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Memória » Toque feminino nos arquivos do Dops Prontuários trazem histórias de mulheres perseguidas e outras que colaboraram com o regime

Tércio Amaral

Publicação: 10/03/2014 09:37 Atualização: 10/03/2014 10:01

Maioria das mulheres que trabalharam no Dops atuavam para ganhar status social. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press (Alcione Ferreira/DP/D.A Press)
Maioria das mulheres que trabalharam no Dops atuavam para ganhar status social. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press


Juracy de Souza Goes era suspeita de ser informante dos comunistas. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press (Alcione Ferreira/DP/D.A Press)
Juracy de Souza Goes era suspeita de ser informante dos comunistas. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press
A força do regime militar (1964-1985) não foi capaz de calar a datilógrafa Juracy de Souza Góes. No mesmo ano em que as Forças Armadas tomaram o poder no país, há quase 50 anos, a profissional, então com 55 anos, trabalhava no antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) no Recife e estava internada no Hospital da Polícia Militar em virtude de um problema de visão, mas não deixou de lado suas ideologias políticas. Interrogada na unidade de saúde no mês de junho pelos agentes da repressão, ela disse que não acreditava na “revolução democrática”. E mais: se o Partido Comunista (PC) estivesse na legalidade, seria militante. As palavras constam no prontuário dela, mantido pelo Dops, e contribuíram para o desfecho de um inquérito iniciado ainda no dia 20 de abril de 1964 e cujo roteiro termina em 5 de agosto, com um decreto do então governador Paulo Guerra (Arena) declarando sua expulsão do serviço público.

A história de Juracy é um capítulo à parte da trajetória de um dos maiores símbolos da vigilância e opressão política da história contemporânea do Brasil e de Pernambuco, que contou com a presença feminina. Discretas, as mulheres também atuaram na linha de frente e nos bastidores da estrutura do Dops no Recife, que mantém dezenas de prontuários dedicados a elas. Com funções distintas, elas trabalhavam, sobretudo, como datilográfas (função quase extinta nos dias atuais), mas nem por isso deixavam de transitar pela estrutura do órgão, assumindo, muitas vezes funções estratégicas. Outras atuaram infiltradas em organizações de esquerda e até próximas a famílias de perseguidos políticos. Chama atenção no envolvimento das mulheres neste aparelho as condições peculiares de trabalho.

Muitas sequer ganhavam salários, eram solteiras e estavam no serviço pelo “status” proporcionado nas ruas e na família. Participar de uma estrutura que combatia o comunismo garantia uma “boa imagem social”. No caso de Juracy, o que chama a atenção é que ela teria sido vítima da própria instituição em que trabalhou. Acusada de ser informante dos comunistas, ela não acreditava nas “boas intenções” dos grupos de direita que tomaram o poder no país. No seu inquérito, iniciado pela Delegacia Auxiliar, constam depoimentos de militantes de esquerda que atestavam sua participação no movimento. Além do mais, a datilógrafa não fazia questão de esconder o que pensava. Ainda no hospital, disse que tinha votado no então governador deposto Miguel Arraes e no ex-prefeito do Recife, também deposto, Pelópidas da Silveira.

Arlete de Albuquerque pediu exoneração pouco antes do golpe. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press (Alcione Ferreira/DP/D.A Press)
Arlete de Albuquerque pediu exoneração pouco antes do golpe. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press
Apesar do tabu ainda em curso sobre o trabalho feminino nesta estrutura, as funcionárias do Dops assumiram uma postura de “vanguarda” na época. Curiosamente, a presença das mulheres no órgão na capital pernambucana começa na década de 1930, junto com modificação desta estrutura de poder na Era Vargas (1937-1945). É importante salientar que, neste período, o governo federal começa a preparar uma estrutura de vigilância contra grupos de esquerda, sendo esta reforçada e ampliada com o Golpe de 1964, cuja presença feminina se perpetua. O Dops (cujo nome era variado em determinados estados do país) tem início no final da República Velha (1889-1930). Vale ressaltar que nem todos os funcionários do órgão estavam envolvidos em atos de tortura ou de violação dos direitos humanos.

“Como boa parte destas mulheres eram viúvas ou solteiras, estar na Dops era uma espécie de mecanismo de defesa que elas tinham na sociedade. Era importante se posicionar e dizer eu não sou subversiva”, analisa o historiador e funcionário do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano (Apeje), Cícero Souza. O pesquisador fez o levantamento das mulheres que atuavam na estrutura entre as décadas de 1930 a 1960. “Isso, em parte, explica o fato delas não ganharem salários. Mas elas eram indicadas, não surgiam do nada. Apenas uma chegou a solicitar uma indenização por ter saído do Dops e o delegado atendeu o pedido”, completou.

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Autor: José Valério Melo
Teria muita vergonha se uma delas fosse minha parente. Trabalho sujo. | Denuncie |

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