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História » Arraes, Noronha e as recordações do soldado 120 Por nove meses, ex-governador do estado permaneceu preso sem poder falar com o militar

Juliana Colares - Diário de Pernambuco

Publicação: 02/02/2014 09:33 Atualização: 02/02/2014 19:57

José Inácio, o soldado 120, mostra foto de quando trabalhou voluntariamente na ilha (Alcione Ferreira / DP / DA. Press)
José Inácio, o soldado 120, mostra foto de quando trabalhou voluntariamente na ilha
Quando a aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) pousou em Fernando de Noronha naquele 11 de janeiro de 1964, levando a bordo José Inácio Martins Tavares, o soldado 120, havia apenas um preso político na ilha - à época, não mais um presídio, mas um território federal militar. O líder universitário paraibano Martinho Leal Campos foi o primeiro de 34 presos levados para Noronha entre 1964 e 1967 por defenderem ideias de “esquerda”. O governador deposto de Pernambuco, Miguel Arraes, chegou ao arquipélago na segunda leva de detidos. Desembarcou em 2 de abril e ali permaneceu por nove meses. O soldado 120, um dos responsáveis pela guarda no alojamento onde Arraes foi acomodado, tinha 19 anos quando foi servir em Noronha voluntariamente, a contragosto da mãe. Acompanhou o dia a dia do ex-governador como preso político e, com ele, compartilhou o isolamento “fora do mundo”.

O ex-governador ficou recluso em um alojamento do Posto de Observação de Mísseis Teleguiados construído pelos nirte-americanos no fim da década de 1950. Ele e o ex-governador de Sergipe Seixas Dória ficaram isolados do restante dos presos. “Tinham direito a um curto passeio diário para tomar sol, entre 7h e 9h”, diz o soldado. Mas não podiam conversar com os “carcereiros”. Caso de José Inácio. “O capitão Stenio não queria que conversássemos com políticos. Ele pegou Manfredo, que era o soldado 121, falando com Arraes e o expulsou. Um dia, Arraes me disse: ‘soldado, fale comigo’. ‘Não posso falar com o senhor’, respondi. Eu não queria ser expulso como o 121”, contou.


A notícia de que Arraes havia sido transferido do Quartel de Socorro, no Recife, onde foi preso inicialmente, para Noronha, chegou à família do ex-governador via Repórter Esso, noticiário da época, como relata Tereza Rozowykwiat na biografia sobre o ex-governador. Ela conta que Dona Madalena, esposa do ex-governador, só teve permissão para visitá-lo duas vezes, a primeira em apenas 15 minutos. A segunda, um pouco mais longa, com direito a almoço. No período em que esteve preso, Arraes só pôde deixar a ilha uma vez, em 7 de agosto de 1964, para assistir ao casamento da filha Ana Lúcia. A cerimônia teve que ser celebrada na capela da Base Aérea do Recife, onde ele desceu escoltado por militares armados e de onde voltou imediatamente para a prisão em Noronha.

José Inácio,  hoje com 69 anos, esteve na ilha durante quase todo o período em que Arraes ficou preso. Estava deitado quando, naquele 2 de abril, avisaram que o ex-governador estava chegando ao arquipélago. “A gente se levantou, pegou as armas e correu para a pista de aviação”, disse. A função do soldado 120, naquele dia, era tirar da pista de pouso os tonéis de combustíveis usados para impedir planos de resgate aéreos - se alguma aeronave tentasse pousar sem autorização, corria o risco de explodir.

O soldado também tinha que capinar, carregar pedras na cabeça e descarregar navios que chegavam. Durante o período em que serviu em Noronha, foi ao continente apenas uma vez. Como os presos, também se sentia só. “Eu ia olhar para o mar, pensando no outro lado”, disse José Inácio.

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