentimentos (religiosos) num sentido político, nem de invocar em vão as coisas sagradas". O sagrado, conforme relatos de Lula e de outros familiares, era experimentado em casa e, de maneira forte, ao ficar exilado na Argélia, país africano onde a família Arraes viveu entre 1965 e 1979.

Entre as lembranças religiosas está o dia em que, em 1969, Arraes pediu à mulher Madalena, a segundo esposa, para ler Jó, livro do Antigo Testamento. "Fiquei espantado com a história daquele homem que só fazia sofrer, mas que no final surge a esperança", frisou o médico, filho de Célia, de quem Arraes ficou viúvo. Jó, embora nada comentasse Arraes, simbolizava o governo de Deus sobre todas as coisas do mundo, a Providência Divina. E, conforme a carta, Arraes declara que "quis a Providência que assim fosse e acredito que tudo o que ocorreu e está ocorrendo tem seu imenso lado positivo".



A carta, escrita quando o político estava preso no Quartel dos Bombeiros, no Recife, revela um Arraes que trata o arcebispo como "Camigo" e pastor, à medida que assume ser "Cuma de suas ovelhas mais ariscas". Arisca não por rebeldia, mas por estar afastado da igreja. As referências à religião constam nos 14 parágrafos da correspondência de quatro páginas. O preso político afirma que "não entende serem de um católico as atitudes de submissão ao rito, com ignorância dos fundamentos do cristianismo e dos ensinamentos mais profundos do Mestre". Compara a prisão como um período de retiro espiritual, que estava possibilitando a ele viver a injustiça, de entrever o terror e de olhar de perto a intolerância. E de por à prova a capacidade de não odiar. Prova essa que, segundo ele, nem sempre é fácil de praticar nas exatas condições determinadas por Cristo por ter "nascido no Araripe".

É no Araripe, onde Arraes viveu até a adolescência, que o professor da Universidade Federal de Pernambuco Severino (Biu) Vicente enxerga as raízes da fé do ex-governador. Esse catolicismo vivido por Arraes, segundo o professor, é cultural, mostrando tanto o homem de fé quanto o católico que estudou o catolicismo e sabe dos limites e das possibilidades dele. Ao falar dessas possibilidades em 1965, época de renovação da Igreja com o Concílio Vaticano II, esmiúça Biu Vicente, Arraes enxerga em dom Helder a possível continuidade de seu trabalho por melhorias sociais. E a carta-confissão se transforma em espécie de carta-sermão. Arraes frisa que o papel político que o arcebispo pode desempenhar no Brasil é, muitas vezes, mais pesado e difícil do que o dos padres que lutaram pelas liberdades e foram pendurados nos postes do Recife.

Apesar do "quase... longo sermão", o governador prisioneiro do regime militar (1965-1984) define-se como um "pobre pecador" que, apesar da intenção da carta, não declina os pecados. "Pecados que talvez não sejam tantos, nem tão graves como podem supor e que se confundirão com as culpas de todos os homens". Depois de receber a correspondência, dom Helder fez questão de identificar, diante da assinatura de difícil compreessão do autor, que se tratava do ex-governador. No verso da última página, o arcebispo escreveu de próprio punho "Carta de Miguel Arraes".

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