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Ditadura » Quase 69 anos sem o estudante de direito Demócrito de Sousa Estudante de direito foi assassinado no dia 3 de março de 1945 enquanto estava ao lado de Gilberto Freyre, na sacada do Diario

Júlia Schiaffarino

Publicação: 28/02/2014 08:30 Atualização: 28/02/2014 14:14

O irmão de Demócrito, Jorge de Tarso, guarda até hoje notícias do assassinato foto: Alcione Ferreira/DP/D. A PRESS (Alcione Ferreira/DP/D. A PRESS)
O irmão de Demócrito, Jorge de Tarso, guarda até hoje notícias do assassinato foto: Alcione Ferreira/DP/D. A PRESS

Na música “E se…”, composta em parceria com Francis Hime, Chico Buarque brinca com as hipóteses da vida. Como seria o agora se coisas grandes ou pequenas tivessem sido feitas de maneiras diferentes no passado ou, simplesmente, deixado de ocorrer. E se o estudante de direito Demócrito de Sousa Filho não estivesse na sacada do Diario de Pernambuco no dia 3 de março de 1945 em uma manifestação contra a ditadura de Getulio Vargas? E se o tiro disparado por forças aliadas não tivesse atingido sua cabeça? “Certamente ele teria sido um grande político. Demócrito, que morreu aos 23 anos, reunia as qualidades necessárias. Era um cara combativo, inteligente, bom orador. Teria ido longe”, comenta o irmão de Demócrito, Jorge de Tarso, às vésperas de o crime completar 69 anos.

Demócrito de Sousa era um líder estudantil e presença certa nas manifestações, cada vez mais comuns do período que antecedeu o fim do Estado Novo. Tinha passado a ser investigado pela polícia da época. No dia do assassinato, eram 14h quando ele saiu de casa. “Estava todo vestido de branco, sem gravata. Ainda voltou, na calçada, para entregar uns documentos à minha mãe”, lembra o irmão, que, à época, tinha apenas dez anos. Foi a última vez que Jorge viu Demócrito.

Dali, o jovem seguiu para o Centro da cidade, se incorporou em uma passeata até a pracinha do Diario, onde teve início um grande comício. Da varanda do jornal, Gilberto Freyre fazia o discurso, e Demócrito estava ao lado dele. O impacto do tiro, certeiro, o fez cair no meio da redação do jornal. “Uma pessoa chegou lá em casa dizendo que Demócrito tinha levado um tiro no ombro. Posteriormente nosso vizinho, que tinha ido ao pronto-socorro, disse que ele tinha levado um tiro na cabeça. Eram cerca de 17h quando minha mãe saiu para o hospital e lá viu a gravidade do fato. Papai foi comunicado e foi para lá. Demócrito faleceu às cinco para as nove da noite”, relata detalhadamente Jorge de Tarso.

As memórias vivas assombraram a família pelos anos seguintes. “Minha mãe viveu 20 anos de luto. Até falecer, ela vestiu preto todos os dias”, contou. O pai, que já era avesso à política por ter sofrido perseguições anos antes, quando também era estudante de direito, chegando a ir para o exílio, fechou-se ainda mais ao assunto. Foi tanto que outro irmão, Fernando de Sousa, já falecido, chegou a ser convidado para se candidatar a deputado estadual, tendo sido proibido pela família.

O jornal Diario de Pernambuco também sofreu com a repressão daquele momento. Para evitar maiores revoltas da sociedade com a publicação de notícias da morte do estudante, policiais invadiram a redação, no mesmo dia, destruindo as páginas já prontas da edição de 4 de março de 1945. Houve proibição de circulação nos dias seguintes e apenas em 9 de abril o jornal voltava às bancas. Na manchate, o aviso: “Continuaremos a denunciar os crimes à Nação”.

Saiba mais

Demócrito de Souza Filho

1941 - Começou os estudos da faculdade de Direito do Recife

1944 - Esteve preso por quatro dias por envolvimento em manifestações estudantis contra Getúlio Vargas

2 de abril de 1945 - Em um restaurante, rasgou um retrato de Getúlio Vargas, distribuindo os pedaços entre os clientes. Refugiou-se da polícia no Diario de Pernambuco

3 de março 1945 - Participou de uma passeata em protesto contra Getúlio Vargas, quando foi assassinado

4 de março de 1945 - O Diario de Pernambuco foi proibido de circular, voltando apenas no dia 9 de abril daquele ano

setembro de 1945 - Getúlio Vargas assinou um decreto anistiando os acusados do assassinato de Demócrito de Souza

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