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Ditadura » Artista plástica resistiu à ditadura com frase em nome da liberdade Artista plástica enfrentou militares e grafou em painel na UFMG mensagem de resistência

Estado de Minas

Publicação: 02/03/2014 10:39 Atualização:

Yara em frente à sua obra na reitoria da universidade: cenas da Inconfidência e a frase reproduzida sob o olhar dos militares. Foto: Ramon Lisboa/Divulgação
Yara em frente à sua obra na reitoria da universidade: cenas da Inconfidência e a frase reproduzida sob o olhar dos militares. Foto: Ramon Lisboa/Divulgação
13 de outubro de 1969. O país vive à sombra do Ato Institucional número 5 (AI-5). A autonomia universitária está na berlinda. Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) os alunos encaram o regime enfrentando aos gritos, esbarrões e cadeiradas as incursões militares. Assim fora um ano antes durante a invasão da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) e da Faculdade de Medicina. Em 1966, foi a vez da Faculdade de Direito. O corpo docente vive em suspense. No Diário Oficial da União, todos os dias, professores são mandados de volta para casa. O reitor da UFMG, Gerson Boson, que nesse dia, a convite do governo americano, costura na Universidade de Houston a formação de um Centro Interamericano de Pós-Graduação na UFMG, é a mais nova vítima. Em meio à agenda internacional, é informado de que foi “aposentado compulsoriamente” pela Junta Militar no exercício da Presidência da República.

Em Belo Horizonte, no momento em que se torna pública a “cassação acadêmica” de Boson, no saguão da reitoria, a artista plástica e professora da Escola de Belas Artes Yara Tupynambá, que tem um metro e meio de altura, está sobre um andaime. Observada por dois fardados armados, esbarra em um problema para terminar a sua obra: como grafar, naquele ambiente, a frase encomendada por Gerson Boson, toque final de seu maior painel sobre a Inconfidência Mineira?. “Condição primeira para a cultura é a liberdade”, repete Yara mentalmente. “Vão me deixar? Vão me prender?”, interroga-se a artista. “Desço do andaime e encerro pelo dia”, recorda-se ela 45 anos depois. De volta para casa, Yara, então com 37 anos, consulta o pai, Otávio Gordilho, diretor da Rede Ferroviária Federal, um udenista convicto. Ouve a bronca: “Não te avisei para não mexer com comunista? Mexeu? Agora você tem de cumprir a sua palavra”.

No dia seguinte, de novo montada sobre o andaime, Yara continua observada. A presença ostensiva de militares na reitoria assim seguiria pelos próximos dois meses, até a nomeação do novo reitor, Marcelo Vasconcelos Coelho, em 13 de dezembro de 1969. Mão trêmula, começa a grafar. “Condição primeira para a …”. Vem um coronel que naqueles dias entra e sai da reitoria com desenvoltura. “Ele me pergunta o que vou escrever”. Yara ri meio amarelo, e diz: “Espera um minutinho, já estou acabando”.

O painel a Inconfidência Mineira que acabava de concluir após dois anos de exaustiva pesquisa e trabalho, é um marco em sua carreira. Poucos dias depois de assumir a reitoria da UFMG, em fevereiro de 1967, Gerson Boson a chamara: “Professora, quero que pinte um quadro de Tiradentes”. Yara indagou-lhe: “Onde vai ficar?”. Boson explicou: “No saguão da reitoria”. Em um insight muito espontâneo, a artista retrucou, sem de fato dimensionar o tamanho da tarefa: “Vamos fazer a Inconfidência Mineira”. Na época, Yara ministrava as aulas no curso de belas-artes pela manhã. No horário da tarde ficaria encarregada da nova tarefa. “Quando vi o tamanho da parede, caí em mim”, conta.

Por um ano Yara pesquisou. Leu os Autos da devassa, estudou os costumes, os trajes, o mobiliário do século 18. Fez croquis. Mas a ideia mestra, o fio condutor que amarraria o painel, não vinha. Ao longo daquele ano de 1967, toda vez que se encontrava com Gerson Boson pelos corredores da UFMG, ouvia a pergunta: “Como está o trabalho?”. Em março de 1968, Yara voltou a Ouro Preto para colher mais material e desenhar mais objetos da época. “Trabalhei o dia inteiro. Fui me deitar à noite, mas às 3h acordei. Enxerguei a primeira cena. Tinha de começar com Felipe dos Santos. Cena a cena vieram à minha mente. As mulheres chorando, o encontro dos inconfidentes, Maria I com os decretos, as ideias chegaram concatenadas”, explica a artista.

A partir daí, nos meses seguintes, o painel ganhou forma e enredo. Em outubro de 1969, véspera do afastamento compulsório de Gerson Boson, a obra ganhava as últimas pinceladas. E ali, naquele momento, sob o olhar atento fardado, Yara termina de grafar: “Condição primeira para a cultura é a liberdade”. Nos termos de Maria Ottilia Lopes Boson, de 86 anos, viúva de Gerson Boson: “Achamos que eles não iriam deixar a frase. A Yara a defendeu com unhas e dentes”. A partir daí, por uma semana, o ir e vir de Yara Tupynambá à Escola de Belas Artes passou a ter a companhia ostensiva de militares. “Durou um tempo, mas passou”, diz a artista. A obra não.

Discurso em tempos difíceis

Em substituição ao professor Aluísio Pimenta – que desde a sua posse ,em 21 de fevereiro de 1964, véspera do golpe militar, acumulou muitos embates em defesa da autonomia universitária com o general Carlos Luís Guedes, comandante da 4ª Divisão de Infantaria de Minas Gerais –, Gerson Boson assumiu a reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 22 de fevereiro de 1967. Catedrático de direito internacional público da Faculdade de Direito, politicamente Boson tinha ligações com o governo Israel Pinheiro, muito próximo ao ex-presidente da República, àquela altura cassado, Juscelino Kubistchek.

O discurso de Boson proferido na posse dava a dimensão de sua concepção de cultura: “Aspirar à cultura significa efetivamente participar e intervir em tudo quanto, na natureza e na história, é essencial ao mundo”. Para isso, é preciso liberdade: “Condição primeira e fundamental da cultura é a liberdade, como atuante e individual espontaneidade do espírito humano”.

Eram tempos difíceis. O regime autoritário-militar endurece a cada nova edição de atos institucionais. E a UFMG, percebida nas hostes militares como “antro de comunistas e de subversivos”, está na linha de frente. Em 9 de julho de 1964, o reitor Aluísio Pimenta chega a ser deposto em nome “de intervenção revolucionária” do general Guedes. Foi nomeado um interventor. Pimenta retomou a cadeira dias depois, comandando a universidade em tensão permanente com o Exército. Enfrentou, por exemplo, em 1966, o sítio da Polícia Militar à Faculdade de Direito, na Praça Afonso Arinos, durante um encontro de estudantes. Não à toa, foi “aposentado” com base no AI-5.

Foram muitas as investidas do regime à UFMG. Em 1968, mais de 200 estudantes foram presos numa invasão da Faculdade de Medicina, na Avenida Alfredo Balena, que começou com uma batalha nas ruas e terminou dentro do prédio da escola. Em 5 de outubro de 1968, foi a vez da invasão da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich). A Polícia Militar cercou o prédio para prender líderes estudantis. Democrata, Boson era tido pelo regime como “omisso”, por não respaldar a ação militar e a “caça subsersiva” ao corpo docente e discente.

Em ato de Junta Militar que governou com a doença de Arthur da Costa e Silva, Gerson Boson foi aposentado compulsoriamente em 13 de outubro de 1969, sem concluir o seu mandato de reitor. “Eu tinha 15 anos. Ele ficou muito abatido. O episódio mexeu muito com as nossas vidas, pois a academia era a vida dele”, conta a filha Patrícia Boson. Décadas mais tarde, Gerson Boson conseguiu anular o ato na Justiça. Mesmo depois de muito pesquisar, ele morreu em 2001, aos 87 anos, sem encontrar o documento nem identificar quem foram os signatários.

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