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Ditadura militar » Memórias de "férias" dolorosas Unidade do Exército conhecida como a Colônia de Férias de Olinda serviu de prisão para operários e trabalhadores rurais

Tércio Amaral

Publicação: 23/03/2014 11:47 Atualização: 25/03/2014 11:52

Unidade do Exército abrigava local que recebia militantes presos que discordavam do regime militar. Foto: Julio Jacobina/DP/D.A Press
Unidade do Exército abrigava local que recebia militantes presos que discordavam do regime militar. Foto: Julio Jacobina/DP/D.A Press
Enquanto admirava e comia uma caixa com castanhas açucaradas, a advogada Cristina Ferreira Lima, na época com 5 anos, reparava a mudança drástica no rosto de seu pai, que adotara, de uma hora para outra, uma barba sem maiores cuidados. Ela não entendia porque não poderia tocar ou conversar com o pai e que seu contato, mesmo em datas festivas, era apenas através de um vidro. Sorrisos e acenos faziam parte daquela restrita relação. Essas lembranças fazem parte de uma história de sofrimento de sua família, cujas datas e episódios aparentemente sem importância se fixaram na memória. O pai da advogada, o ex-prefeito de Timbaúba Geraldo Ferreira Lima, já falecido, foi um dos sessenta presos políticos que se tem registro na ainda desconhecida Colônia de Férias de Olinda, inaugurada no dia 28 de abril de 1964 pelo major do Exército Walter Moreira Lima.

Pai da advogada Cristina Ferreira Lima foi um dos 60 presos que passam pelo local. Foto: Julio Jacobina/DP/D.A Press
Pai da advogada Cristina Ferreira Lima foi um dos 60 presos que passam pelo local. Foto: Julio Jacobina/DP/D.A Press
A unidade abrigou, segundo pesquisadores, presos políticos de movimentos rurais de Pernambuco, especialmente integrantes das Ligas Camponesas, movimento ligado ao ex-deputado Francisco Julião (1915-1999). No caso de Geraldo Ferreira Lima, Cristina acredita que sua relação com o ex-governador Miguel Arraes (1916-2005) tenha pesado na prisão. Trabalhadores envolvidos em movimentos sindicais na Região Metropolitana do Recife também estariam na relação dos “anônimos”. A Colônia de Férias de Olinda - pelo menos este era o nome oficial registrado em documentos das Forças Armadas - funcionou num antigo quartel (hoje desativado) no Bairro Novo, naquela cidade. Lá, há registro de torturas, principalmente psicológicas. Os presos passavam, em média, trinta dias de reclusão. Os inquéritos poderiam chegar a dez, doze horas.

A Colônia de Férias de Olinda, assim como o Golpe de Março de 1964, completa 50 anos de existência em 2014. O assunto é inédito até nos depoimentos e relatos orais coletados pela Comissão da Verdade de Pernambuco. Depois do Diario enviar ao grupo uma lista com presos políticos da unidade, o colegiado começou a buscar dados e outras informações sobre a colônia através de sua equipe técnica. Dos presos que passaram pela unidade e possuem prontuários no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), apenas um tem o registro que esteve no local. “Meu pai nunca reclamou de tortura, teve essa posição a vida inteira, guardou o silêncio. Da Colônia de Férias, este nome que vocês trouxeram, eu não conhecia, ele foi transferido para a Casa de Detenção, no Recife. Nunca mais se candidatou a nada”, contou Cristina.

Apesar de “pouco conhecida”, a Colônia de Férias de Olinda era monitorada diretamente pelo Exército e pela então Secretaria de Segurança Pública. Nos registros guardados pelo Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje), consta uma visita de um deputado estadual de Pernambuco. Numa autorização assinada pelo tenente-coronel Ivan Ruy Andrade de Oliveira, em 30 de abril de 1964, o deputado José Mixto de Oliveira obtém a permissão para entrar na unidade e visitar o preso Otávio Alves Siqueira. As razões ou justificativas do encontro não foram divulgadas. Aliás, todo o trâmite dentro da unidade, incluindo saídas e entradas, era regido por um regulamento com normas redigidas pelo major do Exército Walter Moreira Lima, em 29 de abril de 1964.

Entre as normas, constam um horário para as três refeições diárias, a proibição de entrada de jornais e livros, além de conversas de “dentro para fora da prisão”. O major, no documento, também destaca que qualquer visita seria acompanhada por um agente, que ficaria encarregado de assistir toda a conversa. “Lembro que uma vez minha mãe tentou levar alguns livros e um guarda disse que só era permitido entrar a Bíblia”, disse Cristina Ferreira Lima, que relata que uma ou outra norma poderia ser burlada na época. Ela conta, por exemplo, que sua mãe visitava seu pai todos os dias da semana. “Nós conhecíamos o coronel Olinto Ferraz, era amigo da família, e nos ajudou bastante. Mamãe conta que esperava que um carro da polícia saísse para entrar na unidade. Ela o via, rapidamente, através de um vidro”.


Saiba mais

Documento encontrado no arquivo do Dops contém lista de presos
Documento encontrado no arquivo do Dops contém lista de presos
Poucos são os nomes conhecidos na lista dos 60 presos da Colônia de Férias de Olinda. Analistas falam em agricultores e trabalhadores do movimento operário do Recife, como de bairros de Casa Amarela e Nova Descoberta, na Zona Norte da capital.

Historiadores apontam que uma das formas de identificar parte do grupo é ler as demissões ocorridas em fábricas no estado entre maio e junho de 1964. As detenções foram “curtas”, dos 60 apenas 15 ficaram mais que trinta dias, tempo para serem demitidos por abandono de emprego.

No acervo do Dops, ainda constam 27 fichas individuais com pedido de prisão de militantes para inquéritos na unidade. Todos são datados do mês de maio de 1964, excetuando-se uma ficha, registrada em abril. Todos os documentos são assinados pelo coronel Ivan Ruy Andrade de Oliveira.

Não existe documentação disponível, até o momento, sobre a duração exata da Colônia de Férias de Olinda. Acredita-se que tenha terminado suas atividades em junho de 1964. Mas existe relatos de militantes que foram torturados em quartéis na cidade na década de 1970, sem fazer alusão ao nome “Colônia de Férias”.

Em junho de 1964, o então delegado do Dops Álvaro Gonçalves da Costa Lima, já falecido, solicita escolta para o transporte de presos. Na ocasião, ele chama a Colônia de Férias de Olinda de “prisão”.

A maioria dos 22 pedidos de autorização de visitas na unidade é assinada pelo coronel Ivan Ruy Andrade de Oliveira. As ordens são dadas pelo coronel do Exército Walter Moreira Lima.

Um documento sem identificação mostra o possível tratamento diferenciado que alguns presos poderiam receber dos militares. Numa ordem de visita sem data e com um caráter mais informal, o coronel Bandeira pediu “fineza” para atender o pedido de Clarice Araújo, mulher do preso Anderson Lopes de Araújo.

Fontes: Prof. Severino Vicente (UFPE), prof. José Nivaldo Júnior (UFPE), prof. Diogo Barreto e Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Ajepe)

Esta matéria tem: (1) comentários

Autor: valmir lira
passamos lá quase todos os dias e nunca imaginava isso! bom saber! | Denuncie |

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