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Memória política » Pioneirismo na luta pela redemocratização O estado esteve no centro da luta pelas Diretas Já, que ganhou as ruas do país entre os anos de 1983 e 1984

Tércio Amaral

Publicação: 16/02/2014 16:00 Atualização: 17/02/2014 09:36

Há 30 anos, mais de 15 mil pessoas se reuniram no Recife para comício pelas Diretas Já na Praça da Independência. Foto: Mauricio Coutinho/DP/D.A Press  (Mauricio Coutinho/DP/D.A Press )
Há 30 anos, mais de 15 mil pessoas se reuniram no Recife para comício pelas Diretas Já na Praça da Independência. Foto: Mauricio Coutinho/DP/D.A Press


Um ato no Centro do Recife, que completa 30 anos nesta segunda-feira, marcou de forma decisiva o processo de redemocratização do país. Um comício que pedia as eleições diretas para presidente da República, cuja manifestação no país ficou conhecida como Diretas Já, reuniu mais de 15 mil pessoas na capital pernambucana. O ato contou com a presença de lideranças históricas, como o senador Marcos Freire (PMDB), o ex-governador Miguel Arraes (PSB), ambos falecidos, além do atual vice-prefeito do Recife Luciano Siqueira (PCdoB) e do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB). Além da pauta eleitoral, o grupo defendia o fim da ditadura militar (1964-1985), o fim da Lei de Imprensa e a investigação dos crimes cometidos contra os opositores do regime.

"Pernambuco foi um dos estados pioneiros, com o comício de Abreu e Lima (o primeiro realizado no país em favor das Diretas), em março de 1983. Nosso estado tem esse marca. Fomos também o primeiro estado a defender a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte, uma iniciativa que tomei no meu primeiro mandato, como deputado estadual em junho de 1971", informou o senador Jarbas Vasconcelos, por e-mail, ao Diario.

O vice-prefeito do Recife Luciano Siqueira, na época deputado estadual pelo MDB, relata que as manifestações naqueles tempos tinham como ponto inicial o largo da feira de Santo Amaro. De lá, como aconteceu naquele 17 de fevereiro de 1984, os manifestantes fizeram um percurso da Faculdade de Direito do Recife até a Praça da Independência em trinta minutos. Ele relata que, na ocasião, o ex-governador Miguel Arraes fez um discurso que empolgou a multidão. "Na verdade, ele fez uma crítica ao Pró-álcool, dizendo que Pernambuco estava perdendo espaço na agricultura de subsistência para plantar cana-de-acúçar e disse que, historicamente, éramos produtores de mandioca, mas estávamos importando o produto", contou, ressaltando que mesmo com as dificuldades na dicção, o socialista conseguia cativar o público.

Além do discurso de Miguel Arraes, outro fato surge na memória de Luciano: a ajuda informal do então prefeito do Recife Joaquim Francisco (PSD), cujo partido era aliado ao regime. "Ele não se posicionou publicamente pedindo as eleições diretas, mas deu a estrutura necessária ao evento depois de conversas com Sérgio Guerra (então deputado estadual pelo MDB)", lembra. "Também contamos com a ajuda de algumas empresas de ônibus que ajudaram liberando alguns ônibus dos subúrbios para que a população chegasse ao Centro do Recife".

Cid Sampaio, Marcos Cunha, Fernando Coelho, José Marcionilo, Miguel Arraes, Jarbas Vasconcelos e Luciano Siqueira em passeata pelas eleições diretas. Foto: Edvaldo Rodrigues/DP/D. A Press  (Edvaldo Rodrigues/DP/D. A Press )
Cid Sampaio, Marcos Cunha, Fernando Coelho, José Marcionilo, Miguel Arraes, Jarbas Vasconcelos e Luciano Siqueira em passeata pelas eleições diretas. Foto: Edvaldo Rodrigues/DP/D. A Press

Ação pernambucana na Justiça
O presidente da Comissão da Verdade de Pernambuco, o ex-deputado Fernando Coelho, diz que, além do desafio do comício, uma história peculiar passou longe das manchetes da grande imprensa na época. Mesmo com os protestos pedindo as eleições diretas, a emenda do deputado Dante Oliveira (MDB) não foi aprovada no Congresso Nacional em abril de 1984. “Eu era deputado na época e, dos 363 presentes, 298 votaram a favor, somente 65 contra. O regime, mesmo assim, inviabilizou a votação, dizendo que não havia quórum. Ou seja, não tinha dois terços do deputados”, argumentou.

“O que muita gente não sabe é que um advogado pernambucano, o doutor José Paulo Cavalcanti, pai de Paulo Cavalcanti Filho (integrante da Comissão Nacional da Verdade), entrou com um mandato de segurança garantindo a validade da votação. O mandado foi logo anulado, mas foi de uma grande coragem”, lembra Coelho, ao contar que o Supremo Tribunal Federal (STF) e boa parte do Poder Judiciário estavam alinhados com o regime.

O deputado também revelou que ainda havia riscos, sim, de participar das manifestações. “Não podemos dizer que estaríamos seguros numa democracia que ainda não era plena, apesar da Lei da Anistia e da abertura do regime”, completa. O senador Jarbas Vasconcelos e o vice-prefeito do Recife Luciano Siqueira discordam. “Havia riscos, mas eram mínimos. O movimento não era apenas uma articulação partidária. Mesmo entre setores militares existia o sentimento de que o regime estava no seu limite”, disse Jarbas.

Saiba mais

O movimento das Diretas Já aconteceu entre os anos de 1983 e 1984 no Brasil, no fim do regime militar, exigindo eleições presidenciais diretas no país

O estado de Pernambuco foi o primeiro que realizou um ato público em favor das eleições diretas. O comício aconteceu no dia 31 de março de 1983, uma praça pública na cidade de Abreu e Lima, com vereadores do então MDB, como Reginaldo Silva e Severino Farias da Silva.

Em 25 de janeiro de 1984, aconteceu o maior evento das Diretas Já no país. O ato foi realizado na cidade de São Paulo, no Vale do Anhangabaú, e reuniu mais de 1,5 milhão de pessoas.

O comício do Recife, que completa 30 anos nesta segunda-feira, teve a participação do ex-governador Miguel Arraes, dos deputados Sérgio Guerra, Cristina Tavares, Luciano Siqueira e Francisco Julião, além de lideranças como Wilson Campos, Luiz de Andrade e Leila Abreu. Também esteve presente a atriz e deputada Beth Mendes. O vice-governador de São Paulo Orestes Quércia estava cotado, mas não veio ao ato 

Esta matéria tem: (1) comentários

Autor: Rosimar Pereira
Como alguns militares naguela epoca entendiam que o regime estava no limite, hoje é o povo brasileiro que ver o governo do PT no limite, é chegada a hora da mudança. Alternancia de poder. | Denuncie |

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